{"id":86,"date":"2017-11-02T07:34:00","date_gmt":"2017-11-02T09:34:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2025-07-27T19:19:06","modified_gmt":"2025-07-27T22:19:06","slug":"folha-de-migalha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/folha-de-migalha\/","title":{"rendered":"Folha, de Migalha"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\" style=\"text-align: left;\">\n<div style=\"clear: both; text-align: center;\">\n<a href=\"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/leaf__by_niggle___a_small_watercolour_by_rearda-d96ddde.jpg\" style=\"clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" border=\"0\" data-original-height=\"798\" data-original-width=\"1024\" height=\"249\" src=\"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/leaf__by_niggle___a_small_watercolour_by_rearda-d96ddde-300x233.jpg\" width=\"320\" \/><\/a><\/div>\n<p>(Leaf by Niggle)<\/p>\n<p>ERA uma vez um homenzinho, chamado Migalha, que precisava fazer uma longa viagem. Ele<br \/>\nn\u00e3o queria ir, de fato a ideia lhe era muito desagrad\u00e1vel, mas n\u00e3o havia como escapar. Ele<br \/>\nsabia que algum dia teria de partir, mas n\u00e3o apressava os preparativos.<br \/>\nMigalha era pintor, embora n\u00e3o de muito sucesso, em parte porque tinha muitas outras<br \/>\ncoisas para fazer. A maioria dessas coisas ele considerava aborrecidas, mas fazia-as<br \/>\nrazoavelmente bem, quando n\u00e3o conseguia livrar-se delas, o que (segundo ele) era frequente<br \/>\ndemais. As leis do seu pa\u00eds eram bastante r\u00edgidas. Havia tamb\u00e9m outros obst\u00e1culos. Por um<br \/>\nlado, \u00e0s vezes ele ficava desocupado, simplesmente sem fazer nada. <br \/>\n<a name='more'><\/a>Por outro lado, era<br \/>\ngeneroso, de certo modo. Aquele tipo de generosidade que mais o deixava desconfort\u00e1vel do<br \/>\nque o levava a fazer alguma coisa; e, mesmo quando fazia alguma coisa, nada o impedia de<br \/>\nresmungar, perder a paci\u00eancia e praguejar (quase sempre para si mesmo). Mesmo assim,<br \/>\nacabava fazendo um bocado de servi\u00e7os eventuais para seu vizinho, o sr. Par\u00f3quia, que<br \/>\nmancava de uma perna. Ocasionalmente ele at\u00e9 ajudava outras pessoas de mais longe, quando<br \/>\nvinham lhe pedir. De vez em quando tamb\u00e9m se lembrava da viagem e come\u00e7ava a embalar<br \/>\nalgumas coisas de maneira ineficaz; nessas ocasi\u00f5es n\u00e3o pintava muito.<br \/>\nTinha alguns quadros em andamento, em sua maioria grandes e ambiciosos demais para sua<br \/>\nhabilidade. Era aquele tipo de pintor que pinta folhas melhor do que \u00e1rvores. Demorava-se<br \/>\nmuito numa \u00fanica folha, tentando captar sua forma, seu brilho, o cintilar das gotas de orvalho<br \/>\nnas suas bordas. Mas queria pintar uma \u00e1rvore inteira, com todas as folhas no mesmo estilo, e<br \/>\ntodas diferentes.<br \/>\nHavia um quadro em particular que o preocupava. Come\u00e7ara com uma folha ao vento e<br \/>\ntornou-se uma \u00e1rvore; e a \u00e1rvore cresceu, lan\u00e7ando in\u00fameros galhos e as mais fant\u00e1sticas<br \/>\nra\u00edzes. P\u00e1ssaros estranhos pousaram nos galhos e ele precisou lhes dar aten\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, em<br \/>\ntoda a volta da \u00c1rvore e atr\u00e1s dela, atrav\u00e9s das lacunas entre as folhas e os ramos, come\u00e7ou a<br \/>\nse abrir uma paisagem; e havia vislumbres de uma floresta que se estendia pela regi\u00e3o e de<br \/>\nmontanhas com picos nevados. Migalha perdeu o interesse pelos outros quadros; ou pregou-os<br \/>\ncom tachas nas bordas de seu grande quadro. Logo a tela ficou t\u00e3o grande que ele teve de<br \/>\nbuscar uma escada; subia e descia ligeiro por ela, acrescentando um toque aqui e apagando um<\/p>\n<p>peda\u00e7o ali. Quando as pessoas iam visit\u00e1-lo, ele aparentava gentileza, mas ficava remexendo<br \/>\nos l\u00e1pis na escrivaninha. Ouvia o que diziam, mas no fundo pensava o tempo todo na tela<br \/>\nenorme, no galp\u00e3o alto que fora constru\u00eddo para ela no jardim (num canteiro onde outrora ele<br \/>\ncultivava batatas).<br \/>\nN\u00e3o conseguia livrar-se do seu cora\u00e7\u00e3o generoso. \u201cEu queria ser mais firme!\u201d, dizia \u00e0s<br \/>\nvezes para si mesmo, querendo dizer que desejaria que os problemas dos outros n\u00e3o o<br \/>\nincomodassem. Mas por muito tempo n\u00e3o se deixou perturbar seriamente. \u201cSeja como for, vou<br \/>\nterminar este quadro, meu quadro de verdade, antes de ter de fazer essa viagem detest\u00e1vel\u201d,<br \/>\nele dizia. No entanto estava come\u00e7ando a ver que n\u00e3o podia adiar a partida indefinidamente. O<br \/>\nquadro teria de parar de crescer e ser finalizado.<br \/>\nUm dia Migalha parou a certa dist\u00e2ncia do seu quadro e o observou com aten\u00e7\u00e3o e<br \/>\ndesprendimento inusitados. N\u00e3o conseguia saber exatamente o que achava dele, e desejou ter<br \/>\num amigo que lhe dissesse o que pensar. Na verdade o quadro lhe parecia totalmente<br \/>\ninsatisfat\u00f3rio, no entanto muito bonito, o \u00fanico quadro realmente lindo do mundo. Naquele<br \/>\nmomento teria gostado de ver a si mesmo entrar, dar-se um tapinha nas costas e dizer (com<br \/>\n\u00f3bvia sinceridade): \u201cAbsolutamente magn\u00edfico! Vejo exatamente o que voc\u00ea pretende.<br \/>\nContinue assim, e n\u00e3o se preocupe com mais nada! Vamos conseguir uma aposentadoria<br \/>\np\u00fablica para que voc\u00ea n\u00e3o precise preocupar-se.\u201d<br \/>\nNo entanto n\u00e3o havia aposentadoria p\u00fablica. E uma coisa ele via: precisaria de<br \/>\nconcentra\u00e7\u00e3o, trabalho, trabalho duro e ininterrupto, para terminar o quadro, mesmo do<br \/>\ntamanho que estava. Arrega\u00e7ou as mangas e come\u00e7ou a se concentrar. Durante v\u00e1rios dias<br \/>\ntentou n\u00e3o se preocupar com outras coisas. Mas chegou uma imensa onda de interrup\u00e7\u00f5es. Em<br \/>\nsua casa havia coisas para consertar; precisou sair para participar de um j\u00fari na cidade; um<br \/>\namigo distante ficou doente; o sr. Par\u00f3quia ficou de cama com lumbago; e n\u00e3o paravam de<br \/>\nchegar visitas. Era primavera, e todos queriam tomar ch\u00e1 de gra\u00e7a no campo: Migalha morava<br \/>\nnuma casinha agrad\u00e1vel, a quil\u00f4metros da cidade. No \u00edntimo rogava pragas contra essas<br \/>\npessoas, mas n\u00e3o podia negar que ele mesmo as convidara tempos antes, no inverno, quando<br \/>\nn\u00e3o considerava \u201cinterrup\u00e7\u00e3o\u201d ir \u00e0s lojas e tomar ch\u00e1 com conhecidos na cidade. Tentou<br \/>\nendurecer o cora\u00e7\u00e3o, mas sem sucesso. Havia muitas coisas para as quais n\u00e3o ousava dizer<br \/>\nn\u00e3o, quer julgasse que fossem deveres ou n\u00e3o; e havia coisas que era obrigado a fazer,<br \/>\nindependentemente do que achasse. Algumas visitas insinuavam que o jardim estava meio<br \/>\nlargado e que poderia receber a visita de um Inspetor. \u00c9 claro que muito poucos sabiam do<br \/>\nseu quadro; e se soubessem n\u00e3o faria muita diferen\u00e7a. Duvido que o achassem muito<br \/>\nimportante. Ouso dizer que n\u00e3o era mesmo um quadro muito bom, apesar de talvez ter alguns<br \/>\nbons trechos. A \u00c1rvore, seja como for, era curiosa. Bastante singular \u00e0 sua maneira. Assim<br \/>\ncomo Migalha; mas ele tamb\u00e9m era um homenzinho muito comum e meio bobo.