{"id":313,"date":"2008-01-09T12:02:00","date_gmt":"2008-01-09T14:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/o-pequeno-principe\/"},"modified":"2025-07-28T22:15:06","modified_gmt":"2025-07-29T01:15:06","slug":"o-pequeno-principe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/o-pequeno-principe\/","title":{"rendered":"O Pequeno Principe"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 85%;\"><a href=\"https:\/\/blogger.googleusercontent.com\/img\/b\/R29vZ2xl\/AVvXsEjemzfYenuThjAxCHiLfl63-3Z1_hjTQTdfRMFxhlg1x61Jg2QiWwiVN3XOiqIGUerXqR-I1V1WKxg8HC4UImlFUOsAowd6c5sga7m4duP3OBkuEoxz-nK-gy0LybLkCkE8doriqryVSnk\/s1600-h\/g_o_pequeno_principe_7408.jpg\"><img decoding=\"async\" alt=\"\" border=\"0\" id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5153492907250228210\" src=\"https:\/\/blogger.googleusercontent.com\/img\/b\/R29vZ2xl\/AVvXsEjemzfYenuThjAxCHiLfl63-3Z1_hjTQTdfRMFxhlg1x61Jg2QiWwiVN3XOiqIGUerXqR-I1V1WKxg8HC4UImlFUOsAowd6c5sga7m4duP3OBkuEoxz-nK-gy0LybLkCkE8doriqryVSnk\/s200\/g_o_pequeno_principe_7408.jpg\" style=\"cursor: pointer; float: left; margin: 0pt 10px 10px 0pt;\" \/><\/a><br \/>\n<span style=\"font-weight: bold;\">Cap\u00edtulo Um<\/span><\/p>\n<p>Certa vez, quando tinha seis anos, vi num livro sobre a Floresta Virgem, &#8220;Hist\u00f3rias Vividas&#8221;, uma imponente gravura. Representava ela uma jib\u00f3ia que engolia uma fera. Eis a c\u00f3pia do desenho.<br \/>\nDizia o livro: &#8220;As jib\u00f3ias engolem, sem mastigar, a presa inteira. Em seguida, n\u00e3o podem mover-se e dormem os seis meses da digest\u00e3o.&#8221;<br \/>\nRefleti muito ent\u00e3o sobre as aventuras da selva, e fiz, com l\u00e1pis de cor, o meu primeiro desenho. Meu desenho n\u00famero 1 era assim:<br \/>\nMostrei minha obra prima \u00e0s pessoas grandes e perguntei se o meu desenho lhes fazia medo.<br \/>\nRespondera-me: &#8220;Por que \u00e9 que um chap\u00e9u faria medo?&#8221;<br \/>\nMeu desenho n\u00e3o representava um chap\u00e9u. Representava uma jib\u00f3ia digerindo um elefante. Desenhei ent\u00e3o o interior da jib\u00f3ia, a fim de que as pessoas grandes pudessem compreender. Elas t\u00eam sempre necessidade de explica\u00e7\u00f5es. <a name='more'><\/a>Meu desenho n\u00famero 2 era assim:<br \/>\nAs pessoas grandes aconselharam-me deixar de lado os desenhos de jib\u00f3ias abertas ou fechadas, e dedicar-me de prefer\u00eancia \u00e0 geografia, \u00e0 hist\u00f3ria, ao c\u00e1lculo, \u00e0 gram\u00e1tica. Foi assim que abandonei, aos seis anos, uma espl\u00eandida carreira de pintor. Eu fora desencorajado pelo insucesso do meu desenho n\u00famero 1 e do meu desenho n\u00famero 2. As pessoas grandes n\u00e3o compreendem nada sozinhas, e \u00e9 cansativo, para as crian\u00e7as, estar toda hora explicando.<br \/>\nTive pois de escolher uma outra profiss\u00e3o e aprendi a pilotar avi\u00f5es. Voei, por assim dizer, por todo o mundo. E a geografia, \u00e9 claro, me serviu muito. Sabia distinguir, num relance, a China e o Arizona. \u00c9 muito \u00fatil, quando se est\u00e1 perdido na noite.<br \/>\nTive assim, no decorrer da vida, muitos contatos com muita gente s\u00e9ria. Vivi muito no meio das pessoas grandes. Vi-as muito de perto. Isso n\u00e3o melhorou, de modo algum, a minha antiga opini\u00e3o.<br \/>\nQuando encontrava uma que me parecia um pouco l\u00facida, fazia com ela a experi\u00eancia do meu desenho n\u00famero 1, que sempre conservei comigo. Eu queria saber se ela era verdadeiramente compreensiva. Mas respondia sempre: &#8220;\u00c9 um chap\u00e9u&#8221;. Ent\u00e3o eu n\u00e3o lhe falava nem de jib\u00f3ias, nem de florestas virgens, nem de estrelas. Punha-me ao seu alcance. Falava-lhe de bridge, de golfe, de pol\u00edtica, de gravatas. E a pessoa grande ficava encantada de conhecer um homem t\u00e3o razo\u00e1vel.<\/p>\n<p>\n<span style=\"font-weight: bold;\">Cap\u00edtulo Dois<\/span><\/p>\n<p>Vivi portanto s\u00f3, sem amigo com quem pudesse realmente conversar, at\u00e9 o dia, cerca de seis anos atr\u00e1s, em que tive uma pane no deserto do Saara. Alguma coisa se quebrara no motor. E como n\u00e3o tinha comigo mec\u00e2nico ou passageiro, preparei-me para empreender sozinho o dif\u00edcil conserto. Era, para mim, quest\u00e3o de vida ou de morte. S\u00f3 dava para oito dias a \u00e1gua que eu tinha.<br \/>\nNa primeira noite adormeci pois sobre a areia, a milhas e milhas de qualquer terra habitada. Estava mais isolado que o n\u00e1ufrago numa t\u00e1bua, perdido no meio do mar. Imaginem ent\u00e3o a minha surpresa, quando, ao despertar do dia, uma vozinha estranha me acordou. Dizia:<br \/>\n&#8211; Por favor&#8230; desenha-me um carneiro!<br \/>\n&#8211; Hem!<br \/>\n&#8211; Desenha-me um carneiro&#8230;<br \/>\nPus-me de p\u00e9, como atingido por um raio. Esfreguei os olhos. Olhei bem. E vi um pedacinho de gente inteiramente extraordin\u00e1rio, que me considerava com gravidade. Eis o melhor retrato que, mais tarde, consegui fazer dele.<br \/>\nMeu desenho \u00e9, seguramente, muito menos sedutor que o modelo. N\u00e3o tenho culpa. Fora desencorajado, aos seis anos, da minha carreira de pintor, e s\u00f3 aprendera a desenhar jib\u00f3ias abertas e fechadas.<br \/>\nOlhava pois essa apari\u00e7\u00e3o com olhos redondos de espanto. N\u00e3o esque\u00e7am que eu me achava a mil milhas de qualquer terra habitada. Ora, o meu homenzinho n\u00e3o me parecia nem perdido, nem morto de fadiga, nem morto de fome, de sede ou de medo. N\u00e3o tinha absolutamente a apar\u00eancia de uma crian\u00e7a perdida no deserto, a mil milhas da regi\u00e3o habitada. Quando pude enfim articular palavra, perguntei-lhe:<br \/>\n&#8211; Mas &#8230; que fazes aqui?<br \/>\nE ele repetiu-me ent\u00e3o, brandamente, como uma coisa muito s\u00e9ria:<br \/>\n&#8211; Por favor &#8230; desenha-me um carneiro &#8230;<br \/>\nQuando o mist\u00e9rio \u00e9 muito impressionante, a gente n\u00e3o ousa desobedecer. Por mais absurdo que aquilo me parecesse a mil milhas de todos os lugares habitados e em perigo de morte, tirei do bolso uma folha de papel e uma caneta. Mas lembrei-me, ent\u00e3o, que eu havia estudado de prefer\u00eancia geografia, hist\u00f3ria, c\u00e1lculo e gram\u00e1tica, e disse ao garoto (com um pouco de mau humor) que eu n\u00e3o sabia desenhar. Respondeu-me:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o tem import\u00e2ncia. Desenha-me um carneiro.<br \/>\nComo jamais houvesse desenhado um carneiro, refiz para ele um dos dois \u00fanicos desenhos que sabia. O da jib\u00f3ia fechada. E fiquei estupefato de ouvir o garoto replicar:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o! N\u00e3o! Eu n\u00e3o quero um elefante numa jib\u00f3ia. A jib\u00f3ia \u00e9 perigosa e o elefante toma muito espa\u00e7o. Tudo \u00e9 pequeno onde eu moro. Preciso \u00e9 dum carneiro. Desenha-me um carneiro.<br \/>\nEnt\u00e3o eu desenhei.<br \/>\nOlhou atentamente, e disse:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o! Esse j\u00e1 est\u00e1 muito doente. Desenha outro.<br \/>\nDesenhei de novo.<br \/>\nMeu amigo sorriu com indulg\u00eancia:<br \/>\n&#8211; Bem v\u00eas que isto n\u00e3o \u00e9 um carneiro. \u00c9 um bode&#8230; Olha os chifres&#8230;<br \/>\nFiz mais uma vez o desenho.<br \/>\nMas ele foi recusado como os precedentes:<br \/>\n&#8211; Este a\u00ed \u00e9 muito velho. Quero um carneiro que viva muito.<br \/>\nEnt\u00e3o, perdendo a paci\u00eancia, como tinha pressa de desmontar o motor, rabisquei o desenho ao lado.<br \/>\nE arrisquei:<br \/>\n&#8211; Esta \u00e9 a caixa. O carneiro est\u00e1 dentro.<br \/>\nMas fiquei surpreso de ver iluminar-se a face do meu pequeno juiz:<br \/>\n&#8211; Era assim mesmo que eu queria! Ser\u00e1 preciso muito capim para esse carneiro?<br \/>\n&#8211; Por qu\u00ea?<br \/>\n&#8211; Porque \u00e9 muito pequeno onde eu moro&#8230;<br \/>\n&#8211; Qualquer coisa chega. Eu te dei um carneirinho de nada!<br \/>\nInclinou a cabe\u00e7a sobre o desenho:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o pequeno assim&#8230; Olha! Adormeceu&#8230;<br \/>\nE foi desse modo que eu travei conhecimento, um dia, com o pequeno pr\u00edncipe.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\">Cap\u00edtulo Tr\u00eas<\/span><\/p>\n<p>Levei muito tempo para compreender de onde viera. O principezinho, que me fazia milhares de perguntas, n\u00e3o parecia sequer escutar as minhas. Palavras pronunciadas ao acaso \u00e9 que foram, pouco a pouco, revelando tudo. Assim, quando viu pela primeira vez meu avi\u00e3o (n\u00e3o vou desenh\u00e1-lo aqui, \u00e9 muito complicado para mim), perguntou-me bruscamente:<br \/>\n&#8211; Que coisa \u00e9 aquela?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o \u00e9 uma coisa. Aquilo voa. \u00c9 um avi\u00e3o. O meu avi\u00e3o.<br \/>\nEu estava orgulhoso de lhe comunicar que eu voava. Ent\u00e3o ele exclamou:<br \/>\n&#8211; Como? Tu ca\u00edste do c\u00e9u?<br \/>\n&#8211; Sim, disse eu modestamente.<br \/>\n&#8211; Ah! como \u00e9 engra\u00e7ado&#8230;<br \/>\nE o principezinho deu uma bela risada, que me irritou profundamente. Gosto que levem a s\u00e9rio as minhas desgra\u00e7as. Em seguida acrescentou:<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o, tu tamb\u00e9m vens do c\u00e9u! De que planeta \u00e9s tu?<br \/>\nVislumbrei um clar\u00e3o no mist\u00e9rio da sua presen\u00e7a, e interroguei bruscamente:<br \/>\n&#8211; Tu vens ent\u00e3o de outro planeta?<br \/>\nMas ele n\u00e3o me respondeu. Balan\u00e7ava lentamente a cabe\u00e7a considerando o avi\u00e3o:<br \/>\n-\u00c9 verdade que, nisto a\u00ed, n\u00e3o podes ter vindo de longe&#8230;<br \/>\nMergulhou ent\u00e3o num pensamento que durou muito tempo. Depois, tirando do bolso o meu carneiro, ficou contemplando o seu tesouro.<br \/>\nPoder\u00e3o imaginar que eu ficara intrigado com aquela semiconfid\u00eancia sobre &#8220;os outros planetas&#8221;. Esforcei-me, ent\u00e3o, por saber mais um pouco.<br \/>\n&#8211; De onde vens, meu bem? Onde \u00e9 tua casa? Para onde queres levar meu carneiro?<br \/>\nFicou meditando em sil\u00eancio, e respondeu depois:<br \/>\n&#8211; O bom \u00e9 que a caixa que me deste poder\u00e1, de noite, servir de casa.<br \/>\n&#8211; Sem d\u00favida. E se tu fores bonzinho, darei tamb\u00e9m uma corda para amarr\u00e1-lo durante o dia. E uma estaca.<br \/>\nA proposta pareceu choc\u00e1-lo:<br \/>\n&#8211; Amarrar? Que id\u00e9ia esquisita!<br \/>\n&#8211; Mas se tu n\u00e3o o amarras, ele vai-se embora e se perde&#8230;<br \/>\nE meu amigo deu uma nova risada:<br \/>\n&#8211; Mas onde queres que ele v\u00e1?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o sei&#8230; Por a\u00ed&#8230; Andando sempre para frente.<br \/>\nEnt\u00e3o o principezinho observou, muito s\u00e9rio:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o faz mal, \u00e9 t\u00e3o pequeno onde moro!<br \/>\nE depois, talvez com um pouco de melancolia, acrescentou ainda:<br \/>\n&#8211; Quando a gene anda sempre para frente, n\u00e3o pode mesmo ir longe&#8230;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\">Cap\u00edtulo Quatro<\/span><\/p>\n<p>Eu aprendera, pois, uma segunda coisa, important\u00edssima: o seu planeta de origem era pouco maior que uma casa!<br \/>\nN\u00e3o era surpresa para mim. Sabia que al\u00e9m dos grandes planetas &#8211; Terra, J\u00fapiter, Marte ou V\u00eanus, aos quais se deram nome &#8211; h\u00e1 centenas e centenas de outros, por vezes t\u00e3o pequenos que mal se v\u00eaem no telesc\u00f3pio. Quando o astr\u00f4nomo descobre um deles, d\u00e1-lhe por nome um n\u00famero. Chama-o, por exemplo: &#8220;aster\u00f3ide 3251&#8221;.<br \/>\nTenho s\u00e9rias raz\u00f5es para supor que o planeta de onde vinha o pr\u00edncipe era o aster\u00f3ide B 612. Esse aster\u00f3ide s\u00f3 foi visto uma vez ao telesc\u00f3pio, em 1909, por um astr\u00f4nomo turco.<br \/>\nEle fizera na \u00e9poca uma grande demonstra\u00e7\u00e3o da sua descoberta num Congresso Internacional de Astronomia. Mas ningu\u00e9m lhe dera cr\u00e9dito, por causa das roupas que usava. As pessoas grandes s\u00e3o assim.<br \/>\nFelizmente para a reputa\u00e7\u00e3o do aster\u00f3ide B 612, um ditador turco obrigou o povo, sob pena de morte, a vestir-se \u00e0 moda europ\u00e9ia. O astr\u00f4nomo repetiu sua demonstra\u00e7\u00e3o em 1920, numa elegante casaca. Ent\u00e3o, dessa vez, todo o mundo se convenceu.<br \/>\nSe lhes dou esses detalhes sobre o aster\u00f3ide B 612 e lhes confio o seu n\u00famero, \u00e9 por causa das pessoas grandes. As pessoas grandes adoram os n\u00fameros. Quando a gente lhes fala de um novo amigo, elas jamais se informam do essencial. N\u00e3o perguntam nunca: &#8220;Qual \u00e9 o som da sua voz? Quais os brinquedos que prefere? Ser\u00e1 que coleciona borboletas?&#8221; Mas perguntam: &#8220;Qual \u00e9 sua idade? Quantos irm\u00e3os ele tem? Quanto pesa? Quanto ganha seu pai?