{"id":323,"date":"2007-08-07T21:16:00","date_gmt":"2007-08-08T00:16:00","guid":{"rendered":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/barba-azul\/"},"modified":"2025-07-28T22:19:21","modified_gmt":"2025-07-29T01:19:21","slug":"barba-azul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/barba-azul\/","title":{"rendered":"Barba Azul"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #3333ff;\">\u00c9 com muito orgulho que trago esse conto do grande escritor Charles Perrault para voc\u00eas:<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogger.googleusercontent.com\/img\/b\/R29vZ2xl\/AVvXsEjU5-o2nZQ2Z6nun0WnFSA0doAVWbIihCR20ipdQaeiP3-ma31ECq74YjkkBP41fLX8pKrkFKv3WXLG2xBS9uyJj10GPdU_HntVP7z6ugPARgf_Z1nXJJp8ZY56ZemxCg3XjLeBwMs9V7k\/s1600-h\/barbaazul.jpg\"><img decoding=\"async\" alt=\"\" border=\"0\" id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5096117698967647282\" src=\"https:\/\/blogger.googleusercontent.com\/img\/b\/R29vZ2xl\/AVvXsEjU5-o2nZQ2Z6nun0WnFSA0doAVWbIihCR20ipdQaeiP3-ma31ECq74YjkkBP41fLX8pKrkFKv3WXLG2xBS9uyJj10GPdU_HntVP7z6ugPARgf_Z1nXJJp8ZY56ZemxCg3XjLeBwMs9V7k\/s200\/barbaazul.jpg\" style=\"cursor: pointer; float: left; margin: 0pt 10px 10px 0pt;\" \/><\/a>  <br \/>\n<b>O Barba-Azul<\/b><br \/>\n<b>Charles Perrault<\/b><\/p>\n<p>Era uma vez um homem que tinha belas casas na cidade e no campo, baixela de ouro e prata, m\u00f3veis trabalhados e carruagens douradas; mas, por desventura, esse homem tinha a barba azul: isto o fazia t\u00e3o feio e t\u00e3o terr\u00edvel que n\u00e3o havia mulher nem mo\u00e7a que n\u00e3o fugisse ao v\u00ea-lo.<br \/>\nUma de suas vizinhas, dama de alta linhagem, tinha duas filhas absolutamente belas. Ele pediu-lhe uma delas em casamento, deixando a escolha \u00e0 vontade materna. Nenhuma das duas o queria, e cada uma o passava \u00e0 outra, pois nenhuma podia decidir-se a aceitar um homem de barba azul. Aborrecia-as tamb\u00e9m a circunst\u00e2ncia de ele j\u00e1 ter desposado v\u00e1rias mulheres sem que ningu\u00e9m soubesse o que era feito delas.<br \/>\n<a name='more'><\/a><br \/>\nPara travar rela\u00e7\u00f5es com as mo\u00e7as, Barba-Azul levou-as, juntamente com a m\u00e3e e as tr\u00eas ou quatro melhores amigas, e algumas jovens da vizinhan\u00e7a, a uma das suas casas de campo, onde passaram nada menos de oito dias. E eram s\u00f3 passeios, ca\u00e7adas e pescarias, dan\u00e7as e festins e merendas: ningu\u00e9m dormia, levavam a noite a pregar pe\u00e7as uns aos outros; afinal, tudo correu \u00e0s mil maravilhas, e a mais nova das meninas come\u00e7ou a achar que o dono da casa n\u00e3o tinha a barba t\u00e3o azul, e que era homem muito digno. E, logo que tornaram \u00e0 vidade, realizou-se o casamento.<br \/>\nAo cabo de um m\u00eas, Barba-Azul disse \u00e0 mulher que tinha de fazer uma viagem \u00e0 prov\u00edncia, de seis semanas, no m\u00ednimo, para um neg\u00f3cio de import\u00e2ncia; que lhe pedia se divertisse \u00e0 vontade durante a aus\u00eancia dele \u2013 mandasse buscar suas boas amigas, levasse-as ao campo, se quisesse, comesse do bom e do melhor.<br \/>\n&#8211; Aqui est\u00e3o \u2013 disse-lhe \u2013 as chaves dos dois grandes guarda-m\u00f3veis; aqui as da baixela de ouro e de prata que s\u00f3 se usa nos grandes dias; aqui as dos meus cofres, onde est\u00e1 o meu ouro e a minha prata, as dos cofres de minhas j\u00f3ias e aqui a chave de todas as depend\u00eancias da casa. Esta chavezinha \u00e9 a chave do gabinete que fica no extremo da grande galeria do por\u00e3o: pode abrir tudo, pode ir aonde quiser, mas neste pequeno gabinete eu lhe pro\u00edbo de entrar, e o pro\u00edbo de tal maneira que, se acontecer abri-lo, n\u00e3o h\u00e1 nada que voc\u00ea n\u00e3o possa esperar da minha c\u00f3lera.