{"id":244,"date":"2009-10-27T07:21:00","date_gmt":"2009-10-27T09:21:00","guid":{"rendered":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/a-pequena-sereia-andersen\/"},"modified":"2025-07-28T21:23:16","modified_gmt":"2025-07-29T00:23:16","slug":"a-pequena-sereia-andersen","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/a-pequena-sereia-andersen\/","title":{"rendered":"A pequena sereia (Andersen)"},"content":{"rendered":"<div style=\"clear: both; text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/blogger.googleusercontent.com\/img\/b\/R29vZ2xl\/AVvXsEjoP3-tFbmMTrLMDmMGxHc_rlJ8lyIGAqgE6xWhcqoDOwmkjl_B3gEkhbY_4CWMz1D5CDmors1vBsG8qDF_y1xWRyRYBVR-vr6Z7Ie9-SLkNLU2gkjkcwMkCEBdh6BNtNZiOehQPDPLhxo\/s1600-h\/waterhousemermaid%5B3%5D.jpg\" style=\"clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" src=\"https:\/\/blogger.googleusercontent.com\/img\/b\/R29vZ2xl\/AVvXsEjoP3-tFbmMTrLMDmMGxHc_rlJ8lyIGAqgE6xWhcqoDOwmkjl_B3gEkhbY_4CWMz1D5CDmors1vBsG8qDF_y1xWRyRYBVR-vr6Z7Ie9-SLkNLU2gkjkcwMkCEBdh6BNtNZiOehQPDPLhxo\/s200\/waterhousemermaid%5B3%5D.jpg\" vr=\"true\" \/><\/a>\n<\/div>\n<p>Bem no fundo do mar a \u00e1gua \u00e9 azul como as folhas das cent\u00e1ureas, pura como o cristal mais transparente, mas t\u00e3o transparente, mas t\u00e3o profunda que seria in\u00fatil jogar ali a \u00e2ncora e, para medi-la, seria preciso colocar uma quantidade enorme de torres de igreja umas sobre as outras a fim de verificar a dist\u00e2ncia que vai do fundo \u00e0 superf\u00edcie. L\u00e1 \u00e9 a morada do povo do mar. Mas n\u00e3o pensem que esse fundo se comp\u00f5e somente de areia branca; n\u00e3o, ali crescem plantas e \u00e1rvores estranhas e t\u00e3o leves, que o menor movimento da \u00e1gua faz com que elas se agitem, como se estivessem vivas. Todos os peixes, grandes e pequenos, v\u00e3o e v\u00eam entre seus galhos, assim como os p\u00e1ssaros o fazem no ar.<br \/>\nNo lugar mais profundo est\u00e1 o castelo do rei do mar, cujos muros s\u00e3o de coral, as janelas de \u00e2mbar amarelo e o teto \u00e9 feito de conchas que se abrem e fecham para receber a \u00e1gua e para despej\u00e1-la. Cada uma dessas conchas encerra p\u00e9rolas brilhantes e a menor delas honraria a mais bela coroa de qualquer rainha.<br \/>\n<a name='more'><\/a><br \/>\nH\u00e1 muitos anos que o rei do mar estava vi\u00favo e sua velha m\u00e3e dirigia a casa. Era uma mulher espiritual, mas t\u00e3o orgulhosa de sua linhagem, que usava doze ostras na cauda, enquanto que as outras grandes personagens n\u00e3o usavam sen\u00e3o seis.<br \/>\nEla merecia elogios, pelos cuidados que tinha para com as suas netas bem-amadas, todas princesas encantadoras.<br \/>\nNo entanto, a mais mo\u00e7a era ainda mais linda do que as outras; sua pele era suave e transparente como uma folha de rosa, seus olhos eram azuis como um lago profundo seus longos cabelos louros como o trigo; todavia, n\u00e3o possu\u00eda p\u00e9s: assim como suas irm\u00e3s, seu corpo terminava por uma cauda de peixe.<br \/>\nDurante o dia inteiro, as crian\u00e7as brincavam nas grandes salas do castelo, onde flores vi\u00e7osas apareciam entre os muros. Assim que se abriam as janelas de \u00e2mbar amarelo, os peixes entravam como fazem os p\u00e1ssaros connosco e comiam na m\u00e3o das pequenas princesas, que os acariciavam.<br \/>\nEm frente ao castelo havia um grande jardim com \u00e1rvores de um azul profundo e um vermelho de fogo. Os frutos brilhavam como se fossem de ouro, e as flores, agitando sem cessar suas hastes e suas folhas, assemelhavam-se a pequenas chamas.<br \/>\nO solo se compunha de areia branca e fina, ornado aqui e ali de delicadas conchas e uma luminosidade azul maravilhosa, que se espalhava por todos os lados, dava a impress\u00e3o de se estar no ar, no meio do azul do c\u00e9u, ao inv\u00e9s de se estar no mar. Nos dias de calmaria, podia-se perceber a, luz do sol, semelhante a uma pequena flor cor de p\u00farpura que despejasse a luz de sua corola.