<\/p>\n<p>Finalmente o tempo de Migalha tornou-se precioso de verdade. Seus conhecidos da cidade<br \/>\ndistante come\u00e7aram a lembrar que o homenzinho precisava fazer uma viagem desagrad\u00e1vel, e<\/p>\n<p>alguns come\u00e7aram a calcular por quanto tempo, no m\u00e1ximo, ele poderia adi\u00e1-la. Perguntavam-<br \/>\nse quem ficaria com sua casa, e se o jardim seria mais bem cuidado.<\/p>\n<p>Chegou o outono, com muita chuva e vento. O pintorzinho estava em seu galp\u00e3o. Estava no<br \/>\nalto da escada, tentando captar o brilho do sol poente no pico de uma montanha nevada, que<br \/>\navistara logo \u00e0 esquerda da ponta frondosa de um dos galhos da \u00c1rvore. Sabia que teria de<br \/>\npartir logo, talvez no in\u00edcio do ano seguinte. Mal conseguiria terminar o quadro, e ainda por<br \/>\ncima s\u00f3 mais ou menos: havia alguns cantos em que j\u00e1 n\u00e3o teria tempo de fazer mais do que<br \/>\nsugerir o que desejava.<br \/>\nAlgu\u00e9m bateu na porta. \u201cEntre!\u201d, ele disse asperamente, e desceu da escada. Ficou parado,<br \/>\nrevirando o pincel. Era seu vizinho Par\u00f3quia, seu \u00fanico vizinho de verdade, todas as outras<br \/>\npessoas moravam longe. Mesmo assim ele n\u00e3o gostava muito daquele homem; em parte porque<br \/>\ntinha problemas e precisava de ajuda com tanta frequ\u00eancia; e tamb\u00e9m porque n\u00e3o ligava para<br \/>\npintura, mas era muito criterioso em rela\u00e7\u00e3o a jardinagem. Quando Par\u00f3quia olhava para o<br \/>\njardim de Migalha (o que era frequente), enxergava principalmente as ervas daninhas, e<br \/>\nquando olhava para os quadros de Migalha (o que era raro) s\u00f3 enxergava manchas verdes e<br \/>\ncinzentas e linhas pretas, que lhe pareciam absurdas. N\u00e3o hesitava em mencionar as ervas<br \/>\ndaninhas (um dever de vizinho), mas abstinha-se de dar qualquer opini\u00e3o sobre os quadros.<br \/>\nAchava que estava sendo muito gentil e n\u00e3o percebia que, mesmo sendo gentil, n\u00e3o era<br \/>\nsuficientemente gentil. Ajudar com as ervas daninhas (e talvez elogiar os quadros) seria<br \/>\nmelhor.<br \/>\n\u2013 Bem, Par\u00f3quia, o que foi? \u2013 disse Migalha.<br \/>\n\u2013 Eu n\u00e3o devia interromp\u00ea-lo, eu sei \u2013 disse Par\u00f3quia (sem nem dar uma olhadela no<br \/>\nquadro). \u2013 Com certeza voc\u00ea est\u00e1 muito ocupado.<br \/>\nO pr\u00f3prio Migalha pretendia dizer algo parecido, mas perdera a oportunidade. Tudo o que<br \/>\ndisse foi: \u2013 Estou.<br \/>\n\u2013 Mas n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m mais a quem eu possa recorrer \u2013 disse Par\u00f3quia.<br \/>\n\u2013 Pois \u00e9 \u2013 disse Migalha dando um suspiro, um daqueles suspiros que s\u00e3o um coment\u00e1rio<br \/>\npessoal, mas n\u00e3o totalmente inaud\u00edveis. \u2013 O que posso fazer por voc\u00ea?<br \/>\n\u2013 Faz dias que minha mulher est\u00e1 doente, e estou ficando preocupado \u2013 disse Par\u00f3quia. \u2013 O<br \/>\nvento arrancou metade das telhas do meu telhado, e est\u00e1 entrando \u00e1gua no quarto. Acho que eu<br \/>\ndevia procurar o m\u00e9dico. E os pedreiros tamb\u00e9m, s\u00f3 que eles demoram muito para chegar.<br \/>\nQueria saber se voc\u00ea tem madeira e lona sobrando, s\u00f3 para eu fazer uns remendos e me<\/p>\n<p>arranjar por um ou dois dias \u2013 ent\u00e3o ele olhou para o quadro.<br \/>\n\u2013 Puxa vida! \u2013 disse Migalha. \u2013 Voc\u00ea est\u00e1 sem sorte. Espero que sua mulher s\u00f3 tenha pego<br \/>\num resfriado. Vou at\u00e9 l\u00e1 para ajud\u00e1-lo a descer a escada com a paciente.<br \/>\n\u2013 Muito obrigado \u2013 disse Par\u00f3quia, com certa frieza. \u2013 Mas n\u00e3o \u00e9 resfriado, \u00e9 febre. Eu n\u00e3o<br \/>\no incomodaria por causa de um resfriado. E minha mulher j\u00e1 est\u00e1 de cama no andar de baixo.<br \/>\nN\u00e3o posso subir e descer com bandejas, com essa minha perna. Mas vejo que voc\u00ea est\u00e1<br \/>\nocupado. Desculpe-me ter incomodado. Esperava que voc\u00ea tivesse um tempo para procurar<br \/>\num m\u00e9dico, ao ver minha situa\u00e7\u00e3o; e o pedreiro tamb\u00e9m, se voc\u00ea de fato n\u00e3o tem lona<br \/>\nsobrando.<br \/>\n\u2013 Claro \u2013 disse Migalha; por\u00e9m havia outras palavras em seu cora\u00e7\u00e3o, que no momento<br \/>\nestava simplesmente mole, sem nenhum sentimento de generosidade. \u2013 Eu poderia ir. Eu vou,<br \/>\nse voc\u00ea est\u00e1 mesmo preocupado.<br \/>\n\u2013 Estou preocupado, muito preocupado. Quisera eu n\u00e3o ser manco \u2013 disse Par\u00f3quia.<br \/>\nEnt\u00e3o Migalha foi. Era complicado. Par\u00f3quia era seu vizinho, e tudo ficava muito longe.<br \/>\nMigalha tinha bicicleta, Par\u00f3quia n\u00e3o tinha e n\u00e3o conseguia andar de bicicleta. Par\u00f3quia tinha<br \/>\numa perna aleijada, uma perna aleijada de verdade que lhe causava dor intensa; isso era<br \/>\npreciso lembrar, e tamb\u00e9m sua express\u00e3o amarga e sua voz chorosa. Claro, Migalha tinha um<br \/>\nquadro e quase n\u00e3o tinha tempo para termin\u00e1-lo. Mas parecia que era Par\u00f3quia que tinha de<br \/>\ncontar com isso, n\u00e3o Migalha. No entanto Par\u00f3quia n\u00e3o contava com quadros; e Migalha n\u00e3o<br \/>\npodia mudar isso. \u201cCom os diabos!\u201d, ele disse para si mesmo, ao tirar a bicicleta.<br \/>\nChovia e ventava, e a luz do dia estava se extinguindo. \u201cHoje n\u00e3o vou trabalhar mais!\u201d,<br \/>\npensou Migalha, e enquanto pedalava ia praguejando sozinho ou imaginando suas pinceladas<br \/>\nna montanha e no ramo de folhas ao lado dela, que antes ele imaginara na primavera. Seus<br \/>\ndedos se contorciam no guid\u00e3o. Agora que sa\u00edra do galp\u00e3o, enxergava exatamente o tratamento<br \/>\nque deveria dar \u00e0quele ramo brilhante que emoldurava a vista distante da montanha. Mas tinha<br \/>\numa sensa\u00e7\u00e3o deprimente no cora\u00e7\u00e3o, uma esp\u00e9cie de medo de que nunca fosse ter a<br \/>\noportunidade de tentar.<br \/>\nMigalha encontrou o m\u00e9dico e deixou um recado para o pedreiro. O escrit\u00f3rio estava<br \/>\nfechado, e o pedreiro tinha ido para casa, instalar-se na frente da lareira. Migalha ficou<br \/>\nencharcado at\u00e9 os ossos e tamb\u00e9m pegou um resfriado. O m\u00e9dico n\u00e3o saiu t\u00e3o prontamente<br \/>\nquanto Migalha. Chegou no dia seguinte, o que para ele era bem conveniente, pois \u00e0quela<br \/>\naltura tinha dois pacientes para tratar, em casas vizinhas. Migalha estava de cama, com febre<br \/>\nalta, e maravilhosos desenhos de folhas e ramos intrincados formavam-se em sua cabe\u00e7a e no<br \/>\nteto. N\u00e3o lhe trouxe consolo ficar sabendo que a sra. Par\u00f3quia estava apenas resfriada e j\u00e1<br \/>\nsairia da cama. Virou o rosto para a parede e enterrou-se em folhas.