{"id":248,"date":"2009-10-27T06:42:00","date_gmt":"2009-10-27T08:42:00","guid":{"rendered":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/riquete-do-topete-charles-perrault\/"},"modified":"2025-07-28T21:26:17","modified_gmt":"2025-07-29T00:26:17","slug":"riquete-do-topete-charles-perrault","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/riquete-do-topete-charles-perrault\/","title":{"rendered":"Riquete do Topete (Charles Perrault)"},"content":{"rendered":"<div style=\"clear: both; text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/blogger.googleusercontent.com\/img\/b\/R29vZ2xl\/AVvXsEgdJwndU2DHBT4F3y2svC3HkNbvL7XvneaUjuaVGBPIacS23_qlu8_-Cxjb7MtbG8G8gd4Ol6pKnBwfkqKGbqIYWdopHNh8es2KWMcP4dWkxd31zM1PuDTjWnneFibgH9Vu1qIlz4o5NMQ\/s1600-h\/riquetedotopete.JPG\" style=\"clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" src=\"https:\/\/blogger.googleusercontent.com\/img\/b\/R29vZ2xl\/AVvXsEgdJwndU2DHBT4F3y2svC3HkNbvL7XvneaUjuaVGBPIacS23_qlu8_-Cxjb7MtbG8G8gd4Ol6pKnBwfkqKGbqIYWdopHNh8es2KWMcP4dWkxd31zM1PuDTjWnneFibgH9Vu1qIlz4o5NMQ\/s320\/riquetedotopete.JPG\" \/><\/a>\n<\/div>\n<p>Era uma vez uma rainha que deu \u00e0 luz um filho t\u00e3o feio e t\u00e3o deformado que, durante muito tempo, se duvidou que tivesse forma humana. Uma fada que estava presente quando ele nasceu assegurou que, apesar do seu aspecto, seria am\u00e1vel e muito inteligente. Acrescentou ainda que, gra\u00e7as ao dom que ela lhe concedera, poderia dar \u00e0 pessoa que mais amasse uma intelig\u00eancia igual \u00e0 sua. Estas palavras consolaram um pouco a pobre m\u00e3e que estava trist\u00edssima por ter posto no mundo uma crian\u00e7a t\u00e3o feia. Com efeito, mal come\u00e7ou a falar, o menino disse logo coisas engra\u00e7adas e inteligentes, causando grande admira\u00e7\u00e3o entre quem o escutava. <br \/>\nJ\u00e1 me esquecia de dizer que o menino nasceu com uma pequena poupa de cabelo na cabe\u00e7a, o que fez com que lhe chamassem Riquete do Topete, uma vez que Riquete era o seu nome de fam\u00edlia.<br \/>\nAlguns anos mais tarde, a rainha de um reino vizinho deu \u00e0 luz duas meninas. A primeira era mais bela do que o dia e a rainha ficou t\u00e3o feliz que se temeu que tanta alegria lhe fizesse mal. Estava presente a mesma fada que assistira ao nascimento do pequeno Riquete do Topete e, para moderar a alegria da m\u00e3e, disse-lhe que a princesa teria pouca intelig\u00eancia e que seria t\u00e3o est\u00fapida quanto era bonita.<br \/>\n<a name='more'><\/a> A rainha ficou muito triste mas, momentos depois, teve um desgosto ainda maior porque a segunda filha que deu \u00e0 luz era muit\u00edssimo feia.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o se aflija, Majestade \u2013 disse a fada \u2013 a vossa filha ser\u00e1 t\u00e3o inteligente que a sua fealdade quase n\u00e3o ser\u00e1 notada.<br \/>\n&#8211; Deus o queira, \u2013 respondeu a rainha \u2013 mas n\u00e3o haver\u00e1 meio de conceder um pouco de intelig\u00eancia \u00e0 mais velha que \u00e9 t\u00e3o bela?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o posso valer-lhe no que toca \u00e0 intelig\u00eancia, \u2013 disse a fada \u2013 mas posso fazer tudo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 beleza. E como n\u00e3o h\u00e1 nada que eu n\u00e3o fa\u00e7a para vos satisfazer, concedo-lhe o dom de poder tornar bonita a pessoa que ela quiser.<br \/>\n\u00c0 medida que as duas princesas foram crescendo, cresceram tamb\u00e9m os seus dotes, e n\u00e3o se falava sen\u00e3o da beleza da mais velha e da intelig\u00eancia da mais nova. Tamb\u00e9m \u00e9 verdade que os seus defeitos aumentaram muito com a idade.