<br \/>\nEla prometeu cumprir \u00e0 risca tudo quanto acabava de ser ordenado: e ele, depois de beij\u00e1-la, toma sua carruagem e parte.<br \/>\nAs vizinhas e as boas amigas n\u00e3o esperaram, para ir \u00e0 resid\u00eancia da jovem esposa, que as mandassem buscar, t\u00e3o s\u00f4fregas estavam de ver-lhe todas as riquezas da casa, n\u00e3o havendo ousado ir l\u00e1 enquanto o marido se achava por causa de sua barba azul, que lhes fazia medo. E ei-las, sem perda de tempo, a percorrer os quartos, gabinetes, vesti\u00e1rios, cada um mais belo que os outros. Subiram depois aos guarda-m\u00f3veis, onde n\u00e3o se cansavam de admirar o n\u00famero e a beleza das tape\u00e7arias, dos leitos, dos sof\u00e1s, dos guarda-roupas, dos veladores, das mesas e dos espelhos, nos quais a gente se via da cabe\u00e7a aos p\u00e9s, e cujos ornatos, uns de vidro, outros de prata, ou de prata dourada, eram os mais belos e magn\u00edficos que j\u00e1 se poderiam ter visto. N\u00e3o cessavam de exagerar e invejar a felicidade da amiga, a quem, no entanto, n\u00e3o alegravam todas essas riquezas, ansiosa que estava de abrir o gabinete do por\u00e3o.<br \/>\nSentiu-se t\u00e3o premida pela curiosidade que, sem refletir que era uma indelicadeza deixas sozinhas as visitas, desceu at\u00e9 l\u00e1 por uma escadinha oculta, e com tamanha precipita\u00e7\u00e3o que por duas ou tr\u00eas vezes pensou em quebrar o pesco\u00e7o. Chegando \u00e0 porta do gabinete, a\u00ed se deteve algum tempo, lembrando-se da proibi\u00e7\u00e3o que o marido lhe fizera e considerando que lhe poderia acontecer uma desgra\u00e7a por haver sido desobediente; mas a tenta\u00e7\u00e3o era t\u00e3o forte que ela n\u00e3o a p\u00f4de vencer: tomou da chavezinha e abriu, tr\u00eamula, a porta do gabinete.<br \/>\nA princ\u00edpio n\u00e3o viu coisa alguma, porque as janelas se achavam fechadas; momentos depois come\u00e7ou a notar que o soalho estava todo coberto de sangue coalhado, no qual se espelhavam os corpos de v\u00e1rias mulheres mortas, presas ao longo das paredes (eram todas mulheres que Barba-Azul desposara e que havia estrangulado). Cuidou morrer de susto, e a chave do gabinete que acabava de retirar da fechadura, caiu-lhe da m\u00e3o. Ap\u00f3s haver recobrado um pouco o \u00e2nimo, apanhou a chave, fechou a porta e subiu ao quarto para refazer-se; n\u00e3o o conseguia, por\u00e9m, devido \u00e0 sua grande perturba\u00e7\u00e3o.<br \/>\nTendo notado que a chave do gabinete estava manchada de sangue, limpou-a duas ou tr\u00eas vezes, mas o sangue n\u00e3o desaparecia; lavou-a, esfregou-a com sab\u00e3o e pedra-pomes; debalde: o sangue ficava sempre, pois a chave era fada, e n\u00e3o havia meio de limp\u00e1-la inteiramente: quando se tirava o sangue de um lado, ele voltava do outro.<br \/>\nBarba-Azul regressou de sua viagem logo nessa noite, e disse haver recebido, no caminho, not\u00edcias de que o neg\u00f3cio que o levara a partir acabara de realizar-se com vantagem para ele. A mulher fez quanto p\u00f4de para se mostrar encantada com esse breve retorno.