<\/p>\n<p>Ele ficou de cama por algum tempo. O vento continuou soprando. Arrancou mais muitas<br \/>\ntelhas de Par\u00f3quia, e tamb\u00e9m algumas de Migalha: seu telhado tamb\u00e9m come\u00e7ou a gotejar. O<\/p>\n<p>pedreiro n\u00e3o veio. Migalha n\u00e3o se importou, pelo menos por um ou dois dias. Ent\u00e3o arrastou-<br \/>\nse para fora em busca de comida (Migalha n\u00e3o tinha esposa). Par\u00f3quia n\u00e3o apareceu:<\/p>\n<p>apanhara chuva na perna e estava com dor; e sua mulher estava ocupada enxugando a \u00e1gua e<br \/>\nperguntando a si mesma se \u201caquele sr. Migalha\u201d teria se esquecido de chamar o pedreiro. Se<br \/>\nvisse possibilidade de pedir emprestada alguma coisa \u00fatil, teria mandado Par\u00f3quia at\u00e9 l\u00e1, com<br \/>\nou sem perna; mas n\u00e3o via, de modo que Migalha foi abandonado.<br \/>\nAo fim de uma semana, mais ou menos, Migalha voltou cambaleando ao galp\u00e3o. Tentou<br \/>\nsubir a escada, mas sentiu tontura. Sentou-se e contemplou o quadro, mas aquele dia n\u00e3o tinha<br \/>\nna cabe\u00e7a desenhos de folhas nem vis\u00f5es de montanhas. Poderia ter pintado uma vista<br \/>\nlong\u00ednqua de um deserto arenoso, mas n\u00e3o tinha energia.<br \/>\nNo dia seguinte estava se sentindo bem melhor. Subiu a escada e come\u00e7ou a pintar. Havia<br \/>\nacabado de retomar a pintura quando bateram na porta.<br \/>\n\u2013 Droga! \u2013 disse Migalha. Mas foi como se tivesse dito \u201cEntre!\u201d, educadamente, pois a<br \/>\nporta se abriu mesmo assim. Dessa vez entrou um homem muito alto, totalmente desconhecido.<br \/>\n\u2013 Este \u00e9 um est\u00fadio particular \u2013 disse Migalha. \u2013 Estou ocupado. V\u00e1 embora!<br \/>\n\u2013 Sou Inspetor de Casas \u2013 disse o homem, erguendo o cart\u00e3o de identifica\u00e7\u00e3o para que<br \/>\nMigalha o visse do alto da escada.<br \/>\n\u2013 Ah! \u2013 ele disse.<br \/>\n\u2013 A casa do seu vizinho n\u00e3o est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es aceit\u00e1veis \u2013 disse o Inspetor.<br \/>\n\u2013 Eu sei \u2013 disse Migalha. \u2013 Levei um recado aos pedreiros h\u00e1 muito tempo, mas eles nunca<br \/>\nvieram. Depois fiquei doente.<br \/>\n\u2013 Entendo \u2013 disse o Inspetor. \u2013 Mas agora n\u00e3o est\u00e1 doente.<br \/>\n\u2013 Mas n\u00e3o sou pedreiro. Par\u00f3quia deveria prestar queixa ao Conselho Municipal e obter<br \/>\naux\u00edlio do Servi\u00e7o de Emerg\u00eancia.<br \/>\n\u2013 Eles est\u00e3o ocupados com estragos piores do que os daqui \u2013 disse o Inspetor. \u2013 Houve uma<br \/>\nenchente no vale, e muitas fam\u00edlias est\u00e3o desabrigadas. Devia ter ajudado seu vizinho a fazer<br \/>\nconsertos provis\u00f3rios e evitar que o reparo dos danos ficasse mais caro que o necess\u00e1rio. A<br \/>\nlei \u00e9 essa. Aqui est\u00e1 cheio de material: lona, madeira, tinta \u00e0 prova-d\u2019\u00e1gua.<br \/>\n\u2013 Onde? \u2013 perguntou Migalha, indignado.<br \/>\n\u2013 Ali! \u2013 disse o Inspetor, apontando para o quadro.<br \/>\n\u2013 Meu quadro! \u2013 exclamou Migalha.<\/p>\n<p>\u2013 Imagino que seja \u2013 disse o Inspetor. \u2013 Mas as casas v\u00eam em primeiro lugar. A lei \u00e9 essa.<br \/>\n\u2013 Mas n\u00e3o posso&#8230; \u2013 Migalha n\u00e3o disse mais nada, pois naquele momento entrou outro<br \/>\nhomem, muito parecido com o Inspetor, quase um s\u00f3sia: alto, todo vestido de preto.<br \/>\n\u2013 Venha comigo! \u2013 disse ele. \u2013 Sou o Condutor.<br \/>\nMigalha desceu da escada aos trambolh\u00f5es. A febre parecia ter voltado e sua cabe\u00e7a<br \/>\nflutuava; sentia frio no corpo todo.<br \/>\n\u2013 Condutor? Condutor? \u2013 ele disse, batendo os dentes. \u2013 Condutor do qu\u00ea?<br \/>\n\u2013 Seu e do seu vag\u00e3o \u2013 disse o homem. \u2013 O vag\u00e3o foi encomendado faz muito tempo.<br \/>\nFinalmente chegou. Est\u00e1 esperando. Voc\u00ea vai iniciar sua viagem hoje, sabia?<br \/>\n\u2013 Ah, sim! \u2013 disse o Inspetor. \u2013 Voc\u00ea tem de viajar; mas n\u00e3o \u00e9 bom ir embora deixando<br \/>\ntrabalho por fazer. Mas pelo menos agora podemos usar essa lona para alguma coisa.<br \/>\n\u2013 Ai, minha nossa! \u2013 disse o pobre Migalha, come\u00e7ando a chorar. \u2013 E nem, nem est\u00e1<br \/>\nterminado!<br \/>\n\u2013 N\u00e3o est\u00e1 terminado? \u2013 disse o Condutor. \u2013 Bem, de todo modo, no que lhe diz respeito,<br \/>\nacabou-se. Vamos embora!<br \/>\nMigalha foi-se embora, muito quieto. O Condutor n\u00e3o lhe deu tempo de fazer as malas,<br \/>\ndizendo que ele devia ter feito isso antes e que iam perder o trem; ent\u00e3o Migalha s\u00f3 conseguiu<br \/>\nagarrar uma sacola no sagu\u00e3o. Descobriu que ela continha apenas um estojo de tintas e um<br \/>\nlivrinho com seus esbo\u00e7os: nem comida nem roupas. Acabaram pegando o trem. Migalha<br \/>\nestava muito cansado e com sono; mal percebia o que estava acontecendo quando o enfiaram<br \/>\nna sua cabine. N\u00e3o se importava muito; tinha esquecido aonde deveria ir ou por que estava<br \/>\nindo. Quase imediatamente o trem entrou num t\u00fanel escuro.<br \/>\nMigalha acordou numa esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria muito grande e sombria. Um Carregador<br \/>\npercorria a plataforma e gritava, mas n\u00e3o o nome do lugar; ele gritava Migalha.<br \/>\nMigalha saiu depressa e se deu conta de que deixara sua sacola para tr\u00e1s. Virou-se, mas o<br \/>\ntrem j\u00e1 tinha partido.<br \/>\n\u2013 Ah, voc\u00ea est\u00e1 a\u00ed! \u2013 disse o Carregador. \u2013 Por aqui! O qu\u00ea? N\u00e3o tem bagagem? Vai ter de<br \/>\nir \u00e0 Casa de Trabalho.<br \/>\nMigalha sentiu-se muito mal e desmaiou na plataforma. Foi colocado numa ambul\u00e2ncia e<br \/>\nlevado para a Enfermaria da Casa de Trabalho.<br \/>\nN\u00e3o gostou nem um pouco do tratamento. O rem\u00e9dio que lhe deram era amargo. Os<br \/>\nfuncion\u00e1rios e auxiliares eram hostis, silenciosos e r\u00edgidos; e ele nunca via outras pessoas,<br \/>\nexceto um m\u00e9dico muito severo, que ia v\u00ea-lo de vez em quando. Mais parecia estar na pris\u00e3o<\/p>\n<p>que no hospital. Ele tinha de trabalhar muito, em hor\u00e1rios predeterminados: escavava, fazia<br \/>\nservi\u00e7os de carpintaria e pintava t\u00e1buas brutas todas de uma cor \u00fanica. Nunca o deixavam sair<br \/>\nao ar livre, e todas as janelas davam para dentro. Era mantido no escuro por horas a fio, \u201cpara<br \/>\npensar um pouco\u201d, diziam. Ele perdeu a no\u00e7\u00e3o do tempo. Nem come\u00e7ou a se sentir melhor, se<br \/>\nisso fosse entendido como prazer em fazer alguma coisa. N\u00e3o sentia prazer nenhum, nem<br \/>\nmesmo ao se deitar na cama.