<br \/>\nA mais nova estava cada vez mais feia e a estupidez da mais velha crescia de dia para dia: ou n\u00e3o respondia ao que se lhe perguntava ou ent\u00e3o dizia um disparate qualquer. Al\u00e9m disso, era t\u00e3o desajeitada que n\u00e3o conseguia pousar quatro ch\u00e1venas na borda da chamin\u00e9 sem partir uma, nem conseguia beber um copo de \u00e1gua sem entornar metade por cima do vestido. <br \/>\nAinda que a beleza seja uma grande vantagem numa jovem, o certo \u00e9 que a mais nova suplantava quase sempre a mais velha quanto a companhias durante os ser\u00f5es. A princ\u00edpio, as pessoas rodeavam a mais velha para a verem e admirarem mas, pouco depois, iam para junto da mais inteligente escutar as mil e uma coisas espirituosas que ela dizia. Em menos de um quarto de hora a mais velha ficava sozinha, enquanto que mais nova tinha toda a gente em seu redor.<br \/>\nA mais velha, apesar de ser muito est\u00fapida, apercebia-se do que se passava e teria dado de bom grado toda a sua beleza em troca de metade da intelig\u00eancia da irm\u00e3. A rainha, ainda que ponderada, n\u00e3o conseguia deixar de a repreender pela sua estupidez, o que entristecia ainda mais esta pobre princesa.<br \/>\nUm dia, foi para o bosque para poder chorar \u00e0 vontade. Nisto, aproximou-se dela um homenzinho muito feio e desajeitado, mas ricamente vestido. Era o jovem pr\u00edncipe Riquete do Topete que se tinha apaixonado perdidamente por ela, depois de ver os seus retratos que circulavam por todo o mundo. Abandonara o reino do seu pai para ter o prazer de a ver e de falar com ela. Encantado por a ter encontrado sozinha, dirigiu-lhe a palavra com muita delicadeza. Notando a sua melancolia, disse-lhe:<br \/>\n&#8211; Senhora, n\u00e3o compreendo como \u00e9 que uma pessoa t\u00e3o bela como v\u00f3s pode estar t\u00e3o triste. Asseguro-vos que nunca vi beleza semelhante \u00e0 vossa.<br \/>\n&#8211; Isso di-lo o senhor \u2013 respondeu a princesa.<br \/>\n&#8211; A beleza constitui um tal privil\u00e9gio que supera tudo o resto. Quando algu\u00e9m a possui, n\u00e3o acredito que exista alguma coisa que a possa afligir muito \u2013 acrescentou Riquete do Topete.<br \/>\n&#8211; Preferia ser feia como v\u00f3s e ser inteligente, em vez de ser t\u00e3o bela como sou \u2013 confessou a princesa.<br \/>\n&#8211; Se \u00e9 s\u00f3 isso que vos apoquenta, posso facilmente p\u00f4r fim \u00e0 vossa dor. <br \/>\n&#8211; E como o farias? \u2013 Perguntou a princesa.<br \/>\n&#8211; Tenho o dom de dar intelig\u00eancia \u00e0 pessoa que mais amar. E, como vos amo, dar-vos-ei o que pretendes se aceitares casar comigo.<br \/>\nA princesa ficou sem palavras, tal foi o seu espanto. <br \/>\n&#8211; Vejo que este pedido vos desagrada, o que n\u00e3o me admira nada \u2013 continuou Riquete do Topete. \u2013 Contudo, dou-vos um ano para decidires.<br \/>\nA princesa era t\u00e3o pouco inteligente e ao mesmo tempo desejava tanto s\u00ea-lo que pensou que um ano seria demasiado tempo para esperar. Por isso, aceitou logo a proposta que lhe fora feita. <br \/>\nAssim que ela prometeu que casaria com Riquete do Topete dentro de um ano naquele mesmo lugar, sentiu-se uma pessoa diferente, sem dificuldade em dizer tudo o que lhe apetecia, de uma maneira elegante, clara e natural. Iniciou logo um di\u00e1logo de tal forma espirituoso, que Riquete pensou ter-lhe dado mais intelig\u00eancia do que a que ele pr\u00f3prio possu\u00eda.