&#8221; Somente ent\u00e3o \u00e9 que elas julgam conhec\u00ea-lo. Se dizemos \u00e0s pessoas grandes: &#8220;Vi uma bela casa de tijolos cor-de-rosa, ger\u00e2nios na janela, pombas no telhado&#8230;&#8221; elas n\u00e3o conseguem, de modo nenhum, fazer uma id\u00e9ia da casa. \u00c9 preciso dizer-lhes: &#8220;Vi uma casa de seiscentos contos&#8221;. Ent\u00e3o elas exclamam: &#8220;Que beleza!&#8221;<br \/>\nAssim, se a gente lhes disser: &#8220;A prova de que o principezinho existia \u00e9 que ele era encantador, que ele ria, e que ele queria um carneiro. Quando algu\u00e9m quer um carneiro, \u00e9 porque existe&#8221; elas dar\u00e3o de ombros e nos chamar\u00e3o de crian\u00e7a! Mas se dissermos: &#8220;O planeta de onde ele vinha \u00e9 o aster\u00f3ide B 612&#8221; ficar\u00e3o inteiramente convencidas, e n\u00e3o amolar\u00e3o com perguntas. Elas s\u00e3o assim mesmo. \u00c9 preciso n\u00e3o lhes querer mal por isso. As crian\u00e7as devem ser muito indulgentes com as pessoas grandes.<br \/>\nMas n\u00f3s, n\u00f3s que compreendemos a vida, n\u00f3s n\u00e3o ligamos aos n\u00fameros! Gostaria de ter come\u00e7ado esta hist\u00f3ria \u00e0 moda dos contos de fada. Teria gostado de dizer:<br \/>\n&#8220;Era uma vez um pequeno pr\u00edncipe que habitava um planeta pouco maior que ele, e que tinha necessidade de um amigo&#8230;&#8221; Para aqueles que compreendem a vida, isto pareceria sem d\u00favida muito mais verdadeiro.<br \/>\nPorque eu n\u00e3o gosto que leiam meu livro levianamente. D\u00e1-me tristeza narrar essas lembran\u00e7as! Faz j\u00e1 seis anos que meu amigo se foi com seu carneiro. Se tento descrev\u00ea-lo aqui, \u00e9 justamente porque n\u00e3o o quero esquecer. \u00c9 triste esquecer um amigo. Nem todo o mundo tem amigo. E eu corro o risco de ficar como as pessoas grandes, que s\u00f3 se interessam por n\u00fameros. Foi por causa disso que comprei uma caixa de tintas e alguns l\u00e1pis tamb\u00e9m. \u00c9 duro p\u00f4r-se a desenhar na minha idade, quando nunca se fez outra tentativa al\u00e9m das jib\u00f3ias fechadas e abertas dos long\u00ednquos seis anos! Experimentarei, \u00e9 claro, fazer os retratos mais parecidos que puder. Mas n\u00e3o tenho muita esperan\u00e7a de conseguir. Um desenho parece pass\u00e1vel; outro, j\u00e1 \u00e9 inteiramente diverso. Engano-me tamb\u00e9m no tamanho. Ora o principezinho est\u00e1 muito grande, ora pequeno demais. Hesito tamb\u00e9m quanto \u00e0 cor do seu traje. Vou arriscando ent\u00e3o, aqui e ali. Enganar-me-ei provavelmente em detalhes dos mais importantes. Mas \u00e9 preciso desculpar. Meu amigo nunca dava explica\u00e7\u00f5es. Julgava-me talvez semelhante a ele. Mas, infelizmente, n\u00e3o sei ver carneiro atrav\u00e9s de caixa. Sou um pouco como as pessoas grandes. Acho que envelheci.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\">Cap\u00edtulo Cinco<\/span><\/p>\n<p>\nDia a dia eu ficava sabendo mais alguma coisa do planeta, da partida, da viagem. Mas isso devagarinho, ao acaso das reflex\u00f5es. Foi assim que vim a conhecer, no terceiro dia, o drama dos baob\u00e1s.<br \/>\nDessa vez ainda, foi gra\u00e7as ao carneiro. Pois bruscamente o principezinho me interrogou, tomado de grave d\u00favida:<br \/>\n&#8211; \u00c9 verdade que os carneiros comem arbustos?<br \/>\n&#8211; Sim. \u00c9 verdade.<br \/>\n&#8211; Ah! Que bom!<br \/>\nN\u00e3o compreendi logo porque era t\u00e3o importante que os carneiros comessem arbustos. Mas o principezinho acrescentou:<br \/>\n&#8211; Por conseguinte eles comem tamb\u00e9m os baob\u00e1s?<br \/>\nFiz notar ao principezinho que os baob\u00e1s n\u00e3o s\u00e3o arbustos, mas \u00e1rvores grandes como igrejas. E que mesmo que ele levasse consigo todo um rebanho de elefantes, eles n\u00e3o chegariam a dar cabo de um \u00fanico baob\u00e1.<br \/>\nA id\u00e9ia de um rebanho de elefantes fez rir ao principezinho:<br \/>\n&#8211; Seria preciso botar um por cima do outro&#8230;<br \/>\nMas notou, em seguida, sabiamente:<br \/>\n&#8211; Os baob\u00e1s, antes de crescer, s\u00e3o pequenos.<br \/>\n&#8211; \u00c9 fato! Mas por que desejas tu que os carneiros comam os baob\u00e1s pequenos?<br \/>\n&#8211; Por que haveria de ser? respondeu-me, como se se tratasse de uma evid\u00eancia. E foi-me preciso um grande esfor\u00e7o de intelig\u00eancia para compreender sozinho esse problema.<br \/>\nCom efeito, no planeta do principezinho havia, como em todos os outros planetas, ervas boas e m\u00e1s. Por conseguinte, sementes boas, de ervas boas; sementes m\u00e1s, de ervas m\u00e1s. Mas as sementes s\u00e3o invis\u00edveis. Elas dormem no segredo da terra at\u00e9 que uma cisme de despertar. Ent\u00e3o ela espregui\u00e7a, e lan\u00e7a timidamente para o sol um inofensivo galhinho. Se \u00e9 de roseira ou rabanete, podemos deixar que cres\u00e7a \u00e0 vontade. Mas quando se trata de uma planta ruim, \u00e9 preciso arrancar logo, mal a tenhamos conhecido.<br \/>\nOra, havia sementes terr\u00edveis no planeta do principezinho: as sementes de baob\u00e1&#8230; O solo do planeta estava enfestado. E um baob\u00e1, se a gente custa a descobri-lo, nunca mais se livra dele. Atravanca todo o planeta. Perfura-o com suas ra\u00edzes. E se o planeta \u00e9 pequeno e os baob\u00e1s numerosos, o planeta acaba rachando.<br \/>\n&#8220;\u00c9 uma quest\u00e3o de disciplina, me disse mais tarde o principezinho. Quando a gente acaba a toalete da manh\u00e3, come\u00e7a a fazer com cuidado a toalete do planeta. \u00c9 preciso que a gente se conforme em arrancar regularmente os baob\u00e1s logo que se distingam das roseiras, com as quais muito se parecem quando pequenos. \u00c9 um trabalho sem gra\u00e7a, mas de f\u00e1cil execu\u00e7\u00e3o.&#8221;<br \/>\nEm um dia aconselhou-me a tentar um belo desenho que fizesse essas coisas entrarem de uma vez na cabe\u00e7a das crian\u00e7as. &#8220;Se algum dia tiverem de viajar, explicou-me, poder\u00e1 ser \u00fatil para elas. \u00c0s vezes n\u00e3o h\u00e1 inconveniente em deixar um trabalho para mais tarde. Mas, quando se trata de baob\u00e1, \u00e9 sempre uma cat\u00e1strofe. Conheci um planeta habitado por um pregui\u00e7oso. Havia deixado tr\u00eas arbustos&#8230;&#8221;<br \/>\nE, de acordo com as indica\u00e7\u00f5es do principezinho, desenhei o tal planeta.<br \/>\nN\u00e3o gosto de tomar o tom de moralista. Mas o perigo dos baob\u00e1s \u00e9 t\u00e3o pouco conhecido, e t\u00e3o grandes os riscos daquele que se perdesse num aster\u00f3ide, que, ao menos uma vez, fa\u00e7o exce\u00e7\u00e3o \u00e0 minha reserva. E digo portanto: &#8220;Meninos! Cuidado com os baob\u00e1s!&#8221; Foi para advertir meus amigos de um perigo que h\u00e1 tanto tempo os amea\u00e7ava, como a mim, sem que pud\u00e9ssemos suspeitar, que tanto caprichei naquele desenho. A li\u00e7\u00e3o que eu dava valia a pena. Perguntar\u00e3o, talvez: Por que n\u00e3o h\u00e1 nesse livro outros desenhos t\u00e3o grandiosos como o desenho dos baob\u00e1s? A resposta \u00e9 simples: tentei, mas n\u00e3o consegui. Quando desenhei os baob\u00e1s, estava inteiramente possu\u00eddo pelo sentimento de urg\u00eancia.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\">Cap\u00edtulo Seis<\/span><\/p>\n<p>Assim eu comecei a compreender, pouco a pouco, meu pequeno principezinho, a tua vidinha melanc\u00f3lica. Muito tempo n\u00e3o tiveste outra distra\u00e7\u00e3o que a do\u00e7ura do p\u00f4r-do-sol. Aprendi esse novo detalhe quando me disseste, na manh\u00e3 do quarto dia:<br \/>\n&#8211; Gosto muito de p\u00f4r-do-sol. Vamos ver um&#8230;<br \/>\n&#8211; Mas \u00e9 preciso esperar&#8230;<br \/>\n&#8211; Esperar o qu\u00ea?<br \/>\n&#8211; Que o sol se ponha.<br \/>\nTu fizeste um ar de surpresa, e, logo depois, riste de ti mesmo. Disseste-me:<br \/>\n&#8211; Eu imagino sempre estar em casa!<br \/>\nDe fato. Quando \u00e9 meio dia nos Estados Unidos, o sol, todo mundo sabe, est\u00e1 se deitando na Fran\u00e7a. Bastaria ir \u00e0 Fran\u00e7a num minuto para assistir ao p\u00f4r-do-sol. Infelizmente, a Fran\u00e7a \u00e9 longe demais. Mas no teu pequeno planeta, bastava apenas recuar um pouco a cadeira. E contemplavas o crep\u00fasculo todas as vezes que desejavas&#8230;<br \/>\n&#8211; Um dia eu vi o sol se p\u00f4r quarenta e tr\u00eas vezes!<br \/>\nE um pouco mais tarde acrescentaste:<br \/>\n&#8211; Quando a gente est\u00e1 triste demais, gosta do p\u00f4r-do-sol&#8230;<br \/>\n&#8211; Estavas t\u00e3o triste assim no dia dos quarenta e tr\u00eas?<br \/>\nMas o principezinho n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\">Cap\u00edtulo Sete<\/span><\/p>\n<p>No quinto dia, sempre gra\u00e7as ao carneiro, este segredo da vida do pequeno pr\u00edncipe me foi de s\u00fabito revelado. Pergunto-me, sem pre\u00e2mbulo, como se fora o fruto de um problema muito tempo meditado em sil\u00eancio:<br \/>\n&#8211; Um carneiro, se come arbusto, come tamb\u00e9m as flores?<br \/>\n&#8211; Um carneiro come tudo que encontra.<br \/>\n&#8211; Mesmo as flores que tenham espinho?<br \/>\n&#8211; Sim. Mesmo as que t\u00eam.<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o&#8230; para que servem os espinhos?<br \/>\nEu n\u00e3o sabia. Estava ocupad\u00edssimo naquele instante, tentando desatarraxar do motor um parafuso muito apertado. Minha pane come\u00e7ava parecer demasiado grave, e em, breve j\u00e1 n\u00e3o teria \u00e1gua para beber&#8230;<br \/>\n&#8211; Para que servem os espinhos?<br \/>\nO principezinho jamais renunciava a uma pergunta, depois que a tivesse feito. Mas eu estava irritado com o parafuso e respondi qualquer coisa:<br \/>\n&#8211; Espinho n\u00e3o serve para nada. S\u00e3o pura maldade das flores.<br \/>\n&#8211; Oh!<br \/>\nMas ap\u00f3s um sil\u00eancio, ele me disse com uma esp\u00e9cie de rancor:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o acredito! As flores s\u00e3o fracas. Ing\u00eanuas. Defendem-se como podem. Elas se julgam terr\u00edveis com os seus espinhos&#8230;<br \/>\nN\u00e3o respondi. Naquele instante eu pensava: &#8220;Se esse parafuso ainda resiste, vou faz\u00ea-lo saltar a martelo&#8221;. O principezinho perturbou-me de novo as reflex\u00f5es:<br \/>\n&#8211; E tu pensas ent\u00e3o que as flores&#8230;<br \/>\n&#8211; Ora! Eu n\u00e3o penso nada. Eu respondi qualquer coisa. Eu s\u00f3 me ocupo com coisas s\u00e9rias!<br \/>\nEle olhou-me estupefato:<br \/>\n&#8211; Coisas s\u00e9rias!<br \/>\nVia-me, martelo em punho, dedos sujos de graxa, curvado sobre um feio objeto.<br \/>\n&#8211; Tu falas como as pessoas grandes!<br \/>\nSenti um pouco de vergonha. Mas ele acrescentou, implac\u00e1vel:<br \/>\n&#8211; Tu confundes todas as coisas&#8230; Misturas tudo!<br \/>\nEstava realmente muito irritado. Sacudia ao vento cabelos de ouro:<br \/>\n&#8211; Eu conhe\u00e7o um planeta onde h\u00e1 um sujeito vermelho, quase roxo. Nunca cheirou uma flor. Nunca olhou uma estrela. Nunca amou ningu\u00e9m. Nunca fez outra coisa sen\u00e3o somas. E o dia todo repete como tu: &#8220;Eu sou um homem s\u00e9rio! Eu sou um homem s\u00e9rio!&#8221; e isso o faz inchar-se de orgulho. Mas ele n\u00e3o \u00e9 um homem; \u00e9 um cogumelo!<br \/>\n&#8211; Um o qu\u00ea?<br \/>\n&#8211; Um cogumelo!<br \/>\nO principezinho estava agora p\u00e1lido de c\u00f3lera.<br \/>\n&#8211; H\u00e1 milh\u00f5es e milh\u00f5es de anos que as flores fabricam espinhos. H\u00e1 milh\u00f5es e milh\u00f5es de anos que os carneiros as comem, apesar de tudo. E n\u00e3o ser\u00e1 s\u00e9rio procurar compreender por que perdem tanto tempo fabricando espinhos in\u00fateis? N\u00e3o ter\u00e1 import\u00e2ncia a guerra dos carneiros e das flores? N\u00e3o ser\u00e1 mais importante que as contas do tal sujeito? E se eu, por minha vez, conhe\u00e7o uma flor \u00fanica no mundo, que s\u00f3 existe no meu planeta, e que um belo dia um carneirinho pode liquidar num s\u00f3 golpe, sem avaliar o que faz, &#8211; isto n\u00e3o tem import\u00e2ncia?!<br \/>\nCorou um pouco, e continuou em seguida:<br \/>\n&#8211; Se algu\u00e9m ama uma flor da qual s\u00f3 existe um exemplar em milh\u00f5es e milh\u00f5es de estrelas, isso basta para que seja feliz quando a contempla. Ele pensa: &#8220;Minha flor est\u00e1 l\u00e1, nalgum lugar&#8230;&#8221; Mas se o carneiro come a flor, \u00e9 para ele, bruscamente, como se todas as estrelas se apagassem! E isto n\u00e3o tem import\u00e2ncia!<br \/>\nN\u00e3o p\u00f4de dizer mais nada. P\u00f4s-se bruscamente a solu\u00e7ar. A noite ca\u00edra. Larguei as ferramentas. Ria-me do martelo, do parafuso, da sede e da morte. Havia numa estrela, num planeta, o meu, a Terra, um principezinho a consolar! Tomei-o nos bra\u00e7os. Embalei-o. E lhe dizia: &#8220;A flor que tu amas n\u00e3o est\u00e1 em perigo&#8230; Vou desenhar uma pequena morda\u00e7a para o carneiro&#8230; Uma armadura para a flor&#8230; Eu&#8230;&#8221;. Eu n\u00e3o sabia o que dizer. Sentia-me desajeitado. N\u00e3o sabia como atingi-lo, onde encontr\u00e1-lo&#8230; \u00c9 t\u00e3o misterioso, o pa\u00eds das l\u00e1grimas!