<br \/>\nCada uma das princesas tinha seu terreno no jardim, o qual ela cultivava a seu belo prazer.<br \/>\nUma lhe dava a forma de uma baleia, a outra, a de uma sereia; mas a menor fez o seu em forma de sol e plantou nele flores rubras como ele.<br \/>\nEra uma jovem estranha, silenciosa e pensativa.<br \/>\nEnquanto suas irm\u00e3s brincavam com diferentes objectos provenientes dos navios naufragados, ela se divertia olhando para uma estatueta de m\u00e1rmore branco, representando um rapaz encantador, colocada sob um chor\u00e3o magn\u00edfico, cor-de-rosa, que a cobria de uma sombra cor de violeta.<br \/>\nSeu maior prazer era ouvir as est\u00f3rias sobre o mundo em que viviam os homens. Todos os dias pedia \u00e0 av\u00f3 que lhe falasse dos objectos, das cidades, dos homens e dos animais.<br \/>\nAdmirava-se, principalmente, de que na terra as flores exalassem um perfume que n\u00e3o havia sob a \u00e1gua do mar e de que as florestas fossem verdes. Enquanto suas irm\u00e3s brincavam com diferentes objectos provenientes dos navios naufragados&#8230; objectos, das cidades, dos homens e dos animais.<br \/>\nN\u00e3o podia imaginar como \u00e9 que os peixes cantassem e saltitassem entre as \u00e1rvores. A av\u00f3 os chamava de p\u00e1ssaros: assim mesmo, ela n\u00e3o compreendia.<br \/>\n\u201cQuando voc\u00ea completar quinze anos\u201d, disse a av\u00f3, \u201ceu lhe darei permiss\u00e3o para subir \u00e0 superf\u00edcie do mar e de sentar-se ao luar sobre os rochedos, para ver os grandes navios passarem e para tomar conhecimento das florestas e das cidades. Voc\u00ea ver\u00e1 um mundo todo novo\u201d.<br \/>\nNo ano seguinte a primeira das jovens completaria quinze anos, e, como n\u00e3o havia sen\u00e3o um ano de diferen\u00e7a entre cada uma delas, a mais mo\u00e7a teria que esperar ainda cinco anos para subir \u00e0 superf\u00edcie do mar.<br \/>\nMas uma prometia sempre \u00e0 outra contar tudo, o que visse na sua primeira sa\u00edda, pois o que a avo contava ainda era pouco e havia tantas coisas que elas ainda desejavam saber!<br \/>\nA mais curiosa era realmente a mais jovem; muitas vezes, durante a noite, ela ficava perto da janela aberta, tentando perceber os ru\u00eddos dos peixes que batiam suas nadadeiras e suas caudas. Olhava bem para o alto e conseguia ver as estrelas e a lua, mas elas lhe pareciam muito p\u00e1lidas e muito aumentadas pelo efeito da \u00e1gua.<br \/>\nAssim que alguma nuvem as escurecia, ela sabia ser uma baleia ou um navio carregado de homens, que nadavam sobre ela. Certamente esses homens nem pensavam em que uma encantadora sereiazinha estendia suas m\u00e3os brancas para o casco do navio que fendia as \u00e1guas.<br \/>\nChegou finalmente o dia em que a princesa mais velha completou quinze anos; ent\u00e3o ela subiu \u00e0 superf\u00edcie do mar, a fim de descobrir o mundo; o desconhecido. Ao voltar, estava cheia de coisas para contar. Oh! disse ela, \u00e9 delicioso ver, estendida ao luar sobre um banco de areia, no meio do mar calmo, as praias da grande cidade, onde as luzes brilham como se fossem centenas de estrelas; ouvir a m\u00fasica harmoniosa, o som dos sinos das igrejas, e todo aquele barulho de homens e de seus carros!.<br \/>\nOh! como sua irm\u00e3zinha ouvia atentamente!<br \/>\nTodas as noites, em frente da janela aberta, olhando atrav\u00e9s da enorme massa de \u00e1gua, ela sonhava longamente com a grande cidade, da qual a irm\u00e3 mais velha falara com tanto entusiasmo, com seus ru\u00eddos e suas luzes, seus habitantes e seus edif\u00edcios e pensava ouvir os sinos tocarem bem perto dela.<br \/>\nNo ano seguinte, a segunda obteve a permiss\u00e3o para subir. Muito contente, ela emergiu a cabe\u00e7a no momento em que o c\u00e9u tocava o horizonte e a magnific\u00eancia desse espect\u00e1culo levou-a ao auge da alegria.