<br \/>\nNo come\u00e7o, durante mais ou menos o primeiro s\u00e9culo (estou simplesmente dando suas<br \/>\nimpress\u00f5es), ele se preocupava vagamente com o passado. S\u00f3 repetia uma coisa para si<br \/>\nmesmo, deitado no escuro: \u201cEu devia ter ido \u00e0 casa do Par\u00f3quia na primeira manh\u00e3 depois que<br \/>\ncome\u00e7ou a ventania. Eu queria ter ido. As primeiras telhas soltas teriam sido f\u00e1ceis de<br \/>\nconsertar. Ent\u00e3o a sra. Par\u00f3quia talvez n\u00e3o se tivesse resfriado. Ent\u00e3o eu tamb\u00e9m n\u00e3o me teria<br \/>\nresfriado. Ent\u00e3o eu teria tido uma semana a mais.\u201d Mas com o tempo acabou esquecendo por<br \/>\nque queria uma semana a mais. Depois disso, s\u00f3 se preocupava com seus servi\u00e7os no hospital.<br \/>\nEle os planejava, calculando quanto tempo levaria para fazer aquela t\u00e1bua parar de ranger, ou<br \/>\npara erguer aquela porta, ou para consertar aquela perna de mesa. Provavelmente ele se tornou<br \/>\nmesmo bastante \u00fatil, embora ningu\u00e9m jamais lhe dissesse isso. Mas essa, \u00e9 claro, n\u00e3o pode ter<br \/>\nsido a raz\u00e3o para terem retido o pobre homenzinho por tanto tempo. Talvez estivessem<br \/>\nesperando que ele melhorasse, julgando essa \u201cmelhora\u201d por algum estranho crit\u00e9rio m\u00e9dico<br \/>\ndeles.<br \/>\nSeja como for, o pobre Migalha n\u00e3o tinha prazer na vida, n\u00e3o o que ele chamava de prazer.<br \/>\nCertamente n\u00e3o estava se divertindo. Mas \u00e9 ineg\u00e1vel que ele come\u00e7ava a ter um sentimento de<br \/>\n\u2013 bem, satisfa\u00e7\u00e3o: mais p\u00e3o do que geleia. Era capaz de pegar uma tarefa no momento em que<br \/>\nsoava um sino, e prontamente deix\u00e1-la de lado no momento em que soava o outro, em ordem e<br \/>\npreparada para ser retomada na hora certa. Agora conseguia fazer muita coisa em um dia;<br \/>\nacabava com esmero os servi\u00e7os pequenos. N\u00e3o tinha \u201ctempo para si\u201d (exceto quando estava<br \/>\nsozinho em sua cela-dormit\u00f3rio), e ainda assim estava se tornando senhor do seu tempo;<br \/>\ncome\u00e7ava a saber exatamente o que podia fazer com ele. N\u00e3o havia sensa\u00e7\u00e3o de pressa. Agora<br \/>\nestava interiormente mais tranquilo, e na hora do descanso conseguia realmente descansar.<br \/>\nEnt\u00e3o, de repente, todos os seus hor\u00e1rios foram alterados; mal o deixavam ir para a cama;<br \/>\nfoi completamente afastado da carpintaria e s\u00f3 o deixaram escavando, dia ap\u00f3s dia. Ele<br \/>\naguentou bem. Muito tempo se passou at\u00e9 come\u00e7ar a tatear o fundo da mente em busca das<br \/>\nimpreca\u00e7\u00f5es que praticamente esquecera. Continuou escavando, at\u00e9 ter a sensa\u00e7\u00e3o de estar<br \/>\ncom as costas quebradas, as m\u00e3os ficarem em carne viva, e ele sentir que n\u00e3o aguentaria mais<br \/>\numa s\u00f3 pazada. Ningu\u00e9m lhe agradeceu. Mas o m\u00e9dico veio e olhou para ele.<br \/>\n\u2013 Chega! \u2013 disse ele. \u2013 Repouso absoluto, no escuro.<\/p>\n<p>Migalha estava deitado no escuro, em repouso absoluto; sem sentir nem pensar nada, n\u00e3o<br \/>\nsabia dizer se estava ali deitado h\u00e1 horas ou h\u00e1 anos. Mas agora ouvia Vozes, n\u00e3o eram vozes<br \/>\nque ele j\u00e1 tivesse ouvido antes. Parecia haver uma Junta M\u00e9dica, ou talvez um Tribunal de<br \/>\nInqu\u00e9rito, ali bem perto, num recinto cont\u00edguo com a porta aberta, possivelmente, embora ele<br \/>\nn\u00e3o visse nenhuma luz.<br \/>\n\u2013 Agora o caso Migalha \u2013 disse uma Voz, uma voz severa, mais severa que a do m\u00e9dico.<br \/>\n\u2013 Qual era o problema com ele? \u2013 disse uma Segunda Voz, que se poderia dizer mansa,<br \/>\nembora n\u00e3o suave. Era uma voz que transmitia autoridade, e soava esperan\u00e7osa e triste ao<br \/>\nmesmo tempo. \u2013 Qual era o problema com Migalha? O cora\u00e7\u00e3o dele estava no lugar certo.<br \/>\n\u2013 Sim, mas n\u00e3o funcionava direito \u2013 disse a Primeira Voz. \u2013 E sua cabe\u00e7a n\u00e3o estava bem<br \/>\nparafusada; ele quase n\u00e3o pensava. Vejam o tempo que ele desperdi\u00e7ou, nem mesmo se<br \/>\ndivertindo! Nunca se preparou para a viagem. Era moderadamente pr\u00f3spero, no entanto<br \/>\nchegou aqui quase sem recursos, e teve de ser posto na ala dos indigentes. Temo que seja um<br \/>\ncaso grave. Acho que deveria ficar mais algum tempo.<br \/>\n\u2013 Talvez n\u00e3o lhe fizesse nenhum mal \u2013 disse a Segunda Voz. \u2013 Mas, \u00e9 claro, ele \u00e9 apenas um<br \/>\nhomenzinho. Nunca esteve destinado a se tornar grande; e nunca foi muito forte. Vamos ver os<br \/>\nRegistros. Sim. H\u00e1 alguns pontos favor\u00e1veis, vejam.<br \/>\n\u2013 Talvez \u2013 disse a Primeira Voz \u2013; mas muito poucos que realmente resistam ao exame.<br \/>\n\u2013 Bem \u2013 disse a Segunda Voz \u2013, h\u00e1 estes. Era um pintor nato. De categoria secund\u00e1ria,<br \/>\nclaro; ainda assim, uma Folha por Migalha tem um encanto pr\u00f3prio. Colocava grande empenho<br \/>\nnas folhas, por elas mesmas. Mas nunca achou que isso o tornasse importante. N\u00e3o h\u00e1<br \/>\nanota\u00e7\u00e3o nos Registros de que ele pensasse, nem mesmo no seu \u00edntimo, que isso desculparia<br \/>\nsua neglig\u00eancia para com as coisas determinadas por lei.<br \/>\n\u2013 Ent\u00e3o n\u00e3o deveria ter negligenciado tantas delas \u2013 disse a Primeira Voz.<br \/>\n\u2013 Ainda assim, respondeu a muitos Chamados.<br \/>\n\u2013 Uma porcentagem pequena, na maioria do tipo mais f\u00e1cil, e ele os considerava<br \/>\nInterrup\u00e7\u00f5es. Os Registros est\u00e3o cheios dessa palavra, e tamb\u00e9m de queixas e impreca\u00e7\u00f5es<br \/>\ntolas.<br \/>\n\u2013 \u00c9 verdade; mas \u00e9 claro que para ele eram interrup\u00e7\u00f5es, pobre homenzinho. E h\u00e1 uma<br \/>\ncoisa: ele nunca esperava nenhum Retorno, como tantos da sua esp\u00e9cie dizem. H\u00e1 o caso<br \/>\nPar\u00f3quia, aquele que chegou depois. Era vizinho de Migalha, nunca moveu uma palha por ele,<br \/>\ne raramente deu mostras de gratid\u00e3o. Mas n\u00e3o h\u00e1 anota\u00e7\u00e3o nos Registros de que Migalha<br \/>\nesperasse gratid\u00e3o de Par\u00f3quia; parece que isso n\u00e3o lhe passava pela ideia.<br \/>\n\u2013 Sim, esse \u00e9 um ponto \u2013 disse a Primeira Voz \u2013; mas bem pequeno. Voc\u00ea vai perceber que<\/p>\n<p>muitas vezes Migalha simplesmente esquecia. As coisas que tinha de fazer para Par\u00f3quia ele<br \/>\napagava da mem\u00f3ria como um inconveniente j\u00e1 resolvido.<br \/>\n\u2013 Ainda assim, h\u00e1 este \u00faltimo relat\u00f3rio \u2013 disse a Segunda Voz \u2013, aquele trajeto de bicicleta<br \/>\nque o deixou encharcado. Isso eu quero destacar. Parece \u00f3bvio que foi um sacrif\u00edcio genu\u00edno.<br \/>\nMigalha percebeu que estava jogando fora a \u00faltima oportunidade de terminar o quadro, e<br \/>\npercebeu tamb\u00e9m que Par\u00f3quia estava se preocupando desnecessariamente.<br \/>\n\u2013 Acho que voc\u00ea est\u00e1 exagerando \u2013 disse a Primeira Voz. \u2013 Mas a \u00faltima palavra \u00e9 sua.