<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\">Cap\u00edtulo Oito<\/span><\/p>\n<p>Pude bem cedo conhecer melhor aquela flor. Sempre houvera, no planeta do pequeno pr\u00edncipe, flores muito simples, ornadas de uma s\u00f3 fileira de p\u00e9talas, e que n\u00e3o ocupavam lugar nem incomodavam ningu\u00e9m. Apareciam certa manh\u00e3 na relva, e j\u00e1 \u00e0 tarde se extinguiam. Mas aquela brotara um dia de um gr\u00e3o trazido n\u00e3o se sabe de onde, e o principezinho vigiara de perto o pequeno broto, t\u00e3o diferente dos outros. Podia ser uma nova esp\u00e9cie de baob\u00e1. Mas o arbusto logo parou de crescer, e come\u00e7ou ent\u00e3o a preparar uma flor. O principezinho, que assistia \u00e0 instala\u00e7\u00e3o de um enorme bot\u00e3o, bem sentiu que sairia dali uma apari\u00e7\u00e3o miraculosa; mas a flor n\u00e3o acabava mais de preparar-se, de preparar sua beleza, no seu verde quarto. Escolhia as cores com cuidado. Vestia-se lentamente, ajustava uma a uma sua p\u00e9talas. N\u00e3o queria sair, como os cravos, amarrotada. No radioso esplendor da sua beleza \u00e9 que ela queria aparecer. Ah! Sim. Era vaidosa. Sua misteriosa toalete, portanto, durara dias e dias. E eis que uma bela manh\u00e3, justamente \u00e0 hora do sol nascer, havia-se, afinal, mostrado.<br \/>\nE ela, que se preparava com tanto esmero, disse, bocejando:<br \/>\n&#8211; Ah! Eu acabo de despertar&#8230; Desculpa&#8230; Estou ainda toda despenteada&#8230;<br \/>\nO principezinho, ent\u00e3o, n\u00e3o p\u00f4de conter o seu espanto:<br \/>\n&#8211; Como \u00e9s bonita!<br \/>\n&#8211; N\u00e3o \u00e9? Respondeu a flor docemente. Nasci ao mesmo tempo que o sol&#8230;<br \/>\nO principezinho percebeu logo que a flor n\u00e3o era modesta. Mas era t\u00e3o comovente!<br \/>\n&#8211; Creio que \u00e9 hora do almo\u00e7o, acrescentou ela. Tu poderias cuidar de mim&#8230;<br \/>\nE o principezinho, embara\u00e7ado, fora buscar um regador com \u00e1gua fresca, e servira \u00e0 flor.<br \/>\nAssim, ela o afligira logo com sua m\u00f3rbida vaidade. Um dia por exemplo, falando dos seus quatro espinhos, dissera ao pequeno pr\u00edncipe:<br \/>\n&#8211; \u00c9 que eles podem vir, os tigres, com suas garras!<br \/>\n&#8211; N\u00e3o h\u00e1 tigres no meu planeta, objetara o principezinho. E depois, os tigres n\u00e3o comem erva.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o sou uma erva, respondera a flor suavemente.<br \/>\n&#8211; Perdoa-me&#8230;<br \/>\n&#8211; N\u00e3o tenho receio dos tigres, mas tenho horror das correntes de ar. N\u00e3o terias acaso um p\u00e1ra-vento?<br \/>\n&#8220;Horror das correntes de ar&#8230; N\u00e3o \u00e9 muito bom para uma planta, notara o principezinho. \u00c9 bem complicada essa flor&#8230;&#8221;<br \/>\n&#8211; \u00c0 noite me colocar\u00e1s sob a redoma. Faz muito frio no teu planeta. Est\u00e1 mal instalado. De onde eu venho&#8230;<br \/>\nMas interrompeu-se de s\u00fabito. Viera em forma de semente. N\u00e3o pudera conhecer nada dos outros mundos. Humilhada por se ter deixado apanhar numa mentira t\u00e3o tola, tossiu duas ou tr\u00eas vezes, para p\u00f4r a culpa no pr\u00edncipe:<br \/>\n&#8211; E o p\u00e1ra-vento?<br \/>\n&#8211; Ia busc\u00e1-lo. Mas tu me falavas&#8230;<br \/>\nEnt\u00e3o ela redobrara a tosse para infligir-lhe remorso.<br \/>\nAssim o principezinho, apesar da boa vontade do seu amor, logo duvidara dela. Tomara a s\u00e9rio palavras sem import\u00e2ncia, e se tornara infeliz.<br \/>\n&#8220;N\u00e3o a devia ter escutado &#8211; confessou-me um dia &#8211; n\u00e3o se deve nunca escutar as flores. Basta olh\u00e1-las, aspirar o perfume. A minha embalsamava o planeta, mas eu n\u00e3o me contentava com isso. A tal hist\u00f3ria das garras, que tanto me agastara, me devia ter enternecido&#8230;&#8221;<br \/>\nConfessou-me ainda:<br \/>\n&#8220;N\u00e3o soube compreender coisa alguma! Devia t\u00ea-la julgado pelos atos, n\u00e3o pelas palavras. Ela me perfumava, me iluminava&#8230; N\u00e3o devia jamais ter fugido. Devia ter-lhe adivinhado a ternura sob os seus pobres ardis. S\u00e3o t\u00e3o contradit\u00f3rias as flores! Mas eu era jovem demais para saber amar.&#8221;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\">Cap\u00edtulo Nove<\/span><\/p>\n<p>Creio que ele aproveitou, para evadir-se, p\u00e1ssaros selvagens que imigravam. Na manh\u00e3 da partida, p\u00f4s o planeta em ordem. Revolveu cuidadosamente seus dois vulc\u00f5es em atividade. Pois possu\u00eda dois vulc\u00f5es. E era muito c\u00f4modo para esquentar o almo\u00e7o. Possu\u00eda tamb\u00e9m um vulc\u00e3o extinto. Mas, como ele dizia: &#8220;Quem \u00e9 que pode garantir?&#8221;, revolveu tamb\u00e9m o extinto. Se eles s\u00e3o bem revolvidos, os vulc\u00f5es queimam lentamente, regularmente, sem erup\u00e7\u00f5es. As erup\u00e7\u00f5es vulc\u00e2nicas s\u00e3o como fagulhas de lareira. Na terra, n\u00f3s somos muito pequenos para revolver os vulc\u00f5es. Por isso \u00e9 que nos causam tanto dano.<br \/>\nO principezinho arrancou tamb\u00e9m, n\u00e3o sem um pouco de melancolia, os \u00faltimos rebentos de baob\u00e1. Ele julgava nunca mais voltar. Mas todos esses trabalhos familiares lhe pareceram, aquela manh\u00e3, extremamente doces. E, quando regou pela \u00faltima vez a flor, e se dispunha a coloc\u00e1-la sob a redoma, percebeu que estava com vontade de chorar.<br \/>\n&#8211; Adeus, disse ele \u00e0 flor.<br \/>\nMas a flor n\u00e3o respondeu.<br \/>\n&#8211; Adeus, repetiu ele.<br \/>\nA flor tossiu. Mas n\u00e3o era por causa do resfriado.<br \/>\n&#8211; Eu fui uma tola, disse por fim. Pe\u00e7o-te perd\u00e3o. Trata de ser feliz.<br \/>\nA aus\u00eancia de censuras o surpreendeu. Ficou parado, inteiramente sem jeito, com a redoma no ar. N\u00e3o podia compreender essa calma do\u00e7ura.<br \/>\n&#8211; \u00c9 claro que eu te amo, disse-lhe a flor. Foi por minha culpa que n\u00e3o soubeste de nada. Isso n\u00e3o tem import\u00e2ncia. Foste t\u00e3o tolo quanto eu. Trata de ser feliz&#8230; Mas pode deixar em paz a redoma. N\u00e3o preciso mais dela.<br \/>\n&#8211; Mas o vento&#8230;<br \/>\n&#8211; N\u00e3o estou assim t\u00e3o resfriada&#8230; O ar fresco da noite me far\u00e1 bem. Eu sou uma flor.<br \/>\n&#8211; Mas os bichos&#8230;<br \/>\n&#8211; \u00c9 preciso que eu suporte duas ou tr\u00eas larvas se quiser conhecer as borboletas. Dizem que s\u00e3o t\u00e3o belas! Do contr\u00e1rio, quem vir\u00e1 visitar-me? Tu estar\u00e1s longe&#8230; Quanto aos bichos grandes, n\u00e3o tenho medo deles. Eu tenho as minhas garras.<br \/>\nE ela mostrava ingenuamente seus quatro espinhos. Em seguida acrescentou:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o demores assim, que \u00e9 exasperante. Tu decidiste partir. Vai-te embora!<br \/>\nPois ela n\u00e3o queria que ele a visse chorar. Era uma flor muito orgulhosa&#8230;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\">Cap\u00edtulo Dez<\/span><\/p>\n<p>Ele se achava na regi\u00e3o dos aster\u00f3ides 325, 326, 327, 328, 329, 330. Come\u00e7ou, pois, a visit\u00e1-los, para procurar uma ocupa\u00e7\u00e3o e se instruir.<br \/>\nO primeiro era habitado por um rei. O rei sentava-se, vestido de p\u00farpura e arminho, num trono muito simples, posto que majestoso.<br \/>\n&#8211; Ah! Eis um s\u00fadito, exclamou o rei ao dar com o principezinho.<br \/>\nE o principezinho perguntou a si mesmo:<br \/>\n&#8211; Como pode ele reconhecer-me, se jamais me viu?<br \/>\nEle n\u00e3o sabia que, para os reis, o mundo \u00e9 muito simplificado. Todos os homens s\u00e3o s\u00faditos.<br \/>\n&#8211; Aproxima-te, para que eu te veja melhor, disse o rei, todo orgulhoso de poder ser rei para algu\u00e9m.<br \/>\nO principezinho procurou com olhos onde sentar-se, mas o planeta estava todo atravancado pelo magn\u00edfico manto de arminho. Ficou, ent\u00e3o, de p\u00e9. Mas, como estava cansado, bocejou.<br \/>\n&#8211; \u00c9 contra a etiqueta bocejar na frente do rei, disse o monarca, Eu o pro\u00edbo.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o posso evit\u00e1-lo, disse o principezinho confuso. Fiz uma longa viagem e n\u00e3o dormi ainda&#8230;<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o, disse o rei, eu te ordeno que bocejes. H\u00e1 anos que n\u00e3o vejo ningu\u00e9m bocejar! Os bocejos s\u00e3o uma raridade para mim. Vamos, boceja! \u00c9 uma ordem!<br \/>\n&#8211; Isso me intimida&#8230; eu n\u00e3o posso mais&#8230; disse o principezinho todo vermelho.<br \/>\n&#8211; Hum! Hum! respondeu o rei. Ent\u00e3o&#8230; ent\u00e3o eu te ordeno ora bocejares e ora&#8230;<br \/>\nEle gaguejava um pouco e parecia vexado.<br \/>\nPorque o rei fazia quest\u00e3o fechada que sua autoridade fosse respeitada. N\u00e3o tolerava desobedi\u00eancia. Era um monarca absoluto. Mas, como era muito bom, dava ordens razo\u00e1veis.<br \/>\n&#8220;Se eu ordenasse, costumava dizer, que um general se transformasse em gaivota, e o general n\u00e3o me obedecesse, a culpa n\u00e3o seria do general, seria minha&#8221;.<br \/>\n&#8211; Posso sentar-me? interrogou timidamente o principezinho.<br \/>\n&#8211; Eu te ordeno que te sentes, respondeu-lhe o rei, que puxou majestosamente um peda\u00e7o do manto de arminho.<br \/>\nMas o principezinho se espantava. O planeta era min\u00fasculo. Sobre quem reinaria o rei?<br \/>\n&#8211; Majestade&#8230; eu vos pe\u00e7o perd\u00e3o de ousar interrogar-vos&#8230;<br \/>\n&#8211; Eu te ordeno que me interrogues, apressou-se o rei a declarar.<br \/>\n&#8211; Majestade&#8230; sobre quem \u00e9 que reinas?<br \/>\n&#8211; Sobre tudo, respondeu o rei, com uma grande simplicidade.<br \/>\n&#8211; Sobre tudo?<br \/>\nO rei, com um gesto discreto, designou seu planeta, os outros, e tamb\u00e9m as estrelas.<br \/>\n&#8211; Sobre tudo isso?<br \/>\n&#8211; Sobre tudo isso&#8230; respondeu o rei.<br \/>\nPois ele n\u00e3o era apenas um monarca absoluto, era tamb\u00e9m um monarca universal.<br \/>\n&#8211; E as estrelas vos obedecem?<br \/>\n&#8211; Sem d\u00favida, disse o rei. Obedecem prontamente. Eu n\u00e3o tolero indisciplina.<br \/>\nUm tal poder maravilhou o principezinho. Se ele fosse detentor do mesmo, teria podido assistir, n\u00e3o a quarenta e quatro, mas a setenta e dois, ou mesmo a cem, ou mesmo a duzentos pores-do-sol no mesmo dia, sem precisar sequer afastar a cadeira! E como se sentisse um pouco triste \u00e0 lembran\u00e7a do seu pequeno planeta abandonado, ousou solicitar do rei uma gra\u00e7a:<br \/>\n&#8211; Eu desejava ver um p\u00f4r-do-sol&#8230; Fazei-me esse favor. Ordenai ao sol que se ponha&#8230;<br \/>\n&#8211; Se eu ordenasse a meu general voar de uma flor a outra como borboleta, ou escrever uma trag\u00e9dia, ou transformar-se em gaivota, e o general n\u00e3o executasse a ordem recebida, quem &#8211; ele ou eu &#8211; estaria errado?<br \/>\n&#8211; V\u00f3s, respondeu com firmeza o principezinho.<br \/>\n&#8211; Exato. \u00c9 preciso exigir de cada um o que cada um pode dar, replicou o rei. A autoridade repousa sobre a raz\u00e3o. Se ordenares a teu povo que ele se lance ao mar, far\u00e3o todos revolu\u00e7\u00e3o. Eu tenho o direito de exigir obedi\u00eancia porque minhas ordens s\u00e3o razo\u00e1veis.<br \/>\n&#8211; E meu p\u00f4r-do-sol? lembrou o principezinho, que nunca esquecia a pergunta que houvesse formulado.<br \/>\n&#8211; Teu p\u00f4r-do-sol, tu o ter\u00e1s. Eu o exigirei. Mas eu esperarei, na minha ci\u00eancia de governo, que as condi\u00e7\u00f5es sejam favor\u00e1veis.<br \/>\n&#8211; Quando ser\u00e3o? indagou o principezinho.<br \/>\n&#8211; Hem? respondeu o rei, que consultou inicialmente um grosso calend\u00e1rio. Ser\u00e1 l\u00e1 por volta de&#8230; por volta de sete horas e quarenta, esta noite. E tu ver\u00e1s como sou bem obedecido.<br \/>\nO principezinho bocejou. Lamentava o p\u00f4r-do-sol que perdera. E depois, j\u00e1 estava se aborrecendo um pouco!<br \/>\n&#8211; N\u00e3o tenho mais nada que fazer aqui, disse ao rei. Vou prosseguir minha viagem.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o partas, respondeu o rei, que estava orgulhoso de ter um s\u00fadito. N\u00e3o partas: eu te fa\u00e7o ministro!<br \/>\n&#8211; Ministro de qu\u00ea?<br \/>\n&#8211; Da&#8230; da justi\u00e7a!<br \/>\n&#8211; Mas n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m a julgar!<br \/>\n&#8211; Quem sabe? disse o rei. Ainda n\u00e3o dei a volta no meu reino. Estou muito velho, n\u00e3o tenho lugar para carruagem, e andar cansa-me muito.<br \/>\n&#8211; Oh! Mas eu j\u00e1 vi, disse o pr\u00edncipe que se inclinou para dar ainda uma olhadela do outro lado do planeta. N\u00e3o consigo ver ningu\u00e9m&#8230;<br \/>\n&#8211; Tu julgar\u00e1s a ti mesmo, respondeu-lhe o rei. \u00c9 o mais dif\u00edcil. \u00c9 bem mais dif\u00edcil julgar a si mesmo que julgar os outros. Se consegues julgar-te bem, eis um verdadeiro s\u00e1bio.<br \/>\n&#8211; Mas eu posso julgar-me a mim pr\u00f3prio em qualquer lugar, replicou o principezinho. N\u00e3o preciso, para isso, ficar morando aqui.