<br \/>\nO c\u00e9u inteiro, disse ela ao voltar, parecia ser de ouro e a beleza das nuvens estava al\u00e9m de tudo aquilo que podemos imaginar. Passavam \u00e0 minha frente, vermelhas e roxas e no meio delas voava em direc\u00e7\u00e3o ao sol, como se fosse um longo v\u00e9u branco, um bando de cisnes selvagens. Eu tamb\u00e9m quis nadar na direc\u00e7\u00e3o do grande astro vermelho; mas de repente ele desapareceu e tamb\u00e9m a luz rosada que havia em cima das \u00e1guas e as nuvens desapareceram.<br \/>\nDepois chegou a vez da terceira irm\u00e3. Era a mais imprudente, e assim, subiu pela embocadura do rio e foi seguindo o seu curso. Avistou admir\u00e1veis colinas plantadas de vinhedos e \u00e1rvores frut\u00edferas, castelos e fazendas situados no meio de florestas soberbas e imensas.<br \/>\nOuviu o canto dos p\u00e1ssaros e o calor do sol obrigou-a a mergulhar muitas vezes na \u00e1gua, a fim de refrescar-se.<br \/>\nNo meio de uma ba\u00eda, ela viu uma multid\u00e3o de seres humanos que brincavam e se banhavam. Quis brincar com eles, mas todos se assustaram e um animal preto \u2013 era um c\u00e3o \u2013 come\u00e7ou a latir com tanta for\u00e7a, que ela ficou com muito medo e fugiu para o mar alto.<br \/>\nA sereia jamais p\u00f4de esquecer as soberbas florestas, as colinas verdes e as gentis crian\u00e7as que sabiam nadar, embora n\u00e3o possu\u00edssem cauda de peixe.<br \/>\nA quarta irm\u00e3, que era menos afoita, gostou mais de ficar no meio do mar selvagem, onde a vista se perdia ao longe e onde o c\u00e9u se arredondava em volta da \u00e1gua, como um grande sino de vidro. Percebia os navios ao longe; os delfins brincalh\u00f5es davam cambalhotas e as baleias colossais lan\u00e7avam jatos de \u00e1gua para o ar.<br \/>\nE o dia da quinta irm\u00e3 chegou; estavam exactamente no inverno: e assim ela viu o que as outras n\u00e3o puderam ver. O mar perdera sua cor azul e adquirira um tom esverdeado e por todo lado navegavam, com formas estranhas e brilhantes como diamantes, montanhas de gelo. Cada uma delas, dizia a viajante, parece-se com uma p\u00e9rola maior do que as torres da Igreja em que os homens s\u00e3o batizados.<br \/>\nEla se sentou sobre uma das maiores e todos os navegadores fugiam daquele lugar, onde ela abandonava seus cabelos ao sabor do vento.<br \/>\n\u00c0 noite, uma tempestade cobriu o c\u00e9u de nuvens.<br \/>\nOs rel\u00e2mpagos brilhavam, o trov\u00e3o ribombava, enquanto que o mar, negro e agitado, elevava os grandes peda\u00e7os de gelo, fazendo-os brilhar ao clar\u00e3o dos rel\u00e2mpagos.<br \/>\nO terror espalhou-se por todos os lados; mas ela, tranquilamente sentada sobre a sua montanha de gelo, viu a tempestade cair em ziguezague sobre a \u00e1gua revolta.<br \/>\nA primeira vez que uma das irm\u00e3s subia \u00e0 superf\u00edcie, ficava sempre encantada com tudo o que via; mas depois de crescida, quando podia subir \u00e0 vontade, o encanto desaparecia, ela dizia que l\u00e1 em baixo era tudo melhor, que nada valia o seu lar. E renunciava bem depressa \u00e0s suas viagens por lugares distantes.<br \/>\nMuitas vezes, as cinco irm\u00e3s, de m\u00e3os dadas, subiam \u00e0 superf\u00edcie do mar. Possu\u00edam vozes encantadoras como nenhuma criatura humana poderia possuir, e, se por acaso algum navio cruzava o seu caminho, elas nadavam at\u00e9 ele entoando cantos magn\u00edficos sobre a beleza do fundo do mar, convidando os marinheiros a visit\u00e1-las.<br \/>\nMas estes n\u00e3o podiam compreender as palavras das sereias e nunca viram as maravilhas que elas descreviam; e assim, quando o navio afundava, os homens se afogavam e somente seus cad\u00e1veres chegavam at\u00e9 o castelo do rei do mar.<br \/>\nDurante a aus\u00eancia de suas cinco irm\u00e3s, a mais jovem ficava ao p\u00e9 da janela, seguia-as com o olhar e tinha vontade de chorar. Mas uma sereia n\u00e3o chora, e assim, seu cora\u00e7\u00e3o sofre muito mais.<br \/>\n\u2013 Oh! se eu tivesse quinze anos! \u2013 dizia ela: \u2013 Sinto desde j\u00e1 que amarei muito o mundo l\u00e1 em cima e os homens que ali moram.<br \/>\nE chegou o dia em que ela tamb\u00e9m completou quinze anos.