<br \/>\nCabe a voc\u00ea, \u00e9 claro, dar a melhor interpreta\u00e7\u00e3o aos fatos. \u00c0s vezes eles a corroboram. O que<br \/>\nvoc\u00ea prop\u00f5e?<br \/>\n\u2013 Acho que agora \u00e9 o caso de dar um tratamento suave \u2013 disse a Segunda Voz.<br \/>\nMigalha achou que nunca tinha ouvido nada t\u00e3o generoso quanto aquela Voz. Tratamento<br \/>\nSuave soava como um monte de ricos presentes e um convite para o banquete de um Rei.<br \/>\nEnt\u00e3o, de repente, Migalha sentiu vergonha. Ouvir que era considerado caso de Tratamento<br \/>\nSuave desarmou-o e o fez corar no escuro. Era como sermos elogiados em p\u00fablico quando<br \/>\nsabemos, e toda a plateia sabe, que o elogio n\u00e3o \u00e9 merecido. Migalha escondeu seu rubor no<br \/>\ncobertor \u00e1spero.<br \/>\nFez-se sil\u00eancio. Ent\u00e3o a Primeira Voz falou com Migalha, bem de perto. \u2013 Voc\u00ea ouviu \u2013<br \/>\ndisse ela.<br \/>\n\u2013 Ouvi \u2013 disse Migalha.<br \/>\n\u2013 Bem, o que tem a dizer?<br \/>\n\u2013 Poderiam me dar not\u00edcias de Par\u00f3quia? \u2013 disse Migalha. \u2013 Gostaria de v\u00ea-lo outra vez.<br \/>\nEspero que n\u00e3o esteja muito doente. Podem curar a perna dele? Ela o fazia passar por maus<br \/>\nbocados. E por favor n\u00e3o se preocupem com ele e comigo. Ele foi um \u00f3timo vizinho, e me<br \/>\narranjava batatas excelentes e muito baratas, o que me poupou bastante tempo.<br \/>\n\u2013 \u00c9 mesmo? \u2013 disse a Primeira Voz. \u2013 Fico contente em saber.<br \/>\nFez-se sil\u00eancio de novo. Migalha ouviu as Vozes se afastando. \u2013 Bem, concordo \u2013 ouviu a<br \/>\nPrimeira Voz dizer ao longe. \u2013 Que ele v\u00e1 para a pr\u00f3xima etapa. Amanh\u00e3, se voc\u00ea quiser.<\/p>\n<p>Ao acordar, Migalha constatou que as venezianas tinham sido abertas e que a luz do sol<br \/>\nentrava na sua pequena cela. Levantou-se e viu que haviam deixado roupas confort\u00e1veis para<br \/>\nele, n\u00e3o um uniforme de hospital. Depois do caf\u00e9 da manh\u00e3 o m\u00e9dico tratou das suas m\u00e3os<br \/>\nmachucadas, passando nelas um unguento que as curou imediatamente. Deu a Migalha alguns<br \/>\nbons conselhos e um frasco de t\u00f4nico (caso ele precisasse). No meio da manh\u00e3 deram a ele um<br \/>\nbiscoito e uma ta\u00e7a de vinho; e depois lhe deram uma passagem.<\/p>\n<p>\u2013 Agora pode ir para a esta\u00e7\u00e3o \u2013 disse o m\u00e9dico. \u2013 O Carregador vai tomar conta de voc\u00ea.<br \/>\nAdeus.<\/p>\n<p>Migalha esgueirou-se pela porta principal e deu umas piscadelas. O sol estava muito forte.<br \/>\nEsperava topar com uma cidade grande, compat\u00edvel com o tamanho da esta\u00e7\u00e3o; mas n\u00e3o foi<br \/>\nassim. Viu-se no alto de um morro verde, nu, varrido por um vento intenso e revigorante. N\u00e3o<br \/>\nhavia ningu\u00e9m nas redondezas. L\u00e1 embaixo, ao p\u00e9 do morro, via brilhar o telhado da esta\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u00c1gil, mas sem correr, caminhou morro abaixo, at\u00e9 a esta\u00e7\u00e3o. O Carregador reconheceu-o<br \/>\nimediatamente.<br \/>\n\u2013 Por aqui! \u2013 disse ele, conduzindo Migalha at\u00e9 uma plataforma onde estava parado um<br \/>\ntrenzinho local muito agrad\u00e1vel: um vag\u00e3o e uma pequena locomotiva, ambos muito brilhantes,<br \/>\nlimpos e rec\u00e9m-pintados. Era como se fosse a primeira viagem deles. At\u00e9 a ferrovia que se<br \/>\nestendia diante da locomotiva parecia nova: os trilhos reluziam, os coxins estavam pintados<br \/>\nde verde e os dormentes exalavam um delicioso cheiro de alcatr\u00e3o sob a morna luz do sol. O<br \/>\nvag\u00e3o estava vazio.<br \/>\n\u2013 Aonde vai este trem, Carregador? \u2013 perguntou Migalha.<br \/>\n\u2013 Acho que ainda n\u00e3o marcaram o nome \u2013 disse o Carregador. \u2013 Mas voc\u00ea vai encontrar<br \/>\nsem problemas \u2013 e ele fechou a porta.<br \/>\nO trem partiu imediatamente. Migalha reclinou-se no assento. A pequena locomotiva<br \/>\navan\u00e7ou bufando por um talho profundo entre altas ribanceiras verdes, entelhado pelo c\u00e9u<br \/>\nazul. Parecia n\u00e3o ter passado muito tempo quando a locomotiva apitou, os freios foram<br \/>\nacionados e o trem parou. N\u00e3o havia esta\u00e7\u00e3o nem tabuleta, s\u00f3 um lance de escada que subia<br \/>\npela ribanceira verde. No alto da escada havia uma catraca numa sebe podada. Ao lado da<br \/>\ncatraca estava a bicicleta dele; pelo menos parecia ser dele, e numa etiqueta amarela<br \/>\namarrada ao guid\u00e3o estava escrito Migalha, com grandes letras pretas.<br \/>\nMigalha abriu a catraca com um empurr\u00e3o, pulou na bicicleta e desceu o morro rodando ao<br \/>\nsol da primavera. Logo descobriu que a trilha pela qual tinha enveredado havia desaparecido,<br \/>\ne a bicicleta rolava por cima de um maravilhoso gramado. Era um gramado verde e compacto,<br \/>\nmas ele distinguia nitidamente cada folha. Parecia lembrar-se de ter visto ou sonhado com<br \/>\naquele relvado em algum lugar. As curvas da paisagem eram, de certo modo, familiares. Sim,<br \/>\no terreno ia se tornando plano, como era de esperar, e agora, \u00e9 claro, come\u00e7ava a subir de<br \/>\nnovo. Uma grande sombra verde surgiu entre ele e o sol. Migalha olhou para cima e caiu da<br \/>\nbicicleta.<br \/>\nDiante dele estava a \u00c1rvore, sua \u00c1rvore, terminada. Se \u00e9 que se podia dizer isso de uma<br \/>\n\u00c1rvore viva, cujas folhas se abriam, os ramos cresciam e se curvavam ao vento que tantas<\/p>\n<p>vezes Migalha sentira ou adivinhara, e tantas vezes n\u00e3o conseguira captar. Ele fitou a \u00e1rvore e<br \/>\nlentamente ergueu os bra\u00e7os e os abriu largamente.<br \/>\n\u2013 \u00c9 um dom! \u2013 disse ele. Referia-se \u00e0 sua arte, e tamb\u00e9m ao resultado; mas estava usando a<br \/>\npalavra bem literalmente.<br \/>\nContinuou olhando para a \u00c1rvore. Todas as folhas em que trabalhara estavam l\u00e1, tal como<br \/>\nas imaginara mas n\u00e3o como as fizera; havia outras que tinham apenas germinado em sua mente,<br \/>\ne muitas que poderiam ter germinado, se ele tivesse tido tempo. N\u00e3o havia nada escrito nelas,<br \/>\neram apenas folhas primorosas, no entanto estavam datadas com a clareza de um calend\u00e1rio.<br \/>\nAlgumas das mais bonitas \u2013 e as mais caracter\u00edsticas, os mais perfeitos exemplos do estilo de<br \/>\nMigalha \u2013 pareciam produzidas com a colabora\u00e7\u00e3o do sr. Par\u00f3quia: n\u00e3o havia outro modo de<br \/>\ndiz\u00ea-lo.<br \/>\nOs p\u00e1ssaros constru\u00edam ninhos na \u00c1rvore. P\u00e1ssaros surpreendentes; como cantavam! Eles<br \/>\nacasalavam, chocavam, criavam asas, sa\u00edam voando e cantavam, entrando na Floresta,<br \/>\nenquanto ele os olhava. Pois via agora que a Floresta tamb\u00e9m estava l\u00e1, esparramando-se por<br \/>\ntodo lado e afastando-se para longe. As Montanhas reluziam ao longe.