<br \/>\n&#8211; Ah! disse o rei, eu tenho quase certeza de que h\u00e1 um velho rato no meu planeta. Eu o escuto de noite. Tu poder\u00e1s julgar esse rato. Tu o condenar\u00e1s \u00e0 morte d vez em quando: assim a sua vida depender\u00e1 da tua justi\u00e7a. Mas tu o perdoar\u00e1s cada vez, para economiz\u00e1-lo. Pois s\u00f3 temos um.<br \/>\n&#8211; Eu, respondeu o principezinho, eu n\u00e3o gosto de condenar \u00e0 morte, e acho que vou mesmo embora.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o, disse o rei.<br \/>\nMas o principezinho, tendo acabado os preparativos, n\u00e3o quis afligir o velho monarca:<br \/>\n&#8211; Se Vossa Majestade deseja ser prontamente obedecido, poder\u00e1 dar-me uma ordem razo\u00e1vel. Poderia ordenar-me, por exemplo, que partisse em menos de um minuto. Parece-me que as condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o favor\u00e1veis.<br \/>\nComo o rei n\u00e3o disse nada, o principezinho hesitou um pouco; depois suspirou e partiu.<br \/>\n&#8211; Eu te fa\u00e7o meu embaixador, apressou-se o rei em gritar.<br \/>\nTinha um ar de grande autoridade.<br \/>\nAs pessoas grandes s\u00e3o muito esquisitas, pensava, durante a viagem, o principezinho.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\">Cap\u00edtulo Onze<\/span><\/p>\n<p>O segundo planeta, um vaidoso o habitava.<br \/>\n&#8211; Ah! Ah! Um admirador vem visitar-me! exclamou de longe o vaidoso, mal vira o pr\u00edncipe.<br \/>\nPorque, para os vaidosos, os outros homens s\u00e3o sempre admiradores.<br \/>\n&#8211; Bom dia, disse o principezinho. Voc\u00ea tem um chap\u00e9u engra\u00e7ado.<br \/>\n&#8211; \u00c9 para agradecer, exclamou o vaidoso. Para agradecer quando me aclamam. Infelizmente n\u00e3o passa ningu\u00e9m por aqui.<br \/>\n&#8211; Sim? disse o principezinho sem compreender.<br \/>\n&#8211; Bate as m\u00e3os uma na outra, aconselhou o vaidoso.<br \/>\nO principezinho bateu as m\u00e3os uma na outra. O vaidoso agradeceu modestamente, erguendo o chap\u00e9u.<br \/>\n&#8211; Ah, isso \u00e9 mais divertido que a visita ao rei, disse consigo mesmo o principezinho. E recome\u00e7ou a bater as m\u00e3os uma na outra. O vaidoso recome\u00e7ou a agradecer, tirando o chap\u00e9u.<br \/>\nAp\u00f3s cinco minutos de exerc\u00edcio, o principezinho cansou-se com a monotonia do brinquedo:<br \/>\n&#8211; E para o chap\u00e9u cair, perguntou ele, que \u00e9 preciso fazer?<br \/>\nMas o vaidoso n\u00e3o ouviu. Os vaidosos s\u00f3 ouvem os elogios.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o \u00e9 verdade que tu me admiras muito? perguntou ele ao principezinho.<br \/>\n&#8211; Que quer dizer admirar?<br \/>\n&#8211; Admirar significa reconhecer que eu sou o homem mais belo, mais rico, mais inteligente e mais bem vestido de todo o planeta.<br \/>\n&#8211; Mas s\u00f3 h\u00e1 voc\u00ea no seu planeta!<br \/>\n&#8211; D\u00e1-me esse gosto. Admira-me mesmo assim!<br \/>\n&#8211; Eu te admiro, disse o principezinho, dando de ombros. Mas como pode isso interessar-te?<br \/>\nE o principezinho foi-se embora.<br \/>\nAs pessoas grandes s\u00e3o decididamente muito bizarras, ia pensando ele pela viagem afora.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\">Cap\u00edtulo Doze<\/span><\/p>\n<p>O planeta seguinte era habitado por um b\u00eabado. Esta visita foi muito curta, mas mergulhou o principezinho numa profunda melancolia.<br \/>\n&#8211; Que fazes a\u00ed? perguntou ao b\u00eabado, silenciosamente instalado diante de uma cole\u00e7\u00e3o de garrafas vazias e uma cole\u00e7\u00e3o de garrafas cheias.<br \/>\n&#8211; Eu bebo, respondeu o b\u00eabado, com ar l\u00fagubre.<br \/>\n&#8211; Por que \u00e9 que bebes? perguntou-lhe o principezinho.<br \/>\n&#8211; Para esquecer, respondeu o beberr\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Esquecer o qu\u00ea? indagou o principezinho, que j\u00e1 come\u00e7ava a sentir pena.<br \/>\n&#8211; Esquecer que eu tenho vergonha, confessou o b\u00eabado, baixando a cabe\u00e7a.<br \/>\n&#8211; Vergonha de qu\u00ea? investigou o principezinho, que desejava socorr\u00ea-lo.<br \/>\n&#8211; Vergonha de beber! concluiu o beberr\u00e3o, encerrando-se definitivamente no seu sil\u00eancio.<br \/>\nE o principezinho foi-se embora, perplexo.<br \/>\nAs pessoas grandes s\u00e3o decididamente muito bizarras, dizia de si para si, durante a viagem.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\">Cap\u00edtulo Treze<\/span><\/p>\n<p>O quarto planeta era o do homem de neg\u00f3cios. Estava t\u00e3o ocupado que n\u00e3o levantou sequer a cabe\u00e7a \u00e0 chegada do pr\u00edncipe.<br \/>\n&#8211; Bom dia, disse-lhe este. O seu cigarro est\u00e1 apagado.<br \/>\n&#8211; Tr\u00eas e dois s\u00e3o cinco. Cinco e sete, doze. Doze e tr\u00eas, quinze. Bom dia. Quinze e sete, vinte e dois. Vinte e dois e seis, vinte e oito. N\u00e3o h\u00e1 tempo para acender de novo. Vinte e seis e cindo, trinta e um. Uf! S\u00e3o pois quinhentos e um milh\u00f5es, seiscentos e vinte e dois mil, setecentos e trinta e um.<br \/>\n&#8211; Quinhentos milh\u00f5es de qu\u00ea?<br \/>\n&#8211; Hem? Ainda est\u00e1s aqui? Quinhentos e um milh\u00f5es de&#8230; eu n\u00e3o sei mais&#8230; Tenho tanto trabalho. Sou um sujeito s\u00e9rio, n\u00e3o me preocupo com ninharias! Dois e cinco, sete&#8230;<br \/>\n&#8211; Quinhentos milh\u00f5es de qu\u00ea? repetiu o principezinho, que nunca na sua vida renunciara a uma pergunta, uma vez que a tivesse feito.<br \/>\nO homem de neg\u00f3cios levantou a cabe\u00e7a:<br \/>\n&#8211; H\u00e1 cinq\u00fcenta e quatro anos que habito este planeta e s\u00f3 fui incomodado tr\u00eas vezes. A primeira vez foi h\u00e1 vinte e dois anos, por um besouro ca\u00eddo n\u00e3o sei de onde. Fazia um barulho terr\u00edvel, e cometi quatro erros na soma. A segunda foi h\u00e1 onze anos, por uma crise de reumatismo. Falta de exerc\u00edcio. N\u00e3o tenho tempo para passeio. Sou um sujeito s\u00e9rio. A terceira&#8230; \u00e9 esta! Eu dizia, portanto, quinhentos e um milh\u00f5es&#8230;<br \/>\n&#8211; Milh\u00f5es de qu\u00ea?<br \/>\nO homem de neg\u00f3cios compreendeu que n\u00e3o havia esperan\u00e7a de paz:<br \/>\n&#8211; Milh\u00f5es dessas coisinhas que se v\u00eaem \u00e0s vezes no c\u00e9u.<br \/>\n&#8211; Moscas?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o. Essas coisinhas que brilham.<br \/>\n&#8211; Abelhas?<br \/>\n&#8211; Tamb\u00e9m n\u00e3o. Essas coisinhas douradas que fazem sonhar os ociosos. Eu c\u00e1 sou um sujeito s\u00e9rio. N\u00e3o tenho tempo para divaga\u00e7\u00f5es.<br \/>\n&#8211; Ah! estrelas?<br \/>\n&#8211; Isso mesmo. Estrelas.<br \/>\n&#8211; E que fazes tu de quinhentos milh\u00f5es de estrelas?<br \/>\n&#8211; Quinhentos e um milh\u00f5es, seiscentos e vinte e duas mil, setecentos e trinta e uma. Eu sou um sujeito s\u00e9rio. Gosto de exatid\u00e3o.<br \/>\n&#8211; O que fazes tu dessas estrelas?<br \/>\n&#8211; Que fa\u00e7o delas?<br \/>\n&#8211; Sim.<br \/>\n&#8211; Nada. Eu as possuo.<br \/>\n&#8211; Tu possuis as estrelas?<br \/>\n&#8211; Sim.<br \/>\n&#8211; Mas eu j\u00e1 vi um rei que&#8230;<br \/>\n&#8211; Os reis n\u00e3o possuem. Eles &#8220;reinam&#8221; sobre. \u00c9 muito diferente.<br \/>\n&#8211; E de que te serve possuir as estrelas?<br \/>\n&#8211; Servem-me para ser rico.<br \/>\n&#8211; E para que te serve ser rico?<br \/>\n&#8211; Para comprar outras estrelas, se algu\u00e9m achar.<br \/>\nEsse a\u00ed, disse o principezinho para si mesmo, raciocina um pouco como o b\u00eabado.<br \/>\nNo entanto, fez ainda algumas perguntas.<br \/>\n&#8211; Como pode a gente possuir as estrelas?<br \/>\n&#8211; De quem s\u00e3o elas? respondeu, amea\u00e7ador, o homem de neg\u00f3cios.<br \/>\n&#8211; Eu n\u00e3o sei. De ningu\u00e9m.<br \/>\n&#8211; Logo s\u00e3o minhas, porque pensei primeiro.<br \/>\n&#8211; Basta isso?<br \/>\n&#8211; Sem d\u00favida. Quando achas um diamante que n\u00e3o \u00e9 de ningu\u00e9m, ele \u00e9 teu. Quando achas uma ilha que n\u00e3o \u00e9 de ningu\u00e9m, ela \u00e9 tua. Quando tens uma id\u00e9ia primeiro, tua a fazes registrar: ela \u00e9 tua. E quanto a mim, eu possuo as estrelas, pois ningu\u00e9m antes de mim teve a id\u00e9ia de as possuir.<br \/>\n&#8211; Isso \u00e9 verdade, disse o principezinho. E que fazes tu com elas?<br \/>\n&#8211; Eu as administro. Eu as conto e reconto, disse o homem de neg\u00f3cios. \u00c9 dif\u00edcil. Mas eu sou um homem s\u00e9rio!<br \/>\nO principezinho ainda n\u00e3o estava satisfeito.<br \/>\n&#8211; Eu, se possuo um len\u00e7o, posso coloc\u00e1-lo em torno do pesco\u00e7o e lev\u00e1-lo comigo. Se possuo uma flor, posso colher a flor e lev\u00e1-la comigo. Mas tu n\u00e3o podes colher as estrelas.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o. Mas eu posso coloc\u00e1-las no banco.<br \/>\n&#8211; Que quer dizer isto?<br \/>\n&#8211; Isso quer dizer que eu escrevo num papelzinho o n\u00famero das minhas estrelas. Depois tranco o papel \u00e0 chave numa gaveta.<br \/>\n&#8211; S\u00f3 isto?<br \/>\n&#8211; E basta&#8230;<br \/>\n\u00c9 divertido, pensou o principezinho. \u00c9 bastante po\u00e9tico. Mas n\u00e3o \u00e9 muito s\u00e9rio.<br \/>\nO principezinho tinha, sobre as coisas s\u00e9rias, id\u00e9ias muito diversas das id\u00e9ias das pessoas grandes.<br \/>\n&#8211; Eu, disse ele ainda, possuo uma flor que rego todos os dias. Possuo tr\u00eas vulc\u00f5es que revolvo toda semana. Porque revolvo tamb\u00e9m o que est\u00e1 extinto. A gente nunca sabe. \u00c9 \u00fatil para os meus vulc\u00f5es, \u00e9 \u00fatil para a minha flor que eu os possua. Mas tu n\u00e3o \u00e9s \u00fatil \u00e0s estrelas&#8230;<br \/>\nO homem de neg\u00f3cios abriu a boca, mas n\u00e3o achou nada a responder, e o principezinho se foi&#8230;<br \/>\nAs pessoas grandes s\u00e3o mesmo extraordin\u00e1rias, repetia simplesmente no percurso da viagem.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\">Cap\u00edtulo Quatorze<\/span><\/p>\n<p>O quinto planeta era muito curioso. Era o menor de todos. Mal dava para um lampi\u00e3o e o acendedor de lampi\u00f5es&#8230;<br \/>\nO principezinho n\u00e3o podia atinar para que pudessem servir, no c\u00e9u, num planeta sem casa e sem gente, um lampi\u00e3o e o acendedor de lampi\u00f5es. No entanto, disse consigo mesmo:<br \/>\n&#8211; Talvez esse homem seja mesmo absurdo. No entanto, \u00e9 menos absurdo que o rei, que o vaidoso, que o homem de neg\u00f3cios, que o beberr\u00e3o. Seu trabalho ao menos tem um sentido. Quando acende o lampi\u00e3o, \u00e9 como se fizesse nascer mais uma estrela, mais uma flor. Quando o apaga, por\u00e9m, \u00e9 estrela ou flor que adormecem. \u00c9 uma ocupa\u00e7\u00e3o bonita. E \u00e9 \u00fatil, porque \u00e9 bonita.<br \/>\nQuando abordou o planeta, saudou respeitosamente o acendedor:<br \/>\n&#8211; Bom dia. Por que acabas de apagar teu lampi\u00e3o?<br \/>\n&#8211; \u00c9 o regulamento, respondeu o acendedor. Bom dia.<br \/>\n&#8211; Que \u00e9 o regulamento?<br \/>\n&#8211; \u00c9 apagar meu lampi\u00e3o. Boa noite.<br \/>\nE tornou a acender.<br \/>\n&#8211; Mas por que acabas de o acender de novo?<br \/>\n&#8211; \u00c9 o regulamento, respondeu o acendedor.<br \/>\n&#8211; Eu n\u00e3o compreendo, disse o principezinho.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o \u00e9 para compreender, disse o acendedor. Regulamento \u00e9 regulamento. Bom dia.<br \/>\nE apagou o lampi\u00e3o.<br \/>\nEm seguida enxugou a fronte num len\u00e7o de quadrinhos vermelhos.<br \/>\n&#8211; Eu executo uma tarefa terr\u00edvel. Antigamente era razo\u00e1vel. Apagava de manh\u00e3 e acendia \u00e0 noite. Tinha o resto do dia para descansar e o resto da noite para dormir&#8230;<br \/>\n&#8211; E depois disso, mudou o regulamento?<br \/>\n&#8211; O regulamento n\u00e3o mudou, disse o acendedor. A\u00ed \u00e9 que est\u00e1 o drama! O planeta de ano em ano gira mais depressa, e o regulamento n\u00e3o muda!<br \/>\n&#8211; E ent\u00e3o? disse o principezinho.<br \/>\n&#8211; Agora, que ele d\u00e1 uma volta por minuto, n\u00e3o tenho mais um segundo de repouso. Acendo e apago uma vez por minuto!<br \/>\n&#8211; Ah! que engra\u00e7ado! Os dias aqui duram um minuto!<br \/>\n&#8211; N\u00e3o \u00e9 nada engra\u00e7ado, disse o acendedor. J\u00e1 faz um m\u00eas que estamos conversando.<br \/>\n&#8211; Um m\u00eas?<br \/>\n&#8211; Sim. Trinta minutos. Trinta dias. Boa noite.<br \/>\nE ascendeu o lampi\u00e3o.<br \/>\nO principezinho considerou-o, e amou aquele acendedor t\u00e3o fiel ao regulamento. Lembrou-se dos pores-do-sol que ele mesmo produzia, recuando um pouco a cadeira. Quis ajudar o amigo.<br \/>\n&#8211; Sabes? Eu sei de um modo de descansar quando quiseres&#8230;<br \/>\n&#8211; Eu sempre quero, disse o acendedor.<br \/>\nPois a gente pode ser, ao mesmo tempo, fiel e pregui\u00e7oso.