<br \/>\n\u201cVoc\u00ea vai partir\u201d, disse-lhe a av\u00f3 e velha rainha: \u201cvenha, para que eu fa\u00e7a a sua toillete, assim como fiz a suas irm\u00e3s.\u201d<br \/>\nE ela colocou em seus cabelos uma coroa de l\u00edrios brancos, em que cada folha era a metade de uma p\u00e9rola; depois prendeu \u00e0 cauda da princesa oito grandes ostras, para designar a sua linhagem elevada.<br \/>\n\u2013 Como elas me machucam!, \u2013 disse a sereiazinha.<br \/>\n\u2013 Quando se quer ser elegante \u00e9 preciso sofrer um pouco, \u2013 replicou a velha rainha.<br \/>\nEntretanto, a sereiazinha teria dispensado todos esses luxos e a pesada coroa que levava na cabe\u00e7a. Gostava muito mais das flores vermelhas de seu jardim; todavia, n\u00e3o ousava fazer observa\u00e7\u00f5es.<br \/>\n\u201cAdeus!\u201d, disse ela; e, ligeira com uma bola de sab\u00e3o, atravessou a \u00e1gua.<br \/>\nAssim que sua cabe\u00e7a apareceu na superf\u00edcie da \u00e1gua, o sol acabava de se deitar; mas as nuvens brilhavam ainda, como rosas de ouro e a estrela vespertina iluminava o meio do c\u00e9u. O ar estava doce e fresco e o mar apraz\u00edvel.<br \/>\nPerto da sereiazinha estava um navio de tr\u00eas mastros; n\u00e3o levava mais do que uma vela, por causa da calmaria e os marujos estavam sentados nas vergas e no cordame. A m\u00fasica e as can\u00e7\u00f5es ressoavam sem cessar e, a aproxima\u00e7\u00e3o da noite, tudo ficou iluminado por cem lanternas penduradas por toda a parte: podia-se acreditar estar vendo as bandeiras de todas as na\u00e7\u00f5es.<br \/>\nA sereiazinha nadou at\u00e9 a janela do grande aposento, e, de cada vez que se al\u00e7ava, percebia atrav\u00e9s dos vidros transparentes uma quantidade de homens magnificamente trajados. O mais belo deles era um jovem pr\u00edncipe muito elegante, de longos cabelos negros, com a idade ao redor dos dezesseis anos e era para celebrar sua festa que todos aqueles preparativos estavam sendo realizados.<br \/>\nOs marujos dan\u00e7avam no conv\u00e9s, e quando o jovem pr\u00edncipe ali apareceu, cem tiros ecoaram no ar, desprendendo uma luz como aquela do dia.<br \/>\nA sereiazinha mergulhou imediatamente; mas assim que reapareceu, todas as estrelas do c\u00e9u pareceram cair sobre ela. Ela nunca vira fogos de artif\u00edcio; dois grandes s\u00f3is de fogo rodavam no ar, e todo o mar, puro e calmo, brilhava. Sobre o navio podia-se vislumbrar cada cordinha e melhor ainda, os homens. Oh! como o jovem pr\u00edncipe era lindo! Ele apertava a m\u00e3o de todos, falava e sorria a cada um, enquanto a m\u00fasica enviava para o ar os seus sons harmoniosos.<br \/>\nJ\u00e1 era muito tarde, mas a sereiazinha n\u00e3o se cansava de admirar o navio e o belo pr\u00edncipe. As lanternas n\u00e3o brilhavam mais e os tiros de canh\u00e3o j\u00e1 haviam cessado; todas as velas tinham sido i\u00e7adas e o veleiro se afastava a grande velocidade. A princesa o seguiu, sem desviar os olhos das janelas.<br \/>\nMas logo a seguir o mar come\u00e7ou a agitar-se; as ondas aumentaram e grandes nuvens negras se agrupavam no c\u00e9u. \u00c0 dist\u00e2ncia brilhavam os rel\u00e2mpagos e uma terr\u00edvel tempestade se preparava. O veleiro se balan\u00e7ava sobre a \u00e1gua do mar impetuoso, numa marcha r\u00e1pida. As vagas rolavam sobre ele, t\u00e3o altas como montanhas.<br \/>\nA sereiazinha continuou com a sua viagem acidentada; divertia-se bastante. Mas assim que o veleiro, sofrendo as conseq\u00fc\u00eancias da tempestade, come\u00e7ou a estalar e a adernar, ela compreendeu o perigo e teve que tomar cuidado para n\u00e3o ferir-se nos peda\u00e7os de madeira que vinham at\u00e9 ela.<br \/>\nPor um instante fez-se uma tal escurid\u00e3o, que n\u00e3o se avistava absolutamente nada; outras vezes, os rel\u00e2mpagos tornavam vis\u00edveis os menores detalhes da cena.<br \/>\nA agita\u00e7\u00e3o tomara conta do pessoal do navio; mais uma sacudidela! ouviu-se um grande barulho e o barco partiu-se ao meio; e a sereiazinha viu o pr\u00edncipe mergulhar no mar profundo.