<br \/>\nDepois de algum tempo Migalha voltou-se para a Floresta. N\u00e3o porque se cansara da<br \/>\n\u00c1rvore, mas porque agora ela parecia estar com toda a clareza em sua mente, estava ciente<br \/>\ndela e do seu crescimento, mesmo quando n\u00e3o a olhava. Ao se afastar, descobriu algo<br \/>\nestranho: a Floresta, \u00e9 claro, era uma Floresta distante, mas ele podia aproximar-se dela, at\u00e9<br \/>\nentrar nela, sem que ela perdesse aquele encanto particular. At\u00e9 ent\u00e3o nunca tinha conseguido<br \/>\npercorrer dist\u00e2ncias sem as transformar em simples arredores. Isso de fato aumentava o<br \/>\natrativo das caminhadas pelo campo, porque, \u00e0 medida que se caminhava, novas dist\u00e2ncias se<br \/>\nabriam. Assim, as dist\u00e2ncias dobravam, triplicavam, quadruplicavam, e seus encantos<br \/>\ndobravam, triplicavam, quadruplicavam. Podia-se avan\u00e7ar mais e mais, e ter um pa\u00eds inteiro<br \/>\nnum jardim, ou num quadro (se prefer\u00edssemos cham\u00e1-lo assim). Podia-se avan\u00e7ar mais e mais,<br \/>\npor\u00e9m talvez n\u00e3o para sempre. Havia as Montanhas em segundo plano. Elas se aproximavam,<br \/>\nmuito devagar. N\u00e3o pareciam pertencer ao quadro, ou s\u00f3 como liga\u00e7\u00e3o com alguma outra<br \/>\ncoisa, um vislumbre de algo diferente atrav\u00e9s das \u00e1rvores, uma etapa posterior: outro quadro.<br \/>\nMigalha perambulava, mas n\u00e3o estava apenas matando tempo. Olhava \u00e0 sua volta<br \/>\natentamente. A \u00c1rvore estava terminada, mas n\u00e3o acabada \u2013 \u201cExatamente o contr\u00e1rio de como<br \/>\nera\u201d, ele pensou \u2013, mas na Floresta havia diversas regi\u00f5es n\u00e3o conclu\u00eddas, que ainda<br \/>\nprecisavam de trabalho e reflex\u00e3o. Nada mais precisava ser alterado, nada estava errado at\u00e9<br \/>\naquele ponto, mas era preciso continuar at\u00e9 um ponto definido. Em cada caso, Migalha via<br \/>\nexatamente qual era o ponto.<br \/>\nSentou-se embaixo de uma \u00e1rvore distante, muito bonita \u2013 uma varia\u00e7\u00e3o da Grande \u00c1rvore,<\/p>\n<p>por\u00e9m bem especial, ou assim seria se recebesse um pouco mais de aten\u00e7\u00e3o \u2013, considerando<br \/>\npor onde come\u00e7aria o trabalho, por onde terminaria e quanto tempo levaria. N\u00e3o conseguiu<br \/>\nconcluir o projeto.<br \/>\n\u2013 Claro! \u2013 disse ele. \u2013 Preciso do Par\u00f3quia. H\u00e1 muita coisa a respeito de terra, plantas e<br \/>\n\u00e1rvores que ele sabe e eu n\u00e3o sei. Este lugar n\u00e3o pode ser apenas meu parque particular.<br \/>\nPreciso de ajuda e conselhos, que deveria ter procurado antes.<br \/>\nLevantou-se e foi at\u00e9 o lugar pelo qual havia decidido come\u00e7ar o trabalho. Tirou o casaco.<br \/>\nEnt\u00e3o, l\u00e1 embaixo, numa pequena baixada protegida que n\u00e3o se via de longe, avistou um<br \/>\nhomem que olhava ao redor meio aturdido. Apoiava-se numa p\u00e1, mas era evidente que n\u00e3o<br \/>\nsabia o que fazer. Migalha chamou-o. \u2013 Par\u00f3quia! \u2013 gritou.<br \/>\nPar\u00f3quia p\u00f4s a p\u00e1 no ombro e subiu ao encontro dele. Ainda mancava um pouco. N\u00e3o<br \/>\ndisseram nada, s\u00f3 menearam a cabe\u00e7a, como faziam quando se encontravam no caminho; mas<br \/>\nagora andavam juntos, de bra\u00e7os dados. Sem falar, Migalha e Par\u00f3quia concordaram<br \/>\nexatamente sobre onde fazer a casinha e o jardim, que pareciam necess\u00e1rios.<br \/>\nEnquanto trabalhavam juntos, ficou claro que Migalha era agora o melhor dos dois em<br \/>\norganizar o tempo e cumprir as tarefas. Curiosamente, era Migalha quem se concentrava mais<br \/>\nna constru\u00e7\u00e3o e na jardinagem, ao passo que Par\u00f3quia muitas vezes ficava perambulando,<br \/>\nolhando as \u00e1rvores, especialmente a \u00c1rvore.<br \/>\nCerto dia, enquanto Migalha plantava uma cerca viva, Par\u00f3quia estava ali perto, deitado na<br \/>\ngrama, observando atentamente uma florzinha amarela, bonita e bem formada, que crescia no<br \/>\ngramado verde. Migalha pusera muitas delas entre as ra\u00edzes de sua \u00c1rvore, havia bastante<br \/>\ntempo. De repente Par\u00f3quia ergueu os olhos; seu rosto reluzia ao sol e ele estava sorrindo.<br \/>\n\u2013 \u00c9 maravilhoso! \u2013 disse ele. \u2013 Na verdade n\u00e3o era para eu estar aqui. Obrigado por me<br \/>\nrecomendar.<br \/>\n\u2013 Bobagem \u2013 disse Migalha. \u2013 N\u00e3o me lembro do que disse, mas de qualquer modo n\u00e3o foi<br \/>\no bastante.<br \/>\n\u2013 Ah, foi sim \u2013 disse Par\u00f3quia. \u2013 Assim eu sa\u00ed muito antes. Aquela Segunda Voz, como<br \/>\nvoc\u00ea sabe, tinha me mandado para c\u00e1; disse que voc\u00ea tinha pedido para me ver. Devo isso a<br \/>\nvoc\u00ea.<br \/>\n\u2013 N\u00e3o. Voc\u00ea deve \u00e0 Segunda Voz \u2013 disse Migalha. \u2013 N\u00f3s dois devemos.<br \/>\nContinuaram morando e trabalhando juntos, n\u00e3o sei por quanto tempo. N\u00e3o h\u00e1 como negar<br \/>\nque no come\u00e7o discordavam de vez em quando, especialmente quando se cansavam. Pois no<br \/>\ncome\u00e7o \u00e0s vezes se cansavam. Descobriram que ambos haviam recebido t\u00f4nicos. Os frascos<br \/>\ntinham r\u00f3tulos iguais: Tomar algumas gotas com \u00e1gua da Fonte, antes de descansar.<\/p>\n<p>Encontraram a Fonte no cora\u00e7\u00e3o da Floresta; s\u00f3 uma vez, havia muito tempo, Migalha a<br \/>\nimaginara, por\u00e9m nunca a tinha desenhado. Agora percebia que era a fonte do lago que reluzia<br \/>\nao longe e alimentava tudo o que crescia na regi\u00e3o. As poucas gotas tornavam a \u00e1gua<br \/>\nadstringente, meio amarga, mas revigorante; e desanuviavam a cabe\u00e7a. Depois de beber eles<br \/>\ndescansavam sozinhos; ent\u00e3o levantavam-se de novo e tudo prosseguia alegremente. Nessas<br \/>\nhoras Migalha pensava em flores e plantas lindas e novas, e Par\u00f3quia sempre sabia<br \/>\nexatamente como plant\u00e1-las e onde cresceriam melhor. Muito antes que os t\u00f4nicos acabassem<br \/>\ndeixaram de precisar deles. Par\u00f3quia j\u00e1 n\u00e3o mancava.<br \/>\n\u00c0 medida que o trabalho chegava ao fim eles se permitiam cada vez mais tempo para<br \/>\ncaminhar, olhando as \u00e1rvores, as flores, as luzes e formas, e o panorama da regi\u00e3o. \u00c0s vezes<br \/>\ncantavam juntos, mas Migalha constatou que come\u00e7ava a ser cada vez mais frequente ele<br \/>\nvoltar os olhos para as Montanhas.<br \/>\nChegou um tempo em que a casa na baixada, o jardim, a grama, a floresta, o lago e toda a<br \/>\nregi\u00e3o estavam quase completos, a seu pr\u00f3prio modo. A Grande \u00c1rvore estava em plena<br \/>\nflora\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2013 Vamos terminar hoje \u00e0 tardinha \u2013 disse Par\u00f3quia um dia. \u2013 Depois disso vamos fazer uma<br \/>\nlonga caminhada.<br \/>\nPartiram no dia seguinte e caminharam atrav\u00e9s das dist\u00e2ncias at\u00e9 chegarem \u00e0 Beirada. N\u00e3o<br \/>\nera vis\u00edvel, \u00e9 claro. N\u00e3o havia linha, nem cerca, nem muro; mas sabiam que haviam atingido a<br \/>\nmargem daquela regi\u00e3o. Viram um homem que parecia um pastor de ovelhas; caminhava na<br \/>\ndire\u00e7\u00e3o deles, descendo as encostas gramadas que levavam \u00e0s Montanhas.