<br \/>\nE o principezinho prosseguiu:<br \/>\n&#8211; Teu planeta \u00e9 t\u00e3o pequeno, que podes, com tr\u00eas passos, dar-lhe a volta. Basta andares lentamente, bem lentamente, de modo a ficares sempre ao sol. Quando quiseres descansar, caminhar\u00e1s&#8230; e o dia durar\u00e1 quanto queiras.<br \/>\n&#8211; Isso n\u00e3o adianta muito, disse o acendedor. O que eu gosto mais na vida \u00e9 de dormir.<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 rem\u00e9dio, disse o principezinho.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o h\u00e1 rem\u00e9dio, disse o acendedor. Bom dia.<br \/>\nE apagou seu lampi\u00e3o.<br \/>\nEsse a\u00ed, disse para si o principezinho, ao prosseguir a viagem para mais longe, esse a\u00ed seria desprezado por todos os outros, o rei, o vaidoso, o beberr\u00e3o, o homem de neg\u00f3cios. No entanto, \u00e9 o \u00fanico que n\u00e3o me parece rid\u00edculo. Talvez porque \u00e9 o \u00fanico que se ocupa de outra coisa que n\u00e3o seja ele pr\u00f3prio.<br \/>\nSuspirou de pesar e disse ainda:<br \/>\n&#8211; Era o \u00fanico que eu podia ter feito meu amigo. Mas seu planeta \u00e9 mesmo pequeno demais. N\u00e3o h\u00e1 lugar para dois&#8230;<br \/>\nO que o principezinho n\u00e3o ousava confessar \u00e9 que os mil quatrocentos e quarenta pores-do-sol em vinte e quatro horas davam-lhe certa saudade do aben\u00e7oado planeta.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\">Cap\u00edtulo Quinze<\/span><\/p>\n<p>O sexto planeta era dez vezes maior. Era habitado por um velho que escrevia livros enormes.<br \/>\n&#8211; Bravo! eis um explorador! exclamou ele, logo que viu o principezinho.<br \/>\nO principezinho assentou-se na mesa, ofegante. J\u00e1 viajara tanto!<br \/>\n&#8211; De onde vens? perguntou-lhe o velho.<br \/>\n&#8211; Que livro \u00e9 esse? perguntou-lhe o principezinho. Que faz o senhor aqui?<br \/>\n&#8211; Sou ge\u00f3grafo, respondeu o velho.<br \/>\n&#8211; Que \u00e9 um ge\u00f3grafo? perguntou o principezinho.<br \/>\n&#8211; \u00c9 um s\u00e1bio que sabe onde se encontram os mares, os rios, as cidades, as montanhas, os desertos.<br \/>\n\u00c9 bem interessante, disse o principezinho. Eis, afinal, uma verdadeira profiss\u00e3o! E lan\u00e7ou um olhar em torno de si, no planeta do ge\u00f3grafo. Nunca havia visto planeta t\u00e3o majestoso.<br \/>\n&#8211; O seu planeta \u00e9 muito bonito. Haver\u00e1 oceanos nele?<br \/>\n&#8211; Como hei de saber? disse o ge\u00f3grafo.<br \/>\n&#8211; Ah! (O principezinho estava decepcionado.) E montanhas?<br \/>\n&#8211; Como hei de saber? disse o ge\u00f3grafo.<br \/>\n&#8211; E cidades, e rios, e desertos?<br \/>\n&#8211; Como hei de saber? disse o ge\u00f3grafo pela terceira vez.<br \/>\n&#8211; Mas o senhor \u00e9 ge\u00f3grafo!<br \/>\n&#8211; \u00c9 claro, disse o ge\u00f3grafo; mas n\u00e3o sou explorador. H\u00e1 uma falta absoluta de exploradores. N\u00e3o \u00e9 o ge\u00f3grafo que vai contar as cidades, os rios, as montanhas, os mares, os oceanos, os desertos. O ge\u00f3grafo \u00e9 muito importante para estar passeando. N\u00e3o deixa um instante a escrivaninha. Mas recebe os exploradores, interroga-os, anota as suas lembran\u00e7as. E se as lembran\u00e7as de alguns lhe parecem interessantes, o ge\u00f3grafo estabelece um inqu\u00e9rito sobre a moralidade do explorador.<br \/>\n&#8211; Por que?<br \/>\n&#8211; Porque um explorador que mentisse produziria cat\u00e1strofes nos livros de geografia. Como o explorador que bebesse demais.<br \/>\n&#8211; Por que? perguntou o principezinho.<br \/>\n&#8211; Porque os b\u00eabados v\u00eaem dobrado. Ent\u00e3o o ge\u00f3grafo anotaria duas montanhas onde h\u00e1 uma s\u00f3.<br \/>\n&#8211; Conhe\u00e7o algu\u00e9m, disse o principezinho, que seria um mau explorador.<br \/>\n&#8211; \u00c9 poss\u00edvel. Pois bem, quando a moralidade do explorador parece boa, faz-se uma investiga\u00e7\u00e3o sobre a sua descoberta.<br \/>\n&#8211; Vai-se ver?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o. Seria muito complicado. mas exige-se do explorador que ele forne\u00e7a provas. Tratando-se, por exemplo, de uma grande montanha, ele trar\u00e1 grandes pedras.<br \/>\nO ge\u00f3grafo, de s\u00fabito, se entusiasmou:<br \/>\n&#8211; Mas tu vens de longe. Tu \u00e9s explorador! Tu me vais descrever o teu planeta!<br \/>\nE o ge\u00f3grafo, tendo aberto o seu caderno, apontou o seu l\u00e1pis. Anotam-se primeiro a l\u00e1pis as narra\u00e7\u00f5es dos exploradores. Espera-se, para cobrir \u00e0 tinta, que o explorador tenha fornecido provas.<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o? interrogou o ge\u00f3grafo.<br \/>\n&#8211; Oh! onde eu moro, disse o principezinho, n\u00e3o \u00e9 interessante: \u00e9 muito pequeno. Eu tenho tr\u00eas vulc\u00f5es. Dois vulc\u00f5es em atividade e um vulc\u00e3o extinto. A gente nunca sabe&#8230;<br \/>\n&#8211; A gente nunca sabe, repetiu o ge\u00f3grafo.<br \/>\n&#8211; Tenho tamb\u00e9m uma flor.<br \/>\n&#8211; Mas n\u00f3s n\u00e3o anotamos as flores, disse o ge\u00f3grafo.<br \/>\n&#8211; Por que n\u00e3o? \u00c9 o mais bonito!<br \/>\n&#8211; Porque as flores s\u00e3o ef\u00eameras.<br \/>\n&#8211; Que quer dizer &#8220;ef\u00eamera&#8221;?<br \/>\n&#8211; As geografias, disse o ge\u00f3grafo, s\u00e3o os livros de mais valor. Nunca ficam fora de moda. \u00c9 muito raro que um monte troque de lugar. \u00c9 muito raro um oceano esvaziar-se. N\u00f3s escrevemos coisas eternas.<br \/>\n&#8211; Mas os vulc\u00f5es extintos podem se reanimar, interrompeu o principezinho. Que quer dizer &#8220;ef\u00eamera&#8221;?<br \/>\n&#8211; Que os vulc\u00f5es estejam extintos ou n\u00e3o, isso d\u00e1 no mesmo para n\u00f3s, disse o ge\u00f3grafo. O que nos interessa \u00e9 a montanha. Ela n\u00e3o muda.<br \/>\n&#8211; Mas que quer dizer &#8220;ef\u00eamera&#8221;? repetiu o principezinho, que nunca, na sua vida, renunciara a uma pergunta que tivesse feito.<br \/>\n&#8211; Quer dizer &#8220;amea\u00e7ada de pr\u00f3xima desapari\u00e7\u00e3o&#8221;.<br \/>\n&#8211; Minha flor estar\u00e1 amea\u00e7ada de pr\u00f3xima desapari\u00e7\u00e3o?<br \/>\n&#8211; Sem d\u00favida.<br \/>\nMinha flor \u00e9 ef\u00eamera, disse o principezinho, e n\u00e3o tem mais que quatro espinhos para defender-se do mundo! E eu a deixei sozinha!<br \/>\nFoi seu primeiro movimento de remorso. Mas retomou coragem:<br \/>\n&#8211; Que me aconselha a visitar? perguntou ele.<br \/>\n&#8211; O planeta Terra, respondeu-lhe o ge\u00f3grafo. Goza de grande reputa\u00e7\u00e3o&#8230;<br \/>\nE o principezinho se foi, pensando na flor.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\">Cap\u00edtulo Dezesseis<\/span><\/p>\n<p>O s\u00e9timo planeta foi pois a Terra.<br \/>\nA Terra n\u00e3o \u00e9 um planeta qualquer! Contam-se l\u00e1 cento e onze reis (n\u00e3o esquecendo, \u00e9 claro, os reis negros), sete mil ge\u00f3grafos, novecentos mil negociantes, sete milh\u00f5es e meio de beberr\u00f5es, trezentos e onze milh\u00f5es de vaidosos &#8211; isto \u00e9, cerca de dois bilh\u00f5es de pessoas grandes.<br \/>\nPara dar-lhes uma id\u00e9ia das dimens\u00f5es da Terra, eu lhes direi que, antes da inven\u00e7\u00e3o da eletricidade, era necess\u00e1rio manter, para o conjunto dos seis continentes, um verdadeiro ex\u00e9rcito de quatrocentos e sessenta e dois mil, quinhentos e onze acendedores de lampi\u00f5es.<br \/>\nIsto fazia, visto um pouco de longe, um magn\u00edfico efeito. Os movimentos desse ex\u00e9rcito eram ritmados como os de um bal\u00e9 de \u00f3pera. Primeiro vinha a vez dos acendedores de lampi\u00f5es da Nova Zel\u00e2ndia e da Austr\u00e1lia. Esses, em seguida, acesos os lampi\u00f5es, iam dormir. Entrava por sua vez a dan\u00e7a dos acendedores de lampi\u00f5es da China e da Sib\u00e9ria. E tamb\u00e9m desapareciam nos bastidores. Vinha a vez dos acendedores de lampi\u00f5es da R\u00fassia e das \u00cdndias. Depois os da \u00c1frica e da Europa. Depois os da Am\u00e9rica do Sul. Os da Am\u00e9rica do Norte. E jamais se enganavam na ordem de entrada, quando apareciam em cena. Era um espet\u00e1culo grandioso.<br \/>\nApenas dois, o acendedor do \u00fanico lampi\u00e3o do P\u00f3lo Norte e o seu colega do \u00fanico lampi\u00e3o do P\u00f3lo Sul, levavam vida ociosa e descuidada: trabalhavam duas vezes por ano.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\">Cap\u00edtulo Dezessete<\/span><\/p>\n<p>Quando a gente quer fazer gra\u00e7a, mente \u00e0s vezes um pouco. N\u00e3o fui l\u00e1 muito honesto ao lhes falar dos acendedores de lampi\u00f5es. Corro o risco de dar, \u00e0queles que n\u00e3o conhecem o nosso planeta, uma falsa id\u00e9ia dele. Os homens ocupam, na verdade, muito pouco lugar na superf\u00edcie da Terra. Se os dois bilh\u00f5es de habitantes que povoam a Terra se mantivessem de p\u00e9, colados um ao outro, como para um com\u00edcio, acomodar-se-iam facilmente numa pra\u00e7a p\u00fablica de vinte milhas de comprimento por vinte de largura. Poder-se-ia ajuntar a humanidade toda na menor das ilhas do Pac\u00edfico.<br \/>\nAs pessoas grandes n\u00e3o acreditar\u00e3o, \u00e9 claro. Elas julgam ocupar muito espa\u00e7o. Imaginam-se t\u00e3o importantes como os baob\u00e1s. Digam-lhes pois que fa\u00e7am o c\u00e1lculo. Elas adoram os n\u00fameros; ficar\u00e3o contentes com isso. Mas voc\u00eas n\u00e3o percam tempo com esse problema de aritm\u00e9tica. \u00c9 in\u00fatil. Voc\u00eas acreditam em mim.<br \/>\nO principezinho, uma vez na Terra, ficou, pois, muito surpreso de n\u00e3o ver ningu\u00e9m. J\u00e1 receara ter se enganado de planeta, quando um anel cor de lua remexeu na areia.<br \/>\n&#8211; Boa noite, disse o principezinho, inteiramente ao acaso.<br \/>\n&#8211; Boa noite, disse a serpente.<br \/>\n&#8211; Em que planeta me encontro? perguntou o principezinho.<br \/>\n&#8211; Na Terra, na \u00c1frica, respondeu a serpente.<br \/>\n&#8211; Ah!&#8230; E n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m na Terra?<br \/>\n&#8211; Aqui \u00e9 o deserto. N\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m nos desertos. A Terra \u00e9 grande, disse a serpente.<br \/>\nO principezinho sentou-se numa pedra e ergueu os olhos para o c\u00e9u:<br \/>\n&#8211; As estrelas s\u00e3o todas iluminadas&#8230; N\u00e3o ser\u00e1 para que cada um possa um dia encontrar a sua? Olha o meu planeta: est\u00e1 justamente em cima de n\u00f3s&#8230; Mas como est\u00e1 longe!<br \/>\n&#8211; Teu planeta \u00e9 belo, disse a serpente. Que vens fazer aqui?<br \/>\n&#8211; Tive dificuldades com uma flor, disse o pr\u00edncipe.<br \/>\n&#8211; Ah! exclamou a serpente.<br \/>\nE se calaram.<br \/>\n&#8211; Onde est\u00e3o os homens? repetiu enfim o principezinho. A gente est\u00e1 um pouco s\u00f3 no deserto.<br \/>\n&#8211; Entre os homens tamb\u00e9m, disse a serpente.<br \/>\nO principezinho olhou-a longamente.<br \/>\n&#8211; Tu \u00e9s um bichinho engra\u00e7ado, disse ele, fino como um dedo&#8230;<br \/>\n&#8211; Mas sou mais poderosa do que o dedo de um rei, disse a serpente.<br \/>\nO principezinho sorriu.<br \/>\n&#8211; Tu n\u00e3o \u00e9s t\u00e3o poderosa assim&#8230; n\u00e3o tens sequer umas patas&#8230; n\u00e3o podes sequer viajar&#8230;<br \/>\n&#8211; Eu posso levar-te mais longe que um navio, disse a serpente.<br \/>\nEla enrolou-se na perninha do pr\u00edncipe, como um bracelete de ouro:<br \/>\n&#8211; Aquele que eu toco, eu o devolvo \u00e0 terra de onde veio, continuou a serpente. Mas tu \u00e9s puro. Tu vens de uma estrela&#8230;<br \/>\nO principezinho n\u00e3o respondeu.<br \/>\n&#8211; Tenho pena de ti, t\u00e3o fraco, nessa Terra de granito. Posso ajudar-te um dia, se tiveres muita saudade do teu planeta. Posso&#8230;<br \/>\n&#8211; Oh! Eu compreendi muito bem, disse o principezinho. Mas por que falas sempre por enigmas?<br \/>\n&#8211; Eu os resolvo todos, disse a serpente.<br \/>\nE calaram-se os dois.<\/p>\n<p>\n<span style=\"font-weight: bold;\">Cap\u00edtulo Dezoito<\/span><\/p>\n<p>O pr\u00edncipe cruzou o deserto, em que apenas tr\u00eas p\u00e9talas encontrada uma flor, uma flor de nada.<br \/>\n&#8212; &#8221; Bom dia! &#8220;, Disse o pr\u00edncipe.<br \/>\n&#8212;  &#8220;Bom dia! &#8220;, Disse a flor.<br \/>\n&#8212; De onde s\u00e3o os homens? &#8212; Politely perguntou o pr\u00edncipe.<br \/>\nA flor, um dia, ele tinha visto uma caravana.<br \/>\n&#8212; Os homens? N\u00e3o h\u00e1 mais do que seis ou sete, creio eu. Eu vi todos os anos e n\u00e3o sabem onde encontr\u00e1-los. O vento divagar. Eles t\u00eam falta de ra\u00edzes. Isso incomoda-los.<br \/>\n&#8212; Adeus &#8220;, disse o pr\u00edncipe.<br \/>\n&#8212; Adeus &#8220;, disse a flor.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\">Cap\u00edtulo Dezenove<\/span><\/p>\n<p>O principezinho escalou uma grande montanha. As \u00fanicas montanhas que conhecera eram os tr\u00eas vulc\u00f5es que lhe davam pelo joelho. O vulc\u00e3o extinto servia-lhe de tamborete. &#8220;De montanha t\u00e3o alta, pensava ele, verei todo o planeta e todos os homens&#8230;&#8221; Mas s\u00f3 viu agulhas de pedra, pontudas.