<br \/>\nLouca de alegria, ela imaginou que ele fosse visitar a sua morada; mas depois lembrou-se de que os homens n\u00e3o podem viver dentro da \u00e1gua e que, em conseq\u00fc\u00eancia, ele chegaria morto ao castelo de seu pai.<br \/>\nEnt\u00e3o, para salv\u00e1-lo, ela atravessou a nado a dist\u00e2ncia que a separava do pr\u00edncipe, passando pelos destro\u00e7os do navio, arriscando-se a se machucar, mergulhou profundamente nas \u00e1guas por v\u00e1rias vezes e assim p\u00f4de chegar at\u00e9 o jovem pr\u00edncipe, justamente no instante em que suas for\u00e7as come\u00e7avam a abandon\u00e1-lo e quando ele j\u00e1 fechava os olhos, a ponto de estar para morrer.<br \/>\nA sereiazinha levou para o alto das \u00e1guas, sustentou sua cabe\u00e7a fora delas, depois abandonou-se com ele ao capricho das ondas.<br \/>\nNa manh\u00e3 seguinte o bom tempo voltou, mas j\u00e1 quase nada restava do veleiro. Um sol vermelho, de raios penetrantes, parecia chamar \u00e0 vida o jovem pr\u00edncipe, mas seu olhos continuavam cerrados. A sereiazinha depositou um beijo em sua fronte e ergueu seus cabelos molhados.<br \/>\nAchou-o parecido com a sua est\u00e1tua de m\u00e1rmore do jardim e rezou pela sua sa\u00fade. Passou em frente \u00e0 terra firme, coberta por altas montanhas azuis, no alto das quais brilhava a neve branca. Perto da costa, no meio de uma soberba floresta verde, havia uma cidade com uma igreja e um convento.<br \/>\nAs casas possu\u00edam os tetos vermelhos. Em volta das casas havia grandes palmeiras e os pomares estavam cheios de laranjeiras e limoeiros; n\u00e3o longe dali o mar formava um pequeno golfo, entrando por um rochedo coberto de fina areia branca.<br \/>\nFoi ali que a sereia colocou o pr\u00edncipe com cuidado, tomando cautela para que ele ficasse com a cabe\u00e7a alta e pudesse receber os raios do sol. Pouco a pouco as cores foram voltando ao rosto do pr\u00edncipe desmaiado.<br \/>\nDa\u00ed a pouco os sinos da igreja come\u00e7aram a tocar e uma quantidade enorme de mo\u00e7as apareceu nos jardins.<br \/>\nA sereiazinha afastou-se nadando e escondeu-se atr\u00e1s de umas grandes pedras para observar o que acontecia ao jovem pr\u00edncipe.<br \/>\nLogo depois, uma das mo\u00e7as passou por ele; no in\u00edcio pareceu assustar-se, mas logo a seguir, foi buscar outras pessoas, que come\u00e7aram a tratar do pr\u00edncipe.<br \/>\nA sereia viu-o recobrar os sentidos e sorrir a todos aqueles que tratavam dele; s\u00f3 n\u00e3o sorriu para ela, pois n\u00e3o sabia que o havia salvo. E assim, logo que o viu ser conduzido para uma grande mans\u00e3o, ela mergulhou tristemente e voltou para o castelo de seu pai.<br \/>\nA sereiazinha sempre fora silenciosa e pensativa; a partir desse dia, ficou muito mais ainda. Suas irm\u00e3s perguntaram-lhe o que ela vira l\u00e1 em cima, mas ela n\u00e3o quis contar nada.<br \/>\nMais de uma vez, \u00e0 noite e pela manh\u00e3, ela voltou ao lugar onde deixara o pr\u00edncipe. Viu as flores morrerem, os frutos do jardim amadurecerem, viu a neve desaparecer das altas montanhas, mas jamais viu o pr\u00edncipe; e voltou cada vez mais triste para o fundo do mar.<br \/>\nL\u00e1, seu \u00fanico consolo era sentar-se em seu pequeno jardim e abra\u00e7ar a linda estatueta de m\u00e1rmore que se parecia tanto com o pr\u00edncipe, enquanto que suas flores negligenciadas e esquecidas, cresciam pelas al\u00e9ias como umas selvagens, entrela\u00e7avam seus longos galhos nos ramos das \u00e1rvores, formando uma pequena floresta que obscurecia tudo.<br \/>\nFinalmente essa exist\u00eancia tornou-se insuport\u00e1vel; e ela contou tudo a uma de suas irm\u00e3s, que o contou \u00e0s outras, as quais repetiram a est\u00f3ria a algumas amigas \u00edntimas. E acontece que uma destas, que tamb\u00e9m vira a festa do navio, conhecia o pr\u00edncipe e sabia onde estava situado o seu reino.<br \/>\n\u201cVenha, irm\u00e3zinha\u201d, disseram as princesas; e, passando os bra\u00e7os por suas costas, carregaram com a sereiazinha pelo mar em fora, e depositaram-na em frente ao castelo do pr\u00edncipe.