<br \/>\n\u2013 Querem um guia? \u2013 perguntou ele. \u2013 Querem prosseguir?<br \/>\nPor um momento uma sombra caiu entre Migalha e Par\u00f3quia, pois Migalha sabia que agora<br \/>\nqueria prosseguir, e (de certo modo) deveria prosseguir; mas Par\u00f3quia n\u00e3o queria e ainda n\u00e3o<br \/>\nestava pronto para ir.<br \/>\n\u2013 Preciso esperar minha mulher \u2013 disse Par\u00f3quia a Migalha. \u2013 Ela se sentiria sozinha. Eu<br \/>\ntinha entendido que a mandariam atr\u00e1s de mim, em algum momento, quando estivesse<br \/>\npreparada e quando eu tivesse preparado as coisas para ela. Agora a casa est\u00e1 terminada, do<br \/>\nmelhor jeito que conseguimos; mas eu gostaria de mostr\u00e1-la para minha mulher. Acho que ela<br \/>\nvai ser capaz de melhor\u00e1-la, deix\u00e1-la mais aconchegante. Espero que ela goste deste lugar,<br \/>\ntamb\u00e9m \u2013 e ele se voltou para o pastor. \u2013 Voc\u00ea \u00e9 guia? \u2013 perguntou. \u2013 Pode me dizer o nome<br \/>\ndeste lugar?<br \/>\n\u2013 N\u00e3o sabe? \u2013 disse o homem. \u2013 \u00c9 a Terra de Migalha. \u00c9 o Quadro de Migalha, ou a maior<br \/>\nparte: uma pequena parte agora \u00e9 o Jardim de Par\u00f3quia.<\/p>\n<p>\u2013 Quadro de Migalha! \u2013 disse Par\u00f3quia, espantado. \u2013 Voc\u00ea imaginou tudo isto, Migalha?<br \/>\nNunca soube que voc\u00ea era t\u00e3o esperto. Por que n\u00e3o me contou?<br \/>\n\u2013 Ele tentou lhe dizer h\u00e1 muito tempo \u2013 disse o homem \u2013, mas voc\u00ea n\u00e3o olharia. Na \u00e9poca<br \/>\nele s\u00f3 tinha tela e tinta, que voc\u00ea queria usar para consertar seu telhado. Era o que voc\u00ea e sua<br \/>\nmulher chamavam de Bobagem de Migalha, ou Aqueles Borr\u00f5es.<br \/>\n\u2013 Mas naquela \u00e9poca n\u00e3o era assim, n\u00e3o era real \u2013 disse Par\u00f3quia.<br \/>\n\u2013 N\u00e3o, naquela \u00e9poca era s\u00f3 um vislumbre \u2013 disse o homem \u2013; mas voc\u00ea poderia ter<br \/>\nentendido o vislumbre, se achasse que valia a pena tentar.<br \/>\n\u2013 N\u00e3o lhe dei muita oportunidade \u2013 disse Migalha. \u2013 Nunca tentei explicar. Eu o chamava<br \/>\nde Velho Cavoucador de Terra. Mas o que importa? Agora moramos e trabalhamos juntos. As<br \/>\ncoisas podiam ter sido diferentes, mas n\u00e3o podiam ter sido melhores. Ainda assim, acho que<br \/>\nvou ter de prosseguir. Decerto vamos nos encontrar de novo, assim espero; deve haver muito<br \/>\nmais coisas que podemos fazer juntos. Adeus! \u2013 ele apertou a m\u00e3o de Par\u00f3quia calorosamente,<br \/>\npareceu-lhe uma m\u00e3o boa, firme, honesta. Voltou-se para tr\u00e1s por um momento. As flores da<br \/>\nGrande \u00c1rvore resplandeciam como uma chama. Todos os p\u00e1ssaros voavam e cantavam.<br \/>\nEnt\u00e3o ele sorriu, meneou a cabe\u00e7a para Par\u00f3quia, e foi-se com o pastor.<br \/>\nIa aprender sobre ovelhas, sobre as altas pastagens, olharia para um c\u00e9u mais amplo,<br \/>\ncaminharia mais e mais rumo \u00e0s Montanhas, sempre subindo. Mais adiante n\u00e3o consigo<br \/>\nimaginar o que foi feito dele. Mesmo o pequeno Migalha em sua antiga casa era capaz de<br \/>\nvislumbrar as Montanhas ao longe, e elas entraram nas bordas do quadro dele; mas como elas<br \/>\ns\u00e3o de verdade e o que existe para al\u00e9m delas s\u00f3 quem as escalou \u00e9 capaz de dizer.<\/p>\n<p>\u2013 Acho que ele era um homenzinho bobo \u2013 disse o Conselheiro Tompkins. \u2013 In\u00fatil, na<br \/>\nverdade; de nenhuma serventia para a Sociedade.<br \/>\n\u2013 Ah, n\u00e3o sei \u2013 disse Atkins, que n\u00e3o era ningu\u00e9m importante, apenas um mestre-escola. \u2013<br \/>\nN\u00e3o tenho tanta certeza; depende do que voc\u00ea entende por serventia.<br \/>\n\u2013 Sem serventia pr\u00e1tica nem econ\u00f4mica \u2013 disse Tompkins. \u2013 Ouso dizer que ele poderia ter<br \/>\nse tornado algum tipo de engrenagem aproveit\u00e1vel, se voc\u00eas, mestres-escola, entendessem do<br \/>\nseu of\u00edcio. Mas n\u00e3o entendem, e assim acabamos tendo gente in\u00fatil como ele. Se eu<br \/>\ngovernasse este pa\u00eds, daria a ele e aos de sua laia algum servi\u00e7o para o qual fossem<br \/>\nadequados, como lavar pratos numa cozinha comunit\u00e1ria ou coisa parecida, e cuidaria para<br \/>\nque trabalhassem direito. Ou os descartaria. Eu deveria t\u00ea-lo recolhido h\u00e1 muito tempo.<br \/>\n\u2013 Recolhido? Quer dizer que o teria feito viajar antes do tempo dele?<br \/>\n\u2013 Sim, j\u00e1 que voc\u00ea faz quest\u00e3o de usar essa velha express\u00e3o sem sentido. Empurr\u00e1-lo pelo<\/p>\n<p>t\u00fanel para o grande Monte de Entulho, \u00e9 isso que quero dizer.<br \/>\n\u2013 Ent\u00e3o voc\u00ea acha que o quadro n\u00e3o vale nada, que n\u00e3o vale a pena preserv\u00e1-lo, aprimor\u00e1-<br \/>\nlo ou at\u00e9 aproveit\u00e1-lo?<br \/>\n\u2013 \u00c9 claro que pintura tem utilidade \u2013 disse Tompkins. \u2013 Mas n\u00e3o dava para usar o quadro<br \/>\ndele. H\u00e1 muitas oportunidades para jovens arrojados que n\u00e3o t\u00eam medo de novas ideias e<br \/>\nnovos m\u00e9todos. Mas n\u00e3o para essas bobagens antiquadas. Devaneios privados. Ele n\u00e3o seria<br \/>\ncapaz de desenhar um cartaz eloquente para salvar sua vida. Sempre mexendo com folhas e<br \/>\nflores. Certa vez perguntei-lhe por qu\u00ea. Ele disse que as achava bonitas! D\u00e1 para acreditar?<br \/>\nEle disse bonitas! \u201cO qu\u00ea, \u00f3rg\u00e3os digestivos e genitais de plantas?\u201d, eu lhe disse; e ele n\u00e3o<br \/>\ndeu resposta. Bobo indolente.<br \/>\n\u2013 Indolente \u2013 suspirou Atkins. \u2013 \u00c9, pobre homenzinho, nunca terminou nada. Tudo bem, as<br \/>\ntelas dele tiveram \u201cmelhor uso\u201d desde que ele se foi. Mas n\u00e3o sei, Tompkins. Voc\u00ea se lembra<br \/>\ndaquela grande, a que usaram para consertar os estragos da casa vizinha \u00e0 dele, depois das<br \/>\nventanias e das enchentes? Encontrei um peda\u00e7o dela rasgado, jogado num campo. Estava<br \/>\nestragado, mas reconhec\u00edvel: um pico de montanha e um ramo de folhas. N\u00e3o consigo tir\u00e1-lo<br \/>\nda mente.<br \/>\n\u2013 Tir\u00e1-lo do qu\u00ea? \u2013 disse Tompkins.<br \/>\n\u2013 De quem voc\u00eas dois est\u00e3o falando? \u2013 disse Perkins, intervindo em prol da paz. Atkins<br \/>\nestava vermelho.<br \/>\n\u2013 N\u00e3o vale a pena repetir o nome \u2013 disse Tompkins. \u2013 Nem sei por que estamos falando<br \/>\ndele. Ele n\u00e3o morava na cidade.<br \/>\n\u2013 N\u00e3o \u2013 disse Atkins \u2013, mas mesmo assim voc\u00ea estava de olho na casa dele. Por isso ia<br \/>\nvisit\u00e1-lo e ficava zombando dele enquanto bebia seu ch\u00e1. Bem, agora voc\u00ea conseguiu a casa<br \/>\ndele, e a da cidade, de modo que n\u00e3o precisa deixar de pronunciar o nome dele. Se quer saber,<br \/>\nPerkins, est\u00e1vamos falando de Migalha.<br \/>\n\u2013 Ah, coitado do pequeno Migalha! \u2013 disse Perkins. \u2013 Nem sabia que ele pintava.