<br \/>\n&#8211; Bom dia, disse ele inteiramente ao l\u00e9u.<br \/>\n&#8211; Bom dia&#8230; Bom dia&#8230; Bom dia&#8230; respondeu o eco.<br \/>\n&#8211; Quem \u00e9s tu? perguntou o principezinho.<br \/>\n&#8211; Quem \u00e9s tu&#8230; quem \u00e9s tu&#8230; quem \u00e9s tu&#8230; respondeu o eco.<br \/>\n&#8211; Sede meus amigos, eu estou s\u00f3, disse ele.<br \/>\n&#8211; Estou s\u00f3&#8230; estou s\u00f3&#8230; estou s\u00f3, respondeu o eco.<br \/>\n&#8220;Que planeta engra\u00e7ado! pensou ent\u00e3o. \u00c9 todo seco, pontudo e salgado. E os homens n\u00e3o tem imagina\u00e7\u00e3o. Repetem o que a gente diz&#8230; No meu planeta eu tinha uma flor: e era sempre ela que falava primeiro&#8221;.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\">Cap\u00edtulo Vinte<\/span><\/p>\n<p>Mas aconteceu que o principezinho, tendo andado muito tempo pelas areias, pelas rochas e pela neve, descobriu, enfim, uma estrada. E as estradas v\u00e3o todas na dire\u00e7\u00e3o dos homens.<br \/>\n&#8211; Bom dia, disse ele.<br \/>\nEra um jardim cheio de rosas.<br \/>\n&#8211; Bom dia, disseram as rosas.<br \/>\nO principezinho contemplou-as. Eram todas iguais \u00e0 sua flor.<br \/>\n&#8211; Quem sois? perguntou ele estupefato.<br \/>\n&#8211; Somos rosas, disseram as rosas.<br \/>\n&#8211; Ah! exclamou o principezinho&#8230;<br \/>\nE ele sentiu-se extremamente infeliz. Sua flor lhe havia contado que ela era a \u00fanica de sua esp\u00e9cie em todo o universo. E eis que havia cinco mil, iguaizinhas, num s\u00f3 jardim!<br \/>\n&#8220;Ela haveria de ficar bem vermelha, pensou ele, se visse isto&#8230; Come\u00e7aria a tossir, fingiria morrer, para escapar do rid\u00edculo. E eu ent\u00e3o teria que fingir que cuidava dela; porque sen\u00e3o, s\u00f3 para me humilhar, ela era bem capaz de morrer de verdade&#8230;&#8221;<br \/>\nDepois, refletiu ainda: &#8220;Eu me julgava rico de uma flor sem igual, e \u00e9 apenas uma rosa comum que eu possuo. Uma rosa e tr\u00eas vulc\u00f5es que me d\u00e3o pelo joelho, um dos quais extinto para sempre. Isso n\u00e3o faz de mim um pr\u00edncipe muito grande&#8230;&#8221; E, deitado na relva, ele chorou.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\">Cap\u00edtulo Vinte e Um<\/span><\/p>\n<p>E foi ent\u00e3o que apareceu a raposa:<br \/>\n&#8211; Boa dia, disse a raposa.<br \/>\n&#8211; Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas n\u00e3o viu nada.<br \/>\n&#8211; Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira&#8230;<br \/>\n&#8211; Quem \u00e9s tu? perguntou o principezinho. Tu \u00e9s bem bonita&#8230;<br \/>\n&#8211; Sou uma raposa, disse a raposa.<br \/>\n&#8211; Vem brincar comigo, prop\u00f4s o principezinho. Estou t\u00e3o triste&#8230;<br \/>\n&#8211; Eu n\u00e3o posso brincar contigo, disse a raposa. n\u00e3o me cativaram ainda.<br \/>\n&#8211; Ah! desculpa, disse o principezinho.<br \/>\nAp\u00f3s uma reflex\u00e3o, acrescentou:<br \/>\n&#8211; Que quer dizer &#8220;cativar&#8221;?<br \/>\n&#8211; Tu n\u00e3o \u00e9s daqui, disse a raposa. Que procuras?<br \/>\n&#8211; Procuro os homens, disse o principezinho. Que quer dizer &#8220;cativar&#8221;?<br \/>\n&#8211; Os homens, disse a raposa, t\u00eam fuzis e ca\u00e7am. \u00c9 bem inc\u00f4modo! Criam galinhas tamb\u00e9m. \u00c9 a \u00fanica coisa interessante que fazem. Tu procuras galinhas?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o, disse o principezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer &#8220;cativar&#8221;?<br \/>\n&#8211; \u00c9 uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa &#8220;criar la\u00e7os&#8230;&#8221;<br \/>\n&#8211; Criar la\u00e7os?<br \/>\n&#8211; Exatamente, disse a raposa. Tu n\u00e3o \u00e9s para mim sen\u00e3o um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu n\u00e3o tenho necessidade de ti. E tu n\u00e3o tens tamb\u00e9m necessidade de mim. N\u00e3o passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, n\u00f3s teremos necessidade um do outro. Ser\u00e1s para mim \u00fanico no mundo. E eu serei para ti \u00fanica no mundo&#8230;<br \/>\n&#8211; Come\u00e7o a compreender, disse o principezinho. Existe uma flor&#8230; eu creio que ela me cativou&#8230;<br \/>\n&#8211; \u00c9 poss\u00edvel, disse a raposa. V\u00ea-se tanta coisa na Terra&#8230;<br \/>\n&#8211; Oh! n\u00e3o foi na Terra, disse o principezinho.<br \/>\nA raposa pareceu intrigada:<br \/>\n&#8211; Num outro planeta?<br \/>\n&#8211; Sim.<br \/>\n&#8211; H\u00e1 ca\u00e7adores nesse planeta?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Que bom! E galinhas?<br \/>\n&#8211; Tamb\u00e9m n\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Nada \u00e9 perfeito, suspirou a raposa.<br \/>\nMas a raposa voltou \u00e0 sua id\u00e9ia.<br \/>\n&#8211; Minha vida \u00e9 mon\u00f3tona. Eu ca\u00e7o as galinhas e os homens me ca\u00e7am. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem tamb\u00e9m. E por isso eu me aborre\u00e7o um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida ser\u00e1 como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que ser\u00e1 diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra.<br \/>\nO teu me chamar\u00e1 para fora da toca, como se fosse m\u00fasica. E depois, olha! V\u00eas, l\u00e1 longe, os campos de trigo? Eu n\u00e3o como p\u00e3o. O trigo para mim \u00e9 in\u00fatil. Os campos de trigo n\u00e3o me lembram coisa alguma. E isso \u00e9 triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Ent\u00e3o ser\u00e1 maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que \u00e9 dourado, far\u00e1 lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo&#8230;<br \/>\nA raposa calou-se e considerou por muito tempo o pr\u00edncipe:<br \/>\n&#8211; Por favor&#8230; cativa-me! disse ela.<br \/>\n&#8211; Bem quisera, disse o principezinho, mas eu n\u00e3o tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.<br \/>\n&#8211; A gente s\u00f3 conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens n\u00e3o t\u00eam mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como n\u00e3o existem lojas de amigos, os homens n\u00e3o t\u00eam mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!<br \/>\n&#8211; Que \u00e9 preciso fazer? perguntou o principezinho.<br \/>\n&#8211; \u00c9 preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentar\u00e1s primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu n\u00e3o dir\u00e1s nada. A linguagem \u00e9 uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentar\u00e1s mais perto&#8230;<br \/>\nNo dia seguinte o principezinho voltou.<br \/>\n&#8211; Teria sido melhor voltares \u00e0 mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, \u00e0s quatro da tarde, desde as tr\u00eas eu come\u00e7arei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. \u00c0s quatro horas, ent\u00e3o, estarei inquieta e agitada: descobrirei o pre\u00e7o da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o cora\u00e7\u00e3o&#8230; \u00c9 preciso ritos.<br \/>\n&#8211; Que \u00e9 um rito? perguntou o principezinho.<br \/>\n&#8211; \u00c9 uma coisa muito esquecida tamb\u00e9m, disse a raposa. \u00c9 o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus ca\u00e7adores, por exemplo, possuem um rito. Dan\u00e7am na quinta-feira com as mo\u00e7as da aldeia. A quinta-feira ent\u00e3o \u00e9 o dia maravilhoso! Vou passear at\u00e9 a vinha. Se os ca\u00e7adores dan\u00e7assem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu n\u00e3o teria f\u00e9rias!<br \/>\nAssim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:<br \/>\n&#8211; Ah! Eu vou chorar.<br \/>\n&#8211; A culpa \u00e9 tua, disse o principezinho, eu n\u00e3o queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse&#8230;<br \/>\n&#8211; Quis, disse a raposa.<br \/>\n&#8211; Mas tu vais chorar! disse o principezinho.<br \/>\n&#8211; Vou, disse a raposa.<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o, n\u00e3o sais lucrando nada!<br \/>\n&#8211; Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo.<br \/>\nDepois ela acrescentou:<br \/>\n&#8211; Vai rever as rosas. Tu compreender\u00e1s que a tua \u00e9 a \u00fanica no mundo. Tu voltar\u00e1s para me dizer adeus, e eu te farei presente de um segredo.<br \/>\nFoi o principezinho rever as rosas:<br \/>\n&#8211; V\u00f3s n\u00e3o sois absolutamente iguais \u00e0 minha rosa, v\u00f3s n\u00e3o sois nada ainda. Ningu\u00e9m ainda vos cativou, nem cativastes a ningu\u00e9m. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo. Ela \u00e1 agora \u00fanica no mundo.<br \/>\nE as rosas estavam desapontadas.<br \/>\n&#8211; Sois belas, mas vazias, disse ele ainda. N\u00e3o se pode morrer por v\u00f3s. Minha rosa, sem d\u00favida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha \u00e9, por\u00e9m, mais importante que v\u00f3s todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus sob a redoma. Foi a ela que abriguei com o p\u00e1ra-vento. Foi dela que eu matei as larvas (exceto duas ou tr\u00eas por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. \u00c9 a minha rosa.<br \/>\nE voltou, ent\u00e3o, \u00e0 raposa:<br \/>\n&#8211; Adeus, disse ele&#8230;<br \/>\n&#8211; Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. \u00c9 muito simples: s\u00f3 se v\u00ea bem com o cora\u00e7\u00e3o. O essencial \u00e9 invis\u00edvel para os olhos.<br \/>\n&#8211; O essencial \u00e9 invis\u00edvel para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.<br \/>\n&#8211; Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa t\u00e3o importante.<br \/>\n&#8211; Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa&#8230; repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.<br \/>\n&#8211; Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu n\u00e3o a deves esquecer. Tu te tornas eternamente respons\u00e1vel por aquilo que cativas. Tu \u00e9s respons\u00e1vel pela rosa&#8230;<br \/>\n&#8211; Eu sou respons\u00e1vel pela minha rosa&#8230; repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\">Cap\u00edtulo Vinte e Dois<\/span><\/p>\n<p>&#8211; Bom dia, disse o principezinho.<br \/>\n&#8211; Bom dia, respondeu o guarda-chaves.<br \/>\n&#8211; Que fazes aqui! perguntou-lhe o principezinho.<br \/>\n&#8211; Eu divido os passageiros em blocos de mil, disse o guarda-chaves. Despacho os trens que os carregam, ora para a direita, ora para a esquerda.<br \/>\nE um r\u00e1pido iluminado, roncando como um trov\u00e3o, fez tremer a cabine do guarda-chaves.<br \/>\n&#8211; Eles est\u00e3o com muita pressa, disse o principezinho. O que \u00e9 que est\u00e3o procurando?<br \/>\n&#8211; Nem o homem da locomotiva sabe, disse o guarda-chaves.<br \/>\nE trovejou, em sentido inverso, um outro r\u00e1pido iluminado.<br \/>\n&#8211; J\u00e1 est\u00e3o de volta? perguntou o principezinho&#8230;<br \/>\n&#8211; N\u00e3o s\u00e3o os mesmos, disse o guarda-chaves. \u00c9 uma troca.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o estavam contentes onde estavam?<br \/>\n&#8211; Nunca estamos contentes onde estamos, disse o guarda-chaves.<br \/>\n&#8211; E um terceiro r\u00e1pido, iluminado, trovejou.<br \/>\n&#8211; Est\u00e3o perseguindo os primeiros viajantes? perguntou o principezinho.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o perseguem nada, disse o guarda-chaves. Est\u00e3o dormindo l\u00e1 dentro, ou bocejando. S\u00f3 as crian\u00e7as esmagam o nariz nas vidra\u00e7as.<br \/>\n&#8211; S\u00f3 as crian\u00e7as sabem o que procuram, disse o principezinho. Perdem tempo com uma boneca de pano, e a boneca se torna muito importante, e choram quando a gente toma&#8230;<br \/>\n&#8211; Elas s\u00e3o felizes&#8230; disse o guarda-chaves.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\">Cap\u00edtulo Vinte e Tr\u00eas<\/span><\/p>\n<p>&#8211; Bom dia, disse o principezinho.<br \/>\n&#8211; Bom dia, disse o vendedor.<br \/>\nEra um vendedor de p\u00edlulas aperfei\u00e7oadas eu aplacavam a sede. Toma-se uma por semana e n\u00e3o \u00e9 mais preciso beber.<br \/>\n&#8211; Por que vendes isso? perguntou o principezinho.<br \/>\n&#8211; \u00c9 uma grande economia de tempo, disse o vendedor. Os peritos calcularam. A gente ganha cinq\u00fcenta e tr\u00eas minutos por semana.<br \/>\n&#8211; E o que se faz, ent\u00e3o, com os cinq\u00fcenta e tr\u00eas minutos?<br \/>\n&#8211; O que a gente quiser&#8230;<br \/>\n&#8220;Eu, pensou o principezinho, se tivesse cinq\u00fcenta e tr\u00eas minutos para gastar, iria caminhando passo a passo, m\u00e3os no bolso, na dire\u00e7\u00e3o de uma fonte&#8230;&#8221;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\">Cap\u00edtulo Vinte e Quatro<\/span><\/p>\n<p>Est\u00e1vamos no oitavo dia de minha pane. Justamente quando bebia a \u00faltima gota de minha provis\u00e3o de \u00e1gua, foi que ouvi a hist\u00f3ria do vendedor.<br \/>\n&#8211; Ah! disse eu ao principezinho, s\u00e3o bem bonitas as tuas lembran\u00e7as, mas eu n\u00e3o consertei ainda meu avi\u00e3o, n\u00e3o tenho mais nada para beber, e eu seria feliz, eu tamb\u00e9m, se pudesse ir caminhando passo a passo, m\u00e3os no bolso, na dire\u00e7\u00e3o de uma fonte!