<br \/>\nQuando regressou ao pal\u00e1cio, a corte nem sabia o que pensar da sua extraordin\u00e1ria mudan\u00e7a. Em situa\u00e7\u00f5es onde outrora ouviam um chorrilho de disparates, ouviam agora pensamentos claros e muito espirituosos. A \u00fanica pessoa que n\u00e3o ficou totalmente satisfeita com esta mudan\u00e7a foi a irm\u00e3 mais nova, porque havia perdido a \u00fanica vantagem que tinha em rela\u00e7\u00e3o a ela. O rei passou a ouvir as suas opini\u00f5es e, por vezes, pedia-lhe conselhos. Os rumores sobre esta transforma\u00e7\u00e3o espalharam-se pelo reino e os jovens pr\u00edncipes dos reinos vizinhos esfor\u00e7avam-se por conquistar a sua afei\u00e7\u00e3o. Muitos pediram-na em casamento, mas a princesa n\u00e3o os achou suficientemente inteligentes e recusou todos os pedidos.<br \/>\nPor fim, houve um pr\u00edncipe t\u00e3o poderoso, t\u00e3o rico, t\u00e3o inteligente e t\u00e3o belo que a pediu em casamento, que a ela n\u00e3o pode deixar de pensar no seu pedido. O pai notou o seu interesse pelo pr\u00edncipe e disse-lhe que podia ser ela a escolher o noivo que entendesse. S\u00f3 teria que dizer de quem gostava. <br \/>\nPara poder decidir com calma, foi passear, por acaso, para o bosque onde tinha conhecido Riquete do Topete. Foi ent\u00e3o que ouviu vozes em surdina, mesmo por baixo dos seus p\u00e9s, como se a\u00ed estivessem muitas pessoas atarefadas, andando de um lado para o outro.<br \/>\nPrestou mais aten\u00e7\u00e3o e ouviu algu\u00e9m pedir:<br \/>\n&#8211; Traz-me essa panela.<br \/>\nE logo a seguir:<br \/>\n&#8211; D\u00e1-me aquele pote.<br \/>\nE outra pessoa:<br \/>\n&#8211; P\u00f5e lenha no lume!<br \/>\nNesse preciso momento o ch\u00e3o abriu-se e ela viu l\u00e1 em baixo um enorme espa\u00e7o semelhante a uma cozinha cheia de cozinheiros, de criados e de todo o g\u00e9nero de ingredientes que s\u00e3o necess\u00e1rios para se fazer um festim magn\u00edfico. Um grupo de vinte ou trinta salsicheiros dirigiu-se para uma alameda do bosque. Puseram-se \u00e0 volta de uma mesa muito comprida e come\u00e7aram a trabalhar ao ritmo de uma bela can\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA princesa, espantada com o que via, perguntou-lhes para quem trabalhavam.<br \/>\n&#8211; O nosso amo \u00e9 o pr\u00edncipe Riquete do Topete que se casa amanh\u00e3 \u2013 respondeu-lhe o mais vistoso do grupo.<br \/>\nFoi ent\u00e3o que a princesa se lembrou que tinha prometido casar-se com Riquete do Topete naquele mesmo dia. Quase desmaiou! Por\u00e9m, havia uma raz\u00e3o para o seu esquecimento: naquela altura, era apenas uma tonta. Assim que recebeu do pr\u00edncipe uma nova intelig\u00eancia, esqueceu todas as tolices que dizia.<br \/>\nAinda n\u00e3o dera trinta passos quando Riquete do Topete surgiu diante de si, em trajes magn\u00edficos, conforme conv\u00e9m a um pr\u00edncipe que se vai casar.<br \/>\n&#8211; Aqui estou, Senhora, pronto a cumprir a minha palavra. N\u00e3o duvido que tamb\u00e9m vieste cumprir a vossa e, assim, tornar-me o homem mais feliz do mundo.<br \/>\n&#8211; Confesso, com toda a franqueza, que ainda n\u00e3o me decidi e penso que nunca poderei tomar a decis\u00e3o que deseja \u2013 respondeu a princesa. <br \/>\n&#8211; Muito me admiro, Senhora! \u2013 Respondeu Riquete do Topete.<br \/>\n&#8211; Acredito que, se estivesse a falar com um homem grosseiro e bruto, estaria agora bastante embara\u00e7ada. \u00abUma princesa deve cumprir a sua palavra &#8211; dir-me-ia ele.