{"id":309,"date":"2008-01-09T12:39:00","date_gmt":"2008-01-09T14:39:00","guid":{"rendered":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/a-maee-dagua\/"},"modified":"2025-07-28T22:11:37","modified_gmt":"2025-07-29T01:11:37","slug":"a-maee-dagua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/a-maee-dagua\/","title":{"rendered":"A m\u00e3ee d&#39;\u00e1gua"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 85%;\"><a href=\"https:\/\/blogger.googleusercontent.com\/img\/b\/R29vZ2xl\/AVvXsEjug4ODZTu6UkhInkS1emw0eM2xFBXIV0vGAGs9_AYnTh_Vjrv65HdksVbPz8k7NbArY7RXxvpSwGlgkd3zt1M4ukC6sBg_tlpJAg8FSdF_Py6aZX82FODix7ieU_faUn5_3-RgXs7X6AM\/s1600-h\/out33.jpg\"><img decoding=\"async\" alt=\"\" border=\"0\" id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5153503558769122354\" src=\"https:\/\/blogger.googleusercontent.com\/img\/b\/R29vZ2xl\/AVvXsEjug4ODZTu6UkhInkS1emw0eM2xFBXIV0vGAGs9_AYnTh_Vjrv65HdksVbPz8k7NbArY7RXxvpSwGlgkd3zt1M4ukC6sBg_tlpJAg8FSdF_Py6aZX82FODix7ieU_faUn5_3-RgXs7X6AM\/s200\/out33.jpg\" style=\"cursor: pointer; float: left; margin: 0pt 10px 10px 0pt;\" \/><\/a><br \/>\n<\/span><span style=\"font-family: verdana; font-size: 85%;\"><br \/>\n<span style=\"font-size: 100%;\">Era um homem muito pobre, que tinha sua planta\u00e7\u00e3o de favas na beira do rio; quando, por\u00e9m,elas estavam boas de colher, n\u00e3o apanhava uma s\u00f3, porque, da noite para o dia, desapareciam.<br \/>\nAfinal, cansado de trabalhar para os outros comerem, tomou a resolu\u00e7\u00e3o de ir espiar quem era<br \/>\nque lhe furtava as favas.<br \/>\nUm dia, estava de espreita, quando viu uma mo\u00e7a, bonita como os amores, no meio do faval,<br \/>\nabaixo e acima, colhendo as favas todas. Foi, bem sutil, bem devagarinho e agarrou-a, dizendo:<br \/>\n\u2013 Ah! \u00e9 voc\u00ea que vem aqui apanhar as minhas favas? Voc\u00ea agora vai \u00e9 para a minha casa, para se casar comigo.<a name='more'><\/a><br \/>\nGritava a mo\u00e7a, forcejando por se libertar das unhas do homem:<br \/>\n\u2013 Me solte! Me solte, que eu n\u00e3o apanho mais as suas favas, n\u00e3o.<br \/>\nPor\u00e9m o homem, sem querer larg\u00e1-la. Finalmente, disse a mo\u00e7a:<br \/>\n\u2013 Est\u00e1 bem. Eu me caso com voc\u00ea, mas nunca arrenegue de gente de debaixo d\u2019\u00e1gua.<br \/>\nO homem disse que sim. Levou-a e casou-se com ela. Tudo quanto possu\u00eda aumentou como<br \/>\nmilagre, num instante. Fez logo um sobrado muito bom, comprou escravos, teve muitas cria\u00e7\u00f5es,<br \/>\nmuitas ro\u00e7as, muito dinheiro, enfim.<br \/>\nDepois de passado bastante tempo, a mulher foi ficando desmazelada, que uma coisa era ver e<br \/>\na outra contar. Parecia de prop\u00f3sito. N\u00e3o dava comida aos filhos, que viviam rotos e sujos. A casa<br \/>\nestava sempre desarrumada, cheia de cisco. Os escravos, sem ter quem os mandasse, n\u00e3o cuidavam<br \/>\ndo servi\u00e7o e s\u00f3 andavam brigando uns com os outros. Ela, descal\u00e7a, com o vestido esfarrapado, os<br \/>\ncabelos alvoro\u00e7ados, levava o dia inteiro dormindo.<br \/>\nEnquanto o pobre do homem estava na rua, nos seus neg\u00f3cios, estava sossegado; mas, assim que<br \/>\npunha o p\u00e9 dentro de casa, era uma azucrina\u00e7\u00e3o em cima dele, que s\u00f3 lhe faltava endoidecer. Choravam<br \/>\nos meninos, com fome:<br \/>\n\u2013 Papai, eu quero comer&#8230; Papai, eu quero comer&#8230;<br \/>\nOs escravos:<br \/>\n\u2013 Meu senhor, fulano me fez isto. Beltrano me fez aquilo.