<br \/>\nO castelo era constru\u00eddo de pedras amarelas e luzidias; grande escadaria de m\u00e1rmore levava at\u00e9 o jardim; galerias imensas estavam ornamentadas com est\u00e1tuas de m\u00e1rmore que pareciam vivas. As salas, magn\u00edficas, eram ornamentadas de quadros e tape\u00e7arias incompar\u00e1veis e as paredes estavam cobertas de quadros maravilhosos.<br \/>\nNo grande sal\u00e3o, o sol iluminava, atrav\u00e9s de uma grande janela de vidro, as plantas mais raras, que estavam num grande vaso e embaixo de v\u00e1rios jactos de \u00e1gua.<br \/>\nDesde ent\u00e3o, a sereiazinha come\u00e7ou a ir a esse lugar, tanto durante o dia, como \u00e0 noite; aproximava-se da costa, ousava mesmo sentar-se sob a grande varanda de m\u00e1rmore que projectava uma sombra em seus olhos; muitas vezes, ao som da m\u00fasica, o pr\u00edncipe passava por ela em seu barco florido, mas ao ver seu v\u00e9u branco em meio aos arbustos verdes, pensava tratar-se de um cisne ao abrir suas asas.<br \/>\nEla ouvia tamb\u00e9m os pescadores falarem muito bem do jovem pr\u00edncipe e ent\u00e3o ela ficava feliz de lhe ter salvo a vida, o que, ali\u00e1s, ele ignorava completamente.<br \/>\nSua afei\u00e7\u00e3o pelos homens crescia dia a dia e cada vez mais ela desejava se elevar at\u00e9 eles. Seu mundo lhe parecia muito mais vasto do que o dela; eles sabiam navegar pelos mares com seus navios, subir pelas altas montanhas at\u00e9 as nuvens; eles possu\u00edam imensas florestas e campos verdejantes.<br \/>\nSuas irm\u00e3s n\u00e3o podiam satisfazer toda a sua curiosidade, ent\u00e3o ela perguntou \u00e0 sua velha avo, que conhecia muito o mundo mais elevado, o que muito justamente era chamado de pa\u00eds \u00e0 beira-mar.<br \/>\n\u2013 Os homens vivem eternamente?, \u2013 perguntou a jovem princesa. \u2013 Eles n\u00e3o morrem assim como n\u00f3s?<br \/>\n\u2013 Sem d\u00favida, \u2013 respondia a velha, eles morrem e sua exist\u00eancia \u00e9 mesmo mais curta do que a nossa. N\u00f3s outros vivemos algumas vezes trezentos anos; depois, ao morrermos, n\u00f3s nos transformamos em espuma, pois no fundo do mar n\u00e3o existem t\u00famulos para receberem os corpos inanimados. Nossa alma n\u00e3o \u00e9 imortal; depois da morte est\u00e1 tudo acabado. N\u00f3s somos com as rosas verdes: uma vez cortadas, n\u00e3o florescem mais! Os homens, pelo contr\u00e1rio, possuem uma alma que vive eternamente, que vive mesmo depois que seus corpos viram cinzas; essa alma voa at\u00e9 o c\u00e9u e vai at\u00e9 as estrelas que brilham e mesmo que n\u00f3s possamos sair da \u00e1gua e ir at\u00e9 o pais dos homens, n\u00e3o podemos ir a certos lugares maravilhosos e imensos, que s\u00e3o inacess\u00edveis ao povo do mar.<br \/>\n\u2013 E por que n\u00e3o possu\u00edmos a mesma alma imortal? \u2013 pergunta a sereiazinha muito aflita \u2013 eu daria de boa vontade as centenas de anos que ainda tenho que viver para ser homem, nem que fosse por um dia e partir depois para o mundo celeste.<br \/>\n\u2013 N\u00e3o pense em semelhantes tolices \u2013 replicou a velha \u2013 n\u00f3s somos muito mais felizes aqui embaixo, do que os homens l\u00e1 em cima.<br \/>\n\u2013 No entanto, chegar\u00e1 o dia em que deverei morrer. N\u00e3o serei mais do que uma espuminha; para mim, n\u00e3o mais o murm\u00fario das vagas, nada de flores nem de sol! N\u00e3o h\u00e1 nenhum meio de conquistar uma alma imortal?<br \/>\n\u2013 Somente um, mas \u00e9 quase imposs\u00edvel. Seria preciso que um homem concebesse por voc\u00ea um amor infinito, que voc\u00ea lhe fosse mais cara do que seu pai ou sua m\u00e3e. Ent\u00e3o, agarrado a voc\u00ea com toda a sua alma e o seu cora\u00e7\u00e3o, ele unisse sua m\u00e3o \u00e0 de voc\u00ea com o testemunho de um padre, jurando fidelidade eterna, sua alma se comunicaria ao seu corpo e voc\u00ea seria admitida na felicidade dos homens. Mas jamais isso poder\u00e1 ser feito! O que \u00e9 considerado mais lindo aqui no mar, que \u00e9 a sua cauda de peixe, eles acham detest\u00e1vel na terra. Pobres homens! Para serem lindos acham que precisam daqueles suportes grosseiros que chamam de pernas!