\u00bb Mas como estou a falar com o homem mais inteligente do mundo, estou certa que me compreender\u00e1. Sabe que, quando era tonta, nem ao menos pude decidir se queria casar consigo ou n\u00e3o. Se pretendia casar comigo n\u00e3o me devia ter livrado da minha estupidez. Agora vejo as coisas com mais clareza!<br \/>\n&#8211; Alteza, quereis que me contenha no momento em que a minha felicidade est\u00e1 em jogo? Ser\u00e1 razo\u00e1vel que as pessoas inteligentes se encontrem em desvantagem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s que o n\u00e3o s\u00e3o? Mas vejamos os factos, se o permitis. Al\u00e9m da minha fealdade h\u00e1 mais alguma coisa que n\u00e3o vos agrade? Desagrada-vos a minha origem, as minhas capacidades, o meu car\u00e1cter ou as minhas maneiras?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o, pelo contr\u00e1rio, todas essas caracter\u00edsticas me agradam &#8211; respondeu a Princesa, sem hesitar.<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o, serei feliz \u2013 continuou Riquete do Topete \u2013 pois est\u00e1 na vossa m\u00e3o tornar-me o mais atraente dos homens. Basta que me ames o suficiente. A mesma fada que me concedeu o dom de tornar inteligente a pessoa de quem mais gostasse, tamb\u00e9m vos concedeu, a v\u00f3s, o dom de tornar bonito aquele a quem ames.<br \/>\n&#8211; Se o que dizes \u00e9 verdade, desejo do fundo do cora\u00e7\u00e3o que vos torneis o pr\u00edncipe mais bonito do mundo \u2013 declarou a princesa.<br \/>\nAinda a princesa n\u00e3o tinha acabado de falar e j\u00e1 Riquete do Topete parecia, aos seus olhos, o homem mais bonito e fascinante que alguma vez vira.<br \/>\nH\u00e1 quem diga que esta mudan\u00e7a do pr\u00edncipe n\u00e3o aconteceu gra\u00e7as ao feiti\u00e7o da Fada, mas que s\u00f3 por amor se pode obter uma metamorfose assim. Dizem que a Princesa, depois de pensar nas qualidades do seu namorado, deixou de ver o seu corpo deformado. <br \/>\nA Princesa prometeu que casaria com ele de imediato, desde que o seu pai concordasse. O Rei, quando soube que a filha sentia grande admira\u00e7\u00e3o por Riquete do Topete, pr\u00edncipe muito conhecido pela sua grande sabedoria, aceitou-o com prazer como genro.<br \/>\nNo dia seguinte, celebrou-se a boda, tal como Riquete tinha previsto e de acordo com as ordens que dera h\u00e1 j\u00e1 muito tempo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era uma vez uma rainha que deu \u00e0 luz um filho t\u00e3o feio e t\u00e3o deformado que, durante muito tempo, se duvidou que tivesse forma humana. Uma fada que estava presente quando ele nasceu assegurou que, apesar do seu aspecto, seria am\u00e1vel e muito inteligente. Acrescentou ainda que, gra\u00e7as ao dom que ela lhe concedera, poderia dar \u00e0 pessoa que mais amasse uma intelig\u00eancia igual \u00e0 sua. Estas palavras consolaram um pouco a pobre m\u00e3e que estava trist\u00edssima por ter posto no mundo uma crian\u00e7a t\u00e3o feia. Com efeito, mal come\u00e7ou a falar, o menino disse logo coisas engra\u00e7adas e inteligentes, causando grande admira\u00e7\u00e3o entre quem o escutava. J\u00e1 me esquecia de dizer que o menino nasceu com uma pequena poupa de cabelo na cabe\u00e7a, o que fez com que lhe chamassem Riquete do Topete, uma vez que Riquete era o seu nome de fam\u00edlia. Alguns anos mais tarde, a rainha de um reino vizinho deu \u00e0 luz duas meninas. A primeira era mais bela do que o dia e a rainha ficou t\u00e3o feliz que se temeu que tanta alegria lhe fizesse mal. 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