<br \/>\n&#8211; Minha amiga raposa me disse&#8230;<br \/>\n&#8211; Meu caro, n\u00e3o se trata mais de raposa!<br \/>\n&#8211; Por qu\u00ea?<br \/>\n&#8211; Porque vamos morrer de sede&#8230;<br \/>\nEle n\u00e3o compreendeu o meu racioc\u00ednio, e respondeu:<br \/>\n&#8211; \u00c9 bom ter tido um amigo, mesmo se a gente vai morrer. Eu estou muito contente de ter tido a raposa por amiga&#8230;<br \/>\n&#8211; N\u00e3o avalia o perigo, disse eu. N\u00e3o tem nunca fome ou sede. Um raio de sol lhe basta&#8230;<br \/>\nMas ele me olhou e respondeu ao que eu pensava:<br \/>\n&#8211; Tenho sede tamb\u00e9m&#8230; procuremos um po\u00e7o&#8230;<br \/>\n&#8211; Eu fiz um gesto de des\u00e2nimo: \u00e9 absurdo procurar um po\u00e7o ao acaso, na imensid\u00e3o do deserto. No entanto, pusemo-nos a caminho.<br \/>\nJ\u00e1 t\u00ednhamos andado horas em sil\u00eancio quando a noite caiu e as estrelas come\u00e7aram a brilhar. Eu as via como em sonho, porque tinha um pouco de febre, por causa da sede. As palavras do principezinho dan\u00e7avam-me na mem\u00f3ria:<br \/>\n&#8211; Tu tens sede tamb\u00e9m? perguntei-lhe.<br \/>\nMas n\u00e3o respondeu \u00e0 minha pergunta. Disse apenas:<br \/>\n&#8211; A \u00e1gua pode ser boa para o cora\u00e7\u00e3o&#8230;<br \/>\nN\u00e3o compreendi sua resposta e calei-me&#8230; Eu bem sabia que n\u00e3o adiantava interrog\u00e1-lo.<br \/>\nEle estava cansado. Sentou-se. Sentei-me junto dele. E, ap\u00f3s um sil\u00eancio, disse ainda:<br \/>\n&#8211; As estrelas s\u00e3o belas por causa de uma flor que n\u00e3o se v\u00ea&#8230;<br \/>\nEu respondi &#8220;\u00e9 mesmo&#8221; e fitei, sem falar, a ondula\u00e7\u00e3o da areia enluarada.<br \/>\n&#8211; O deserto \u00e9 belo, acrescentou&#8230;<br \/>\nE era verdade. Eu sempre amei o deserto. A gente se senta numa duna de areia. N\u00e3o se v\u00ea nada. N\u00e3o se escuta nada. E no entanto, no sil\u00eancio, alguma coisa irradia&#8230;<br \/>\nO que torna belo o deserto, disse o principezinho, \u00e9 que ele esconde um po\u00e7o nalgum lugar.<br \/>\nFiquei surpreso por compreender de s\u00fabito essa misteriosa irradia\u00e7\u00e3o da areia. Quando eu era pequeno, habitava uma casa antiga, e diziam as lendas que ali fora enterrado um tesouro. Ningu\u00e9m, \u00e9 claro, o conseguira descobrir, nem talvez mesmo o procurou. Mas ele encantava a casa toda. Minha casa escondia um tesouro no fundo do cora\u00e7\u00e3o&#8230;<br \/>\n&#8211; Quer se trate de casa, das estrelas ou do deserto, disse eu ao principezinho, o que faz sua beleza \u00e9 invis\u00edvel!<br \/>\n&#8211; Estou contente, disse ele, que estejas de acordo com a raposa.<br \/>\nComo o principezinho adormecesse, tomei-o nos bra\u00e7os e prossegui a caminhada. Eu estava comovido. Tinha a impress\u00e3o de carregar um fr\u00e1gil tesouro. Parecia-me mesmo n\u00e3o haver na Terra nada mais fr\u00e1gil. Considerava, \u00e0 luz da lua, a fronte p\u00e1lida, os olhos fechados, as mechas de cabelo que tremiam ao vento. E eu pensava: o que eu vejo n\u00e3o \u00e9 mais que uma casca. O mais importante \u00e9 invis\u00edvel&#8230;<br \/>\nComo seus l\u00e1bios entreabertos esbo\u00e7assem um sorriso, pensei ainda: &#8220;O que tanto me comove nesse pr\u00edncipe adormecido \u00e9 sua fidelidade a uma flor; \u00e9 a imagem de uma rosa que brilha nele como a chama de uma l\u00e2mpada, mesmo quando dorme&#8230;&#8221; Eu o pressentia ent\u00e3o mais fr\u00e1gil ainda. \u00c9 preciso proteger as l\u00e2mpadas com cuidado: um sopro as pode apagar&#8230;<br \/>\nE, caminhando assim, eu descobri o po\u00e7o. O dia estava raiando.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\">Cap\u00edtulo Vinte e Cinco<\/span><\/p>\n<p>&#8211; Os homens, disse o principezinho, se enfurnam nos r\u00e1pidos, mas n\u00e3o sabem o que procuram. Ent\u00e3o eles se agitam, ficam rodando \u00e0 toa&#8230;<br \/>\nE acrescentou:<br \/>\n&#8211; E isso n\u00e3o adianta&#8230;<br \/>\nO po\u00e7o a que t\u00ednhamos chegado n\u00e3o se parecia de forma alguma com os po\u00e7os do Saara. Os po\u00e7os do Saara s\u00e3o simples buracos na areia. Aquele, parecia um po\u00e7o de aldeia. Mas n\u00e3o havia ali aldeia alguma, e eu julgava sonhar.<br \/>\n&#8211; \u00c9 estranho, disse eu ao principezinho, tudo est\u00e1 preparado: a roldana, o balde e a corda.<br \/>\nEle riu, pegou a corda, fez girar a roldana. E a roldana gemeu como gemem os velhos cata-ventos quando o vento dormiu por muito tempo.<br \/>\n&#8211; Tu escutas? disse o pr\u00edncipe. Estamos acordando o po\u00e7o, ele canta&#8230;<br \/>\nEu n\u00e3o queria que ele fizesse esfor\u00e7o:<br \/>\n&#8211; Deixa que eu puxe, disse eu, \u00e9 muito pesado para o teu tamanho.<br \/>\nLentamente, icei o balde at\u00e9 em cima, e o instalei com cuidado na borda do po\u00e7o. Nos meus ouvidos permanecia ainda o canto da roldana, e na \u00e1gua, que ainda brilhava, via tremer o sol.<br \/>\n&#8211; Tenho sede dessa \u00e1gua, disse o principezinho. D\u00e1-me de beber&#8230;<br \/>\nE eu compreendi o que ele havia buscado!<br \/>\nLevantei-lhe o balde at\u00e9 a boca. Ele bebeu, de olhos fechados. Era doce como uma festa. Essa \u00e1gua era muito mais que alimento. Nascera da caminhada sob as estrelas, do canto da roldana, do esfor\u00e7o do meu bra\u00e7o. Era boa para o cora\u00e7\u00e3o, como um presente. Quando eu era pequeno, todo o esplendor do presente de Natal estava tamb\u00e9m na luz da \u00e1rvore, na m\u00fasica da missa de meia-noite, na do\u00e7ura dos risos&#8230;<br \/>\n&#8211; Os homens do teu planeta, disse o principezinho, cultivam cinco mil rosas num mesmo jardim&#8230; e n\u00e3o encontram o que procuram&#8230;<br \/>\n&#8211; N\u00e3o encontram, respondi&#8230;<br \/>\n&#8211; E no entanto o que eles buscam poderia ser achado numa s\u00f3 rosa, ou num pouquinho d&#8217;\u00e1gua&#8230;<br \/>\n&#8211; \u00c9 verdade.<br \/>\nE o principezinho acrescentou:<br \/>\n&#8211; Mas os olhos s\u00e3o cegos. \u00c9 preciso buscar com o cora\u00e7\u00e3o&#8230;<br \/>\nEu havia bebido. Respirava facilmente. A areia \u00e9 cor de mel quando amanhece. E a cor de mel me fazia feliz. Por que haveria eu de estar triste?&#8230;<br \/>\n&#8211; \u00c9 preciso, disse baixinho o pr\u00edncipe, que cumpras a tua promessa. Ele estava, de novo, sentado junto de mim.<br \/>\n&#8211; Que promessa?<br \/>\n&#8211; Tu sabes&#8230; a morda\u00e7a do meu carneiro&#8230; eu sou respons\u00e1vel pela flor!<br \/>\nTirei do bolso as minhas tentativas de desenho. O principezinho os viu e disse rindo:<br \/>\n&#8211; Teus baob\u00e1s parecem um pouco repolhos&#8230;<br \/>\n&#8211; Oh!<br \/>\nEu estava t\u00e3o orgulhoso de meus baob\u00e1s!<br \/>\n&#8211; Tua raposa&#8230; as orelhas dela&#8230; parecem chifres&#8230; s\u00e3o compridas demais!<br \/>\nEle riu outra vez.<br \/>\n&#8211; Tu \u00e9s injusto, meu bem, eu s\u00f3 sabia desenhar jib\u00f3ias abertas e fechadas&#8230;<br \/>\n&#8211; N\u00e3o faz mal, disse ele, as crian\u00e7as entendem.<br \/>\nRabisquei, portanto, uma pequena morda\u00e7a. Mas sentia, ao entreg\u00e1-la, um aperto no cora\u00e7\u00e3o:<br \/>\n&#8211; Tu tens projeto que eu ignoro&#8230;<br \/>\nEle n\u00e3o me respondeu. Mas disse:<br \/>\n&#8211; Lembras-te da minha queda na Terra? Amanh\u00e3 ser\u00e1 o anivers\u00e1rio&#8230;<br \/>\nDepois, ap\u00f3s um sil\u00eancio, acrescentou:<br \/>\n&#8211; Ca\u00ed pertinho daqui&#8230;<br \/>\nE ficou vermelho ao diz\u00ea-lo.<br \/>\nE de novo, sem compreender porque, eu sentia um estranho pesar. No entanto, ocorreu-me a pergunta:<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o n\u00e3o foi por acaso que vagavas sozinho, quando te encontrei, h\u00e1 oito dias, a milhas e milhas de qualquer regi\u00e3o habitada! N\u00e3o estarias voltando ao ponto da queda?<br \/>\nO principezinho ficou vermelho de novo.<br \/>\nE eu acrescentei, hesitando:<br \/>\n&#8211; Ter\u00e1 sido por causa do anivers\u00e1rio?&#8230;<br \/>\nO principezinho ficou mais vermelho. N\u00e3o respondia nunca \u00e0s perguntas. Mas quando a gente fica vermelho, n\u00e3o \u00e9 o mesmo que dizer &#8220;sim&#8221;?<br \/>\n&#8211; Ah! disse-lhe eu, eu tenho medo&#8230;<br \/>\nMas ele respondeu:<br \/>\n&#8211; Tu deves agora trabalhar. Ir em busca do teu aparelho. Espero-te aqui. Volta amanh\u00e3 de tarde&#8230;<br \/>\nMas eu n\u00e3o estava tranq\u00fcilo. Lembrava-me da raposa. A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar&#8230;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\">Cap\u00edtulo Vinte e Seis<\/span><\/p>\n<p>Havia, ao lado do po\u00e7o, a ru\u00edna de um velho muro de pedra. Quando voltei do trabalho, no dia seguinte, vi, de longe, o principezinho sentado no alto, com as pernas balan\u00e7ando. E eu o escutei dizer:<br \/>\n&#8211; Tu n\u00e3o te lembras ent\u00e3o? N\u00e3o foi bem aqui o lugar!<br \/>\nUma outra voz devia responder-lhe, porque replicou em seguida:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o; n\u00e3o estou enganado. O dia \u00e9 este, mas n\u00e3o o lugar&#8230;<br \/>\nProssegui o caminho para o muro. Continuava a n\u00e3o ver ningu\u00e9m. No entanto o principezinho replicou novamente:<br \/>\n&#8211; &#8230; Est\u00e1 bem. Tu ver\u00e1s onde come\u00e7a, na areia, o sinal dos meus passos. Basta esperar-me. Estarei ali esta noite.<br \/>\nEu me achava a vinte metros do muro e continuava a n\u00e3o ver nada. O principezinho disse ainda, ap\u00f3s um sil\u00eancio:<br \/>\n&#8211; O teu veneno \u00e9 do bom? Est\u00e1s certa de que n\u00e3o vou sofrer muito tempo?<br \/>\nParei, o cora\u00e7\u00e3o apertado, sem compreender ainda.<br \/>\n&#8211; Agora, vai-te embora, disse ele&#8230; eu quero descer!<br \/>\nEnt\u00e3o baixei os olhos para o p\u00e9 do muro, e dei um salto! L\u00e1 estava, erguida para o principezinho, uma dessas serpentes amarelas que nos liquidam num minuto. Enquanto procurava o rev\u00f3lver no bolso, dei uma r\u00e1pida corrida.<br \/>\nMas, percebendo o barulho, a serpente se foi encolhendo lentamente, como um repuxo que morre. E, sem se apressar demais, enfiou-se entre as pedras, num leve tinir de metal.<br \/>\nCheguei ao muro a tempo de receber nos bra\u00e7os o meu caro principezinho, p\u00e1lido como a neve.<br \/>\n&#8211; Que hist\u00f3ria \u00e9 essa? Tu conversas agora com as serpentes?<br \/>\nDesatei o n\u00f3 do seu eterno len\u00e7o dourado. Umedeci-lhe as t\u00eamporas. Dei-lhe \u00e1gua. E agora, n\u00e3o ousava perguntar-lhe coisa alguma. Olhou-me gravemente e passou-me os bracinhos no pesco\u00e7o. Sentia-lhe o cora\u00e7\u00e3o bater de encontro ao meu, como o de um p\u00e1ssaro que morre, atingido pela carabina. Ele me disse:<br \/>\n&#8211; Estou contente de teres descoberto o defeito do maquinismo. Vais poder voltar para casa&#8230;<br \/>\n&#8211; Como soubeste disso?<br \/>\n&#8211; Eu vinha justamente anunciar-lhe que, contra toda expectativa, havia realizado o conserto!<br \/>\nNada respondeu \u00e0 minha pergunta, mas acrescentou:<br \/>\n&#8211; Eu tamb\u00e9m volto hoje para casa&#8230;<br \/>\nDepois, com melancolia, ele disse:<br \/>\n&#8211; \u00c9 bem mais longe&#8230; bem mais dif\u00edcil&#8230;<br \/>\nEu percebia claramente que algo de extraordin\u00e1rio se passava. Apertava-o nos bra\u00e7os como se fosse uma criancinha; mas tinha a impress\u00e3o de que ele ia deslizando verticalmente no abismo, sem que eu nada pudesse fazer para det\u00ea-lo&#8230;<br \/>\nSeu olhar estava s\u00e9rio, perdido ao longe:<br \/>\n&#8211; Tenho o teu carneiro. E a caixa para o carneiro. E a morda\u00e7a&#8230;<br \/>\nEle sorriu com tristeza.<br \/>\nEsperei muito tempo. Pareceu-me que ele ia se aquecendo de novo, pouco a pouco:<br \/>\n&#8211; Meu querido, tu tiveste medo&#8230;<br \/>\n\u00c9 claro que tivera. Mas ele sorriu docemente.<br \/>\n&#8211; Terei mais medo ainda esta noite&#8230;<br \/>\nO sentimento do irrepar\u00e1vel gelou-me de novo. E eu compreendi que n\u00e3o podia suportar a id\u00e9ia de nunca mais escutar esse riso. Ele era para mim como uma fonte no deserto.<br \/>\n&#8211; Meu bem, eu quero ainda escutar o teu riso&#8230;<br \/>\nMas ele me disse:<br \/>\n&#8211; Faz um ano esta noite. Minha estrela se achar\u00e1 justamente em cima do lugar onde eu ca\u00ed o ano passado&#8230;<br \/>\n&#8211; Meu bem, n\u00e3o ser\u00e1 um sonho mau essa hist\u00f3ria d serpente, de encontro marcado, de estrela?<br \/>\nMas n\u00e3o respondeu \u00e0 minha pergunta. E disse:<br \/>\n&#8211; O que \u00e9 importante, a gente n\u00e3o v\u00ea&#8230;<br \/>\n&#8211; A gente n\u00e3o v\u00ea&#8230;<br \/>\n&#8211; Ser\u00e1 como a flor. Se tu amas uma flor que se acha numa estrela, \u00e9 doce, de noite, olhar o c\u00e9u. Todas as estrelas est\u00e3o floridas.<br \/>\n&#8211; Todas as estrelas est\u00e3o floridas.