<br \/>\nNo dia seguinte ele pediu-lhe as chaves, e ela as entregou, por\u00e9m a m\u00e3o tremia tanto que Barba-Azul adivinhou sem esfor\u00e7o todo o ocorrido.<br \/>\n&#8211; Por que \u00e9 \u2013 perguntou-lhe \u2013 que a chave do gabinete n\u00e3o est\u00e1 junto com as outras?<br \/>\n&#8211; Devo t\u00ea-las deixado l\u00e1 em cima, sobre a minha mesa.<br \/>\n&#8211; Quero a chave aqui, j\u00e1!<br \/>\nDepois de v\u00e1rias delongas, a mulher teve que lev\u00e1-la. Barba-Azul examinou-a e disse:<br \/>\n&#8211; Por que h\u00e1 sangue nesta chave?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o sei nada disso \u2013 respondeu a pobre criatura, mais p\u00e1lida que a morte.&gt;<br \/>\n&#8211; Voc\u00ea n\u00e3o sabe nada \u2013 continuou ele \u2013 mas eu sei muito bem; voc\u00ea quis entrar no meu gabinete! Est\u00e1 certo, senhora, l\u00e1 entrar\u00e1 e ir\u00e1 ter o seu lugar ao lado das que l\u00e1 encontrou.<br \/>\nEla se atirou aos p\u00e9s do marido, chorando e pedindo-lhe perd\u00e3o, com todos os sinais de um arrependimento sincero de n\u00e3o haver sido obediente. Bela e aflita como estava, seria capaz de enternecer um rochedo; mas Barba-Azul tinha o cora\u00e7\u00e3o mais duro que um rochedo:<br \/>\n&#8211; Tem de morrer, senhora, e imediatamente.<br \/>\n&#8211; Visto que tenho que morrer \u2013 respondeu ela, fitando-o com os olhos banhados de l\u00e1grimas \u2013 d\u00ea-me um pouco de tempo para rezar a Deus.<br \/>\n&#8211; Dou-lhe meio quarto de hora \u2013 replicou Barba-Azul \u2013 e nem um momento a mais.<br \/>\nQuando ela se viu sozinha, chamou a irm\u00e3 e disse-lhe:<br \/>\n&#8211; Minha irm\u00e3, sobe ao alto da torre, eu te suplico, para ver se meus irm\u00e3os n\u00e3o v\u00eam; eles me prometeram que me viriam ver hoje, e, se os vires, faze-lhes sinal para que se apressem.<br \/>\nA irm\u00e3 subiu ao alto da torre, e a pobre aflita gritava-lhe de vez em quando:<br \/>\n&#8211; Ana, minha irm\u00e3, n\u00e3o v\u00eas ningu\u00e9m?<br \/>\nE a irm\u00e3 respondia:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o vejo nada a n\u00e3o ser o Sol que brilha e a erva que verdeja.<br \/>\nEntrementes, Barba-Azul, com um grande cutelo na m\u00e3o, gritava para a esposa com toda a for\u00e7a:<br \/>\n&#8211; Desce depressa, ou eu subirei a\u00ed.<br \/>\n&#8211; Mais um momento, por favor -, respondia-lhe a mulher. E logo, baixinho:<br \/>\n&#8211; Ana, minha irm\u00e3, n\u00e3o v\u00eas ningu\u00e9m?<br \/>\nE a irm\u00e3 Ana respondia:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o vejo nada a n\u00e3o ser o Sol que brilha e a erva que verdeja.<br \/>\n&#8211; Desce depressa \u2013 bradava Barba-Azul -, ou eu subirei a\u00ed.<br \/>\n&#8211; J\u00e1 vou \u2013 respondeu a mulher. E depois:<br \/>\n&#8211; Ana, minha irm\u00e3, n\u00e3o v\u00eas ningu\u00e9m?<br \/>\n&#8211; S\u00f3 vejo \u2013 respondeu a irm\u00e3 Ana \u2013 uma grossa poeira que vem desta banda.<br \/>\n&#8211; S\u00e3o meus irm\u00e3os?<br \/>\n&#8211; Infelizmente n\u00e3o, minha irm\u00e3; \u00e9 um rebanho de carneiros.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o queres descer? \u2013 bradava Barba Azul.<br \/>\n&#8211; Mais um momento \u2013 respondia a mulher.<br \/>\nE depois:<br \/>\n&#8211; Ana, minha irm\u00e3, n\u00e3o v\u00eas ningu\u00e9m?