<br \/>\nUm inferno! Vivia zonzo de tal forma, que pouco parava em casa. Um dia, muito aporrinhado da vida,<br \/>\ndisse baixinho:<br \/>\n\u2013 Arrenego de gente de debaixo d\u2019\u00e1gua&#8230;<br \/>\nA\u00ed a mo\u00e7a, que s\u00f3 vivia esperando por aquilo mesmo para ir-se embora, porque ela era a &#8220;m\u00e3e-d\u2019\u00e1gua&#8221;<br \/>\ne andava doida por voltar para o seu rio, levantou-se mais que depressa e foi saindo pela porta a fora,<br \/>\ncantando:<\/p>\n<p>\u2013 Z\u00e3o, z\u00e3o, z\u00e3o, z\u00e3o,<br \/>\nCalunga,<br \/>\nOlha o munguelend\u00f4,<br \/>\nCalunga,<br \/>\nMinha gente toda,<br \/>\nCalunga,<br \/>\nVamo-nos embora.<br \/>\nCalunga,<br \/>\nPara a minha casa,<br \/>\nCalunga,<br \/>\nDe debaixo d\u2019\u00e1gua,<br \/>\nCalunga,<br \/>\nEu bem te dizia,<br \/>\nCalunga,<br \/>\nQue n\u00e3o arrenegasses,<br \/>\nCalunga,<br \/>\nDe gente de debaixo d\u2019\u00e1gua,<br \/>\nCalunga.<\/p>\n<p>O homem, espantado, gritou:<br \/>\n\u2013 N\u00e3o v\u00e1 l\u00e1 n\u00e3o, minha mulher!<br \/>\nMas, qual! Em seguida \u00e0 mo\u00e7a, foram saindo os filhos, os escravos e cria\u00e7\u00f5es: bois, cavalos, carneiros,<br \/>\nporcos, patos, galinhas, perus, tudo, tudo. E o pobre do homem, com as m\u00e3os na cabe\u00e7a, gritando :<br \/>\n\u2013 N\u00e3o v\u00e1 l\u00e1 n\u00e3o, minha mulher!<br \/>\nEla, continuando o seu caminho, nem ao menos olhava para tr\u00e1s, cantando sempre:<\/p>\n<p>\u2013 Z\u00e3o, z\u00e3o, z\u00e3o, z\u00e3o,<br \/>\nCalunga &#8220;, etc.<\/p>\n<p>Depois da gente e dos bichos, foram saindo pela porta a fora a mob\u00edlia, a lou\u00e7a, as roupas, os ba\u00fas e<br \/>\ntudo o que estava em cima deles, comprado com o dinheiro dela. O homem correu atr\u00e1s, vestido j\u00e1 na<br \/>\nsua roupa do tempo em que era pobre, gritando:<br \/>\n\u2013 N\u00e3o v\u00e1 l\u00e1 n\u00e3o, minha mulher!<br \/>\nFoi o mesmo que nada. Por fim acompanharam-na a casa, telheiros, galinheiros, cercados, currais,<br \/>\nplanta\u00e7\u00f5es, \u00e1rvores e o mais. Chegando \u00e0 beira do rio, a mo\u00e7a e todo o seu acompanhamento foram<br \/>\ncaindo na \u00e1gua e desaparecendo.<br \/>\nO homem foi viver pobremente, como dantes, do seu faval. Tamb\u00e9m nunca mais a &#8220;m\u00e3e-d\u2019\u00e1gua&#8221; buliu<br \/>\nna sua ro\u00e7a.<\/p>\n<p><\/span><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" align=\"left\" alt=\"\" border=\"0\" height=\"1\" src=\"http:\/\/uv.terra.com.br\/UV?c=planeta\" width=\"1\" \/><br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 85%;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era um homem muito pobre, que tinha sua planta\u00e7\u00e3o de favas na beira do rio; quando, por\u00e9m,elas estavam boas de colher, n\u00e3o apanhava uma s\u00f3, porque, da noite para o dia, desapareciam. Afinal, cansado de trabalhar para os outros comerem, tomou a resolu\u00e7\u00e3o de ir espiar quem era que lhe furtava as favas. Um dia, estava de espreita, quando viu uma mo\u00e7a, bonita como os amores, no meio do faval, abaixo e acima, colhendo as favas todas. Foi, bem sutil, bem devagarinho e agarrou-a, dizendo: \u2013 Ah! \u00e9 voc\u00ea que vem aqui apanhar as minhas favas? Voc\u00ea agora vai \u00e9 para a minha casa, para se casar comigo. Gritava a mo\u00e7a, forcejando por se libertar das unhas do homem: \u2013 Me solte! Me solte, que eu n\u00e3o apanho mais as suas favas, n\u00e3o. Por\u00e9m o homem, sem querer larg\u00e1-la. Finalmente, disse a mo\u00e7a: \u2013 Est\u00e1 bem. Eu me caso com voc\u00ea, mas nunca arrenegue de gente de debaixo d\u2019\u00e1gua. O homem disse que sim. Levou-a e casou-se com ela. Tudo quanto possu\u00eda aumentou como milagre, num instante. Fez logo um sobrado muito bom, comprou escravos, teve muitas cria\u00e7\u00f5es, muitas ro\u00e7as, muito dinheiro, enfim. Depois de passado bastante tempo, a mulher foi ficando desmazelada, que uma coisa era ver e a outra contar. 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