<br \/>\nProvavelmente foi a \u00faltima vez que o nome de Migalha foi mencionado numa conversa. No<br \/>\nentanto, Atkins guardou o peda\u00e7o que sobrou. A maior parte se esfarelou, mas uma bela folha<br \/>\nficou intacta. Atkins mandou emoldur\u00e1-la. Mais tarde legou-a ao Museu Municipal, e por<br \/>\nmuito tempo \u201cFolha: de Migalha\u201d ficou pendurada num nicho, e poucos olhos a notaram. Mas<br \/>\npor fim o Museu foi destru\u00eddo por um inc\u00eandio, e a folha, e Migalha, foram inteiramente<br \/>\nesquecidos na sua antiga terra.<br \/>\n\u2013 Est\u00e1 mostrando que \u00e9 muito \u00fatil, de fato \u2013 disse a Segunda Voz. \u2013 Para f\u00e9rias e repouso. \u00c9<\/p>\n<p>espl\u00eandida para convalescen\u00e7a; e n\u00e3o apenas isso, para muitos \u00e9 a melhor introdu\u00e7\u00e3o \u00e0s<br \/>\nMontanhas. Faz milagres em alguns casos. Tenho mandado cada vez mais gente para l\u00e1.<br \/>\nRaramente precisam voltar.<br \/>\n\u2013 \u00c9 mesmo \u2013 disse a Primeira Voz. \u2013 Acho que vamos ter de dar um nome \u00e0 regi\u00e3o. O que<br \/>\nprop\u00f5e?<br \/>\n\u2013 O Carregador resolveu isso h\u00e1 algum tempo \u2013 disse a Segunda Voz. \u2013 Trem para<br \/>\nPar\u00f3quia do Migalha na plataforma: ele grita isso h\u00e1 muito tempo. Par\u00f3quia do Migalha.<br \/>\nMandei uma mensagem aos dois para lhes contar.<br \/>\n\u2013 O que disseram?<br \/>\n\u2013 Os dois riram. Riram \u2013 as Montanhas ecoaram as risadas!<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Leaf by Niggle) ERA uma vez um homenzinho, chamado Migalha, que precisava fazer uma longa viagem. Ele n\u00e3o queria ir, de fato a ideia lhe era muito desagrad\u00e1vel, mas n\u00e3o havia como escapar. Ele sabia que algum dia teria de partir, mas n\u00e3o apressava os preparativos. Migalha era pintor, embora n\u00e3o de muito sucesso, em parte porque tinha muitas outras coisas para fazer. A maioria dessas coisas ele considerava aborrecidas, mas fazia-as razoavelmente bem, quando n\u00e3o conseguia livrar-se delas, o que (segundo ele) era frequente demais. As leis do seu pa\u00eds eram bastante r\u00edgidas. Havia tamb\u00e9m outros obst\u00e1culos. Por um lado, \u00e0s vezes ele ficava desocupado, simplesmente sem fazer nada. Por outro lado, era generoso, de certo modo. Aquele tipo de generosidade que mais o deixava desconfort\u00e1vel do que o levava a fazer alguma coisa; e, mesmo quando fazia alguma coisa, nada o impedia de resmungar, perder a paci\u00eancia e praguejar (quase sempre para si mesmo). Mesmo assim, acabava fazendo um bocado de servi\u00e7os eventuais para seu vizinho, o sr. Par\u00f3quia, que mancava de uma perna. Ocasionalmente ele at\u00e9 ajudava outras pessoas de mais longe, quando vinham lhe pedir. De vez em quando tamb\u00e9m se lembrava da viagem e come\u00e7ava a embalar algumas coisas de maneira ineficaz; nessas ocasi\u00f5es n\u00e3o pintava muito. Tinha alguns quadros em andamento, em sua maioria&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":367,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ocean_post_layout":"","ocean_both_sidebars_style":"","ocean_both_sidebars_content_width":0,"ocean_both_sidebars_sidebars_width":0,"ocean_sidebar":"","ocean_second_sidebar":"","ocean_disable_margins":"enable","ocean_add_body_class":"","ocean_shortcode_before_top_bar":"","ocean_shortcode_after_top_bar":"","ocean_shortcode_before_header":"","ocean_shortcode_after_header":"","ocean_has_shortcode":"","ocean_shortcode_after_title":"","ocean_shortcode_before_footer_widgets":"","ocean_shortcode_after_footer_widgets":"","ocean_shortcode_before_footer_bottom":"","ocean_shortcode_after_footer_bottom":"","ocean_display_top_bar":"default","ocean_display_header":"default","ocean_header_style":"","ocean_center_header_left_menu":"","ocean_custom_header_template":"","ocean_custom_logo":0,"ocean_custom_retina_logo":0,"ocean_custom_logo_max_width":0,"ocean_custom_logo_tablet_max_width":0,"ocean_custom_logo_mobile_max_width":0,"ocean_custom_logo_max_height":0,"ocean_custom_logo_tablet_max_height":0,"ocean_custom_logo_mobile_max_height":0,"ocean_header_custom_menu":"","ocean_menu_typo_font_family":"","ocean_menu_typo_font_subset":"","ocean_menu_typo_font_size":0,"ocean_menu_typo_font_size_tablet":0,"ocean_menu_typo_font_size_mobile":0,"ocean_menu_typo_font_size_unit":"px","ocean_menu_typo_font_weight":"","ocean_menu_typo_font_weight_tablet":"","ocean_menu_typo_font_weight_mobile":"","ocean_menu_typo_transform":"","ocean_menu_typo_transform_tablet":"","ocean_menu_typo_transform_mobile":"","ocean_menu_typo_line_height":0,"ocean_menu_typo_line_height_tablet":0,"ocean_menu_typo_line_height_mobile":0,"ocean_menu_typo_line_height_unit":"","ocean_menu_typo_spacing":0,"ocean_menu_typo_spacing_tablet":0,"ocean_menu_typo_spacing_mobile":0,"ocean_menu_typo_spacing_unit":"","ocean_menu_link_color":"","ocean_menu_link_color_hover":"","ocean_menu_link_color_active":"","ocean_menu_link_background":"","ocean_menu_link_hover_background":"","ocean_menu_link_active_background":"","ocean_menu_social_links_bg":"","ocean_menu_social_hover_links_bg":"","ocean_menu_social_links_color":"","ocean_menu_social_hover_links_color":"","ocean_disable_title":"default","ocean_disable_heading":"default","ocean_post_title":"","ocean_post_subheading":"","ocean_post_title_style":"","ocean_post_title_background_color":"","ocean_post_title_background":0,"ocean_post_title_bg_image_position":"","ocean_post_title_bg_image_attachment":"","ocean_post_title_bg_image_repeat":"","ocean_post_title_bg_image_size":"","ocean_post_title_height":0,"ocean_post_title_bg_overlay":0.5,"ocean_post_title_bg_overlay_color":"","ocean_disable_breadcrumbs":"default","ocean_breadcrumbs_color":"","ocean_breadcrumbs_separator_color":"","ocean_breadcrumbs_links_color":"","ocean_breadcrumbs_links_hover_color":"","ocean_display_footer_widgets":"default","ocean_display_footer_bottom":"default","ocean_custom_footer_template":"","ocean_post_oembed":"","ocean_post_self_hosted_media":"","ocean_post_video_embed":"","ocean_link_format":"","ocean_link_format_target":"self","ocean_quote_format":"","ocean_quote_format_link":"post","ocean_gallery_link_images":"on","ocean_gallery_id":[],"footnotes":""},"categories":[34],"tags":[22],"class_list":["post-86","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-contos","tag-contos","entry","has-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/86","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=86"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/86\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":402,"href":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/86\/revisions\/402"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/367"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=86"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=86"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=86"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}