<br \/>\n&#8211; Ser\u00e1 como a \u00e1gua. Aquela que me deste parecia m\u00fasica, por causa da roldana e da corda&#8230; Lembras-te como era boa?<br \/>\n&#8211; Lembro-me&#8230;<br \/>\n&#8211; Tu olhar\u00e1s, de noite, as estrelas. Onde eu moro \u00e9 muito pequeno, para que eu possa te mostrar onde se encontra a minha. \u00c9 melhor assim, Minha estrela ser\u00e1 ent\u00e3o qualquer das estrelas. Gostar\u00e1s de olhar todas elas&#8230; Ser\u00e3o, todas, tuas amigas. E depois, eu vou fazer-te um presente&#8230;<br \/>\nEle riu outra vez.<br \/>\n&#8211; Ah! meu pedacinho de gente, meu amor, como eu gosto de ouvir esse riso!<br \/>\n&#8211; Pois \u00e9 ele o meu presente&#8230; ser\u00e1 como a \u00e1gua&#8230;<br \/>\n&#8211; Que queres dizer?<br \/>\n&#8211; As pessoas t\u00eam estrelas que n\u00e3o s\u00e3o as mesmas. para uns, que viajam, as estrelas s\u00e3o guias. Para outros, elas n\u00e3o passam de pequenas luzes. Para outros, os s\u00e1bios, s\u00e3o problemas. Para o meu negociante, eram ouro. mas todas essas estrelas se calam. Tu, por\u00e9m, ter\u00e1s estrelas como ningu\u00e9m&#8230;<br \/>\n&#8211; Que queres dizer?<br \/>\n&#8211; Quando olhares o c\u00e9u de noite, porque habitarei uma delas, porque numa delas estarei rindo, ent\u00e3o ser\u00e1 como se todas as estrelas te rissem! E tu ter\u00e1s estrelas que sabem rir!<br \/>\nE ele riu mais uma vez.<br \/>\n&#8211; E quando te houveres consolado (a gente sempre se consola), tu te sentir\u00e1s contente por me teres conhecido. Tu ser\u00e1s sempre meu amigo. Ter\u00e1s vontade de rir comigo. E abrir\u00e1s \u00e0s vezes a janela \u00e0 toa, por gosto&#8230; E teus amigos ficar\u00e3o espantados de ouvir-te rir olhando o c\u00e9u. Tu explicar\u00e1s ent\u00e3o: &#8220;Sim, as estrelas, elas sempre me fazem rir!&#8221; E eles te julgar\u00e3o maluco. Ser\u00e1 uma pe\u00e7a que te prego&#8230;<br \/>\nE riu de novo.<br \/>\n&#8211; Ser\u00e1 como se eu te houvesse dado, em vez de estrelas, mont\u00f5es de guizos que riem&#8230;<br \/>\nE riu de novo, mais uma vez. Depois, ficou s\u00e9rio:<br \/>\n&#8211; Esta noite&#8230; tu sabes&#8230; n\u00e3o venhas.<br \/>\n&#8211; Eu n\u00e3o te deixarei.<br \/>\n&#8211; Eu parecerei sofrer&#8230; eu parecerei morrer. \u00c9 assim. N\u00e3o venhas ver. N\u00e3o vale a pena&#8230;<br \/>\n&#8211; Eu n\u00e3o te deixarei.<br \/>\nMas ele estava preocupado.<br \/>\n&#8211; Eu digo isto&#8230; tamb\u00e9m por causa da serpente. \u00c9 preciso que n\u00e3o te morda. As serpentes s\u00e3o m\u00e1s. Podem morder por gosto&#8230;<br \/>\n&#8211; Eu n\u00e3o te deixarei.<br \/>\nMas uma coisa o tranq\u00fcilizou:<br \/>\n&#8211; Elas n\u00e3o t\u00eam veneno, \u00e9 verdade, para uma segunda mordida&#8230;<br \/>\nEssa noite, n\u00e3o o vi p\u00f4r-se a caminho. Evadiu-se sem rumor. Quando consegui apanh\u00e1-lo, caminhava decidido, a passo r\u00e1pido. Disse-me apenas:<br \/>\n&#8211; Ah! est\u00e1s aqui&#8230;<br \/>\nE ele me tomou pela m\u00e3o. Mas afligiu-se ainda:<br \/>\n&#8211; Fizeste mal. Tu sofrer\u00e1s. Eu parecerei morto e n\u00e3o ser\u00e1 verdade&#8230;<br \/>\nEu me calava.<br \/>\n&#8211; Tu compreendes. \u00c9 longe demais. Eu n\u00e3o posso carregar este corpo. \u00c9 muito pesado.<br \/>\nEu me calava.<br \/>\n&#8211; Mas ser\u00e1 como uma velha casca abandonada. Uma casca de \u00e1rvore n\u00e3o \u00e9 triste&#8230;<br \/>\nEu me calava.<br \/>\nPerdeu um pouco de coragem. Mas fez ainda um esfor\u00e7o:<br \/>\n&#8211; Ser\u00e1 bonito, sabes? Eu tamb\u00e9m olharei as estrelas. Todas as estrelas ser\u00e3o po\u00e7os com uma roldana enferrujada. Todas as estrelas me dar\u00e3o de beber&#8230;<br \/>\nEu me calava.<br \/>\n&#8211; Ser\u00e1 t\u00e3o divertido! Tu ter\u00e1s quinhentos milh\u00f5es de guizos, eu terei quinhentos milh\u00f5es de fontes&#8230;<br \/>\nE ele se calou tamb\u00e9m, porque estava chorando&#8230;<br \/>\n&#8211; \u00c9 aqui. Deixa-me dar um passo sozinho.<br \/>\nE sentou-se, porque tinha medo.<br \/>\nDisse ainda:<br \/>\n&#8211; Tu sabes&#8230; minha flor&#8230; eu sou respons\u00e1vel por ela! Ela \u00e9 t\u00e3o fr\u00e1gil! T\u00e3o ing\u00eanua! Tem quatro espinhos de nada para defend\u00ea-la do mundo&#8230;<br \/>\nEu sentei-me tamb\u00e9m, pois n\u00e3o podia mais ficar de p\u00e9.<br \/>\nEle disse:<br \/>\n&#8211; Pronto&#8230; Acabou-se&#8230;<br \/>\nHesitou ainda um pouco, depois ergueu-se. Deu um passo. Eu&#8230; eu n\u00e3o podia mover-me.<br \/>\nHouve apenas um clar\u00e3o amarelo perto da sua perna. Permaneceu, por um instante, im\u00f3vel. N\u00e3o gritou. Tombou devagarinho como uma \u00e1rvore tomba.<br \/>\nNem fez sequer barulho, por causa da areia.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\">Cap\u00edtulo Vinte e Sete<\/span><\/p>\n<p>E agora, certamente, j\u00e1 se v\u00e3o seis anos&#8230; Jamais contara essa hist\u00f3ria. Os camaradas ficaram contentes de ver-me s\u00e3o e salvo. Eu estava triste, mas dizia: \u00c9 o cansa\u00e7o&#8230;<br \/>\nAgora j\u00e1 me consolei um pouco. Mas n\u00e3o de todo. Sei que ele voltou ao seu planeta; pois, ao raiar do dia, n\u00e3o lhe encontrei o corpo. N\u00e3o era um corpo t\u00e3o pesado assim&#8230; E gosto, \u00e0 noite, de escutar as estrelas. Quinhentos milh\u00f5es de guizos&#8230;<br \/>\nMas eis que sucede uma coisa extraordin\u00e1ria. Na morda\u00e7a que desenhei para o principezinho, esqueci de juntar a correia! N\u00e3o poder\u00e1 jamais prend\u00ea-la ao carneiro. E eu pergunto ent\u00e3o: &#8220;Que se ter\u00e1 passado no planeta? Pode bem ser que o carneiro tenha comido a flor&#8230;&#8221;<br \/>\nOra eu penso: &#8220;Certamente que n\u00e3o! O principezinho encerra a flor todas as noites na redoma de vidro e vigia bem o carneiro&#8230;&#8221; Ent\u00e3o, eu me sinto feliz. E todas as estrelas riem docemente.<br \/>\nOra eu digo: &#8220;Uma vez ou outra a gente se distrai e basta isto! Esqueceu uma noite a redoma de vidro ou o carneiro saiu de mansinho, sem que fosse notado&#8230;&#8221; Ent\u00e3o os guizos se transformam todos em l\u00e1grimas!&#8230;<br \/>\nEis a\u00ed um mist\u00e9rio bem grande. Para voc\u00eas, que amam tamb\u00e9m o principezinho, como para mim, todo o universo muda de sentido, se num lugar, que n\u00e3o sabemos onde, um carneiro, que n\u00e3o conhecemos, comeu ou n\u00e3o uma rosa&#8230;<br \/>\nOlhem o c\u00e9u. Perguntem: Ter\u00e1 ou n\u00e3o ter\u00e1 o carneiro comido a flor? E ver\u00e3o como tudo fica diferente&#8230;<br \/>\nE nenhuma pessoa grande jamais compreender\u00e1 que isso tenha tanta import\u00e2ncia.<br \/>\nEsta \u00e9, para mim, a mais bela paisagem do mundo, e tamb\u00e9m a mais triste. \u00c9 a mesma da p\u00e1gina precedente. Mas desenhei-a de novo para mostr\u00e1-la bem. Foi aqui que o principezinho apareceu na terra, e desapareceu depois.<br \/>\nOlhem atentamente esta paisagem para que estejam certos de reconhec\u00ea-la, se viajarem um dia na \u00c1frica, atrav\u00e9s do deserto. E se acontecer passarem por ali, eu lhes suplico que n\u00e3o tenham pressa e que esperem um pouco bem debaixo da estrela! Se ent\u00e3o um menino vem ao encontro de voc\u00eas, se ele ri, se tem cabelos de ouro, se n\u00e3o responde quando interrogam, adivinhar\u00e3o quem \u00e9. Ent\u00e3o, por favor, n\u00e3o me deixem t\u00e3o triste: escrevam-me depressa que ele voltou&#8230;<\/p>\n<p><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cap\u00edtulo Um Certa vez, quando tinha seis anos, vi num livro sobre a Floresta Virgem, &#8220;Hist\u00f3rias Vividas&#8221;, uma imponente gravura. Representava ela uma jib\u00f3ia que engolia uma fera. Eis a c\u00f3pia do desenho. Dizia o livro: &#8220;As jib\u00f3ias engolem, sem mastigar, a presa inteira. Em seguida, n\u00e3o podem mover-se e dormem os seis meses da digest\u00e3o.&#8221; Refleti muito ent\u00e3o sobre as aventuras da selva, e fiz, com l\u00e1pis de cor, o meu primeiro desenho. Meu desenho n\u00famero 1 era assim: Mostrei minha obra prima \u00e0s pessoas grandes e perguntei se o meu desenho lhes fazia medo. Respondera-me: &#8220;Por que \u00e9 que um chap\u00e9u faria medo?&#8221; Meu desenho n\u00e3o representava um chap\u00e9u. Representava uma jib\u00f3ia digerindo um elefante. Desenhei ent\u00e3o o interior da jib\u00f3ia, a fim de que as pessoas grandes pudessem compreender. Elas t\u00eam sempre necessidade de explica\u00e7\u00f5es. Meu desenho n\u00famero 2 era assim: As pessoas grandes aconselharam-me deixar de lado os desenhos de jib\u00f3ias abertas ou fechadas, e dedicar-me de prefer\u00eancia \u00e0 geografia, \u00e0 hist\u00f3ria, ao c\u00e1lculo, \u00e0 gram\u00e1tica. Foi assim que abandonei, aos seis anos, uma espl\u00eandida carreira de pintor. Eu fora desencorajado pelo insucesso do meu desenho n\u00famero 1 e do meu desenho n\u00famero 2. As pessoas grandes n\u00e3o compreendem nada sozinhas, e \u00e9 cansativo, para as crian\u00e7as, estar toda hora explicando. Tive pois de escolher uma&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":949,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ocean_post_layout":"","ocean_both_sidebars_style":"","ocean_both_sidebars_content_width":0,"ocean_both_sidebars_sidebars_width":0,"ocean_sidebar":"","ocean_second_sidebar":"","ocean_disable_margins":"enable","ocean_add_body_class":"","ocean_shortcode_before_top_bar":"","ocean_shortcode_after_top_bar":"","ocean_shortcode_before_header":"","ocean_shortcode_after_header":"","ocean_has_shortcode":"","ocean_shortcode_after_title":"","ocean_shortcode_before_footer_widgets":"","ocean_shortcode_after_footer_widgets":"","ocean_shortcode_before_footer_bottom":"","ocean_shortcode_after_footer_bottom":"","ocean_display_top_bar":"default","ocean_display_header":"default","ocean_header_style":"","ocean_center_header_left_menu":"","ocean_custom_header_template":"","ocean_custom_logo":0,"ocean_custom_retina_logo":0,"ocean_custom_logo_max_width":0,"ocean_custom_logo_tablet_max_width":0,"ocean_custom_logo_mobile_max_width":0,"ocean_custom_logo_max_height":0,"ocean_custom_logo_tablet_max_height":0,"ocean_custom_logo_mobile_max_height":0,"ocean_header_custom_menu":"","ocean_menu_typo_font_family":"","ocean_menu_typo_font_subset":"","ocean_menu_typo_font_size":0,"ocean_menu_typo_font_size_tablet":0,"ocean_menu_typo_font_size_mobile":0,"ocean_menu_typo_font_size_unit":"px","ocean_menu_typo_font_weight":"","ocean_menu_typo_font_weight_tablet":"","ocean_menu_typo_font_weight_mobile":"","ocean_menu_typo_transform":"","ocean_menu_typo_transform_tablet":"","ocean_menu_typo_transform_mobile":"","ocean_menu_typo_line_height":0,"ocean_menu_typo_line_height_tablet":0,"ocean_menu_typo_line_height_mobile":0,"ocean_menu_typo_line_height_unit":"","ocean_menu_typo_spacing":0,"ocean_menu_typo_spacing_tablet":0,"ocean_menu_typo_spacing_mobile":0,"ocean_menu_typo_spacing_unit":"","ocean_menu_link_color":"","ocean_menu_link_color_hover":"","ocean_menu_link_color_active":"","ocean_menu_link_background":"","ocean_menu_link_hover_background":"","ocean_menu_link_active_background":"","ocean_menu_social_links_bg":"","ocean_menu_social_hover_links_bg":"","ocean_menu_social_links_color":"","ocean_menu_social_hover_links_color":"","ocean_disable_title":"default","ocean_disable_heading":"default","ocean_post_title":"","ocean_post_subheading":"","ocean_post_title_style":"","ocean_post_title_background_color":"","ocean_post_title_background":0,"ocean_post_title_bg_image_position":"","ocean_post_title_bg_image_attachment":"","ocean_post_title_bg_image_repeat":"","ocean_post_title_bg_image_size":"","ocean_post_title_height":0,"ocean_post_title_bg_overlay":0.5,"ocean_post_title_bg_overlay_color":"","ocean_disable_breadcrumbs":"default","ocean_breadcrumbs_color":"","ocean_breadcrumbs_separator_color":"","ocean_breadcrumbs_links_color":"","ocean_breadcrumbs_links_hover_color":"","ocean_display_footer_widgets":"default","ocean_display_footer_bottom":"default","ocean_custom_footer_template":"","ocean_post_oembed":"","ocean_post_self_hosted_media":"","ocean_post_video_embed":"","ocean_link_format":"","ocean_link_format_target":"self","ocean_quote_format":"","ocean_quote_format_link":"post","ocean_gallery_link_images":"on","ocean_gallery_id":[],"footnotes":""},"categories":[34],"tags":[22],"class_list":["post-313","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-contos","tag-contos","entry","has-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/313","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=313"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/313\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":948,"href":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/313\/revisions\/948"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/949"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=313"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=313"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=313"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}