<br \/>\nA sereiazinha suspirou tristemente, olhando para a ua cauda de peixe.<br \/>\nSejamos alegres!, diz a velha, saltemos e nos divirtamos durante os trezentos anos de nossa exist\u00eancia; \u00e9 um lapso de tempo muito agrad\u00e1vel e n\u00f3s conversaremos mais tarde. Esta noite h\u00e1 um baile na corte.<br \/>\nN\u00e3o se pode fazer id\u00e9ia na terra de uma tal magnific\u00eancia. A grande sala de baile era inteira de cristal; milhares de ostras enormes, colocadas de cada lado, nos muros tamb\u00e9m transparentes, iluminavam o mar a grande dist\u00e2ncia. Viam-se muitos peixes nadando, grandes e pequenos, cobertos de escamas luzentes como a p\u00farpura, como ouro e prata.<br \/>\nNo meio da sala corria um grande rio no qual dan\u00e7avam os delfins e as sereias, ao som de sua pr\u00f3pria voz que era maravilhosa. A sereiazinha era a que cantava melhor e ela foi t\u00e3o aplaudida, que, por um instante, sua alegria fez com que esquecesse as maravilhas da terra.<br \/>\nMas dentro em breve ela retornou \u00e0 sua tristeza, pensando no belo pr\u00edncipe e na sua alma imortal. Abandonou os cantos e os risos, saiu silenciosamente do castelo e sentou-se no seu pequeno jardim. De l\u00e1 ela ouvia o som dos coros, que atravessava a \u00e1gua.<br \/>\nEis que passa, aquele que eu amo de todo o meu cora\u00e7\u00e3o, aquele que ocupa todos os meus pensamentos e a quem eu desejaria confiar minha vida! Arriscaria tudo por ele e para ganhar uma alma imortal. Enquanto minhas irm\u00e3s dan\u00e7am no castelo de meu pai, eu vou procurar a feiticeira do mar, que eu tanto temi at\u00e9 agora. Talvez ela possa me dar conselhos e ajudar-me.<br \/>\nE a sereiazinha, saindo de seu jardim, dirigiu-se para as rochas escuras onde vivia a feiticeira. Jamais ela seguira por esse caminho. N\u00e3o havia nem uma flor nem uma \u00e1rvore. No fundo, a areia cinzenta e lisa, formava um redemoinho.<br \/>\nA princesa viu-se obrigada a atravessar esse terr\u00edvel turbilh\u00e3o para chegar aos dom\u00ednios da feiticeira, onde sua casa se elevava no meio da mais estranha floresta.<br \/>\nTodas as \u00e1rvores e as rochas n\u00e3o eram mais do que polidos, metade animal metade planta, parecidos com as serpentes que saem da terra.<br \/>\nOs galhos eram bra\u00e7os ondeantes, terminados por dedos em forma de copos, que se mexiam continuamente.<br \/>\nEsses bra\u00e7os agarravam tudo que aparecia \u00e0 sua frente e n\u00e3o os largavam mais.<br \/>\nA sereiazinha, tomada de pavor, teve vontade de retroceder; todavia, ao pensar no pr\u00edncipe e na sua alma imortal, armou-se de toda a sua coragem. Prendeu seu cabelo em torno da cabe\u00e7a, para que os p\u00f3lipos n\u00e3o a pudessem agarrar, cruzou os bra\u00e7os no peito e nadou assim, entre aquelas horr\u00edveis criaturas.<br \/>\nChegou finalmente a um grande lugar no meio daquela floresta, onde enormes serpentes do mar mostravam seus ventres amarelos. No meio do local estava a casa da feiticeira, constru\u00edda com ossos de n\u00e1ufragos, e onde a feiticeira, sentada numa grande pedra, dava de comer a um grande sapo, assim como os homens d\u00e3o migalhas aos passarinhos. Chamava suas serpentes de meus franguinhos e se divertia fazendo-as rolarem sobre seus ventres amarelos.<br \/>\n\u201cSei o que voc\u00ea deseja\u201d, falou ela ao ver a princezinha; \u201cseus desejos s\u00e3o idiotas; de qualquer forma, eu os satisfarei, mesmo sabendo que eles s\u00f3 lhe trar\u00e3o infelicidade. Voc\u00ea quer desembara\u00e7ar-se dessa cauda de peixe e troc\u00e1-la por duas pe\u00e7as daquelas com que marcham os homens, a fim de que o pr\u00edncipe se apaixone por voc\u00ea, case-se com voc\u00ea e lhe d\u00ea uma alma imortal.\u201d<br \/>\nAo dizer isso, ela deu uma gargalhada espantosa, que fez com que o sapo e as serpentes rolassem no ch\u00e3o.