<br \/>\n&#8211; Vejo \u2013 respondeu ela \u2013 dois cavaleiros que v\u00eam deste lado, mas ainda est\u00e3o muito longe&#8230; Louvado seja Deus! \u2013 exclamou um instante depois. \u2013 S\u00e3o meus irm\u00e3os; estou lhes fazendo sinal, tanto quanto me \u00e9 poss\u00edvel, para que se apressem.<br \/>\nBarba Azul p\u00f4s-se a gritar t\u00e3o alto que a casa estremeceu. A pobre mulher desceu e atirou-se-lhe aos p\u00e9s, desgrenhada e em prantos.<br \/>\n&#8211; Isto n\u00e3o adianta nada \u2013 disse Barba Azul. \u2013 Tens de morrer.<br \/>\nEm seguida, segurando-a com uma das m\u00e3os pelos cabelos e erguendo-a com a outra o cutelo no ar, ia cortar-lhe a cabe\u00e7a. A pobre mulher, voltando-se para ele, rogou-lhe que lhe concedesse um breve momento para se recolher.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o \u2013 disse ele -, e encomenda bem tua alma a Deus.<br \/>\nE erguendo o bra\u00e7o&#8230; Neste momento bateram \u00e0 porta com tanta for\u00e7a que Barba Azul se deteve instantaneamente. Abriram e logo se viu entrar dois cavaleiros que, sacando da espada, correram direto a Barba Azul.<br \/>\nEle reconheceu que eram os irm\u00e3os da esposa, um deles drag\u00e3o e o outro mosqueteiro, e fugiu sem demora para salvar-se; mas os dois irm\u00e3os o perseguiram t\u00e3o de perto que o alcan\u00e7aram antes que ele pudesse atingir a escada externa. Atravessaram-no a fio de espada, e o deixaram morto. A pobre dama estava quase t\u00e3o morta quanto o marido, nem lhe restavam for\u00e7as para beijar os irm\u00e3os.<br \/>\nVerificou-se que Barba-Azul n\u00e3o tinha herdeiros, raz\u00e3o por que sua mulher se tornou dona de todos os seus bens. Empregou parte deles no casamento de sua irm\u00e3 Ana com um jovem fidalgo, que a amava desde muito tempo; outra parte na compra do posto de capit\u00e3o para seus dois irm\u00e3os, e o resto no casamento dela pr\u00f3pria com um homem muito distinto, que lhe fez esquecer o mau tempo que ela passara com Barba Azul.<\/p>\n<p><b>Moralidade:<\/b><br \/>\nA curiosidade \u00e9 t\u00e3o cheia de encantos!<br \/>\nMas custa \u00e0s vezes dores, prantos&#8230;<br \/>\nCada instante se v\u00ea disso exemplo bem claro.<br \/>\n\u00c9 \u2013 perdoe, belo-sexo \u2013 um deleite fugaz,<br \/>\nMal o gozamos se desfaz.<br \/>\nE custa sempre muito caro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 com muito orgulho que trago esse conto do grande escritor Charles Perrault para voc\u00eas: O Barba-Azul Charles Perrault Era uma vez um homem que tinha belas casas na cidade e no campo, baixela de ouro e prata, m\u00f3veis trabalhados e carruagens douradas; mas, por desventura, esse homem tinha a barba azul: isto o fazia t\u00e3o feio e t\u00e3o terr\u00edvel que n\u00e3o havia mulher nem mo\u00e7a que n\u00e3o fugisse ao v\u00ea-lo. Uma de suas vizinhas, dama de alta linhagem, tinha duas filhas absolutamente belas. Ele pediu-lhe uma delas em casamento, deixando a escolha \u00e0 vontade materna. Nenhuma das duas o queria, e cada uma o passava \u00e0 outra, pois nenhuma podia decidir-se a aceitar um homem de barba azul. Aborrecia-as tamb\u00e9m a circunst\u00e2ncia de ele j\u00e1 ter desposado v\u00e1rias mulheres sem que ningu\u00e9m soubesse o que era feito delas. Para travar rela\u00e7\u00f5es com as mo\u00e7as, Barba-Azul levou-as, juntamente com a m\u00e3e e as tr\u00eas ou quatro melhores amigas, e algumas jovens da vizinhan\u00e7a, a uma das suas casas de campo, onde passaram nada menos de oito dias. 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