<br \/>\n\u2013 Afinal, voc\u00ea fez bem em vir; amanh\u00e3, ao nascer do sol, vou preparar-lhe um elixir que voc\u00ea levar\u00e1 para terra. Sente-se na costa e beba-o. Logo a sua cauda se dividir\u00e1, transformando naquilo que os homens chamam de duas belas pernas. Mas eu lhe aviso que isso lhe far\u00e1 sofrer como se lhe cortassem com uma espada afiada. Todo mundo admirar\u00e1 a sua beleza, voc\u00ea conservar\u00e1 sua marcha ligeira e graciosa, mas cada um de seus passos doer\u00e1 tanto, como se voc\u00ea caminhasse sobre espinhos, fazendo o sangue correr. Se estiver disposta a sofrer tanto, eu poderei ajud\u00e1-la.<br \/>\n\u2013 Suportarei tudo!, \u2013 disse a sereia com voz tr\u00eamula, pensando no pr\u00edncipe e na alma imortal.<br \/>\n\u2013 Mas n\u00e3o se esque\u00e7a de que, \u2013 continuou a feiticeira \u2013, uma vez transformada em ser humano, voc\u00ea n\u00e3o poder\u00e1 voltar a ser uma sereia! Voc\u00ea nunca mais ver\u00e1 o castelo de seu pai; e se o pr\u00edncipe, esquecendo-se de seu pai e de sua m\u00e3e, n\u00e3o se apegar a voc\u00ea de todo o cora\u00e7\u00e3o e n\u00e3o se unir a voc\u00ea em casamento, voc\u00ea jamais ter\u00e1 uma alma imortal \u2013 No dia em que ele se casar com uma outra mulher, seu cora\u00e7\u00e3o se quebrar\u00e1 e voc\u00ea n\u00e3o ser\u00e1 mais do que uma espuma no alto das vagas.<br \/>\n\u2013 Concordo \u2013 disse a princesa, p\u00e1lida como uma morta.<br \/>\n\u2013 Nesse caso \u2013 prosseguiu a feiticeira \u00e9 preciso que voc\u00ea me pague; e eu n\u00e3o lhe pe\u00e7o pouca coisa. Sua voz \u00e9 a mais linda do os sons do mar, voc\u00ea pensa com ela encantar o pr\u00edncipe, mas \u00e9 justamente a sua voz que eu exijo como pagamento. Desejo o que voc\u00ea tem de mais precioso, em troca do meu elixir; porque, para torn\u00e1-lo bem eficaz, eu tenho que jogar dentro dele o meu pr\u00f3prio sangue.<br \/>\n\u2013 Mas se voc\u00ea tomar a minha voz, \u2013 perguntou a sereiazinha \u2013 que me restar\u00e1?<br \/>\n\u2013 Sua figura encantadora \u2013 respondeu a feiticeira \u2013, seu caminhar leve e gracioso e seus olhos expressivos, isso \u00e9 mais do que suficiente para enfeiti\u00e7ar qualquer homem. Vamos! Coragem! Estire a l\u00edngua para que eu a corte, depois lhe darei o elixir.<br \/>\n\u2013 Seja \u2013 respondeu a princesa e a feiticeira cortou-lhe a l\u00edngua. A pobre menina ficou muda.<br \/>\nA seguir, a feiticeira colocou seu caldeir\u00e3o no fogo para fazer ferver o seu magico elixir.<br \/>\n\u2013 A propriedade \u00e9 uma bela coisa \u2013 disse ela apanhando um pacote de v\u00edboras para limpar o caldeir\u00e3o. Depois, dando um talho com a faca em seu pr\u00f3prio peito, deixou cair seu negro sangue dentro do caldeir\u00e3o.<br \/>\nUm vapor elevou-se, formando figuras estranhas e assustadoras. A cada instante a velha juntava mais ingredientes e quando tudo come\u00e7ou a ferver, ela acrescentou um p\u00f3 feito de dentes de crocodilo. Uma vez pronto, o elixir tornou-se totalmente transparente.<br \/>\n\u201cAqui est\u00e1\u201d, disse a feiticeira, depois de ter derramado o elixir num frasco. \u201cSe os p\u00f3lipos quiseram agarr\u00e1-la ao sair, basta jogar-lhes uma gota desta bebida e eles se far\u00e3o em mil peda\u00e7os.\u201d<br \/>\nEste conselho foi in\u00fatil; pois os p\u00f3lipos, apercebendo-se do elixir nas m\u00e3os da sereia, recuaram assustados. E assim, ela p\u00f4de atravessar sem sustos a floresta e os redemoinhos.<br \/>\nQuando chegou ao castelo de seu pai, as luzes da grande sala de dan\u00e7as estavam apagadas; todo mundo dormia, mas ela n\u00e3o ousou entrar.<br \/>\nN\u00e3o podia falar com eles e logo iria deix\u00e1-los para sempre \u2013 Parecia que seu cora\u00e7\u00e3o se partia de dor. A seguir foi at\u00e9 seu jardim, colheu uma flor de cada um dos de suas irm\u00e3s, enviou uma por\u00e7\u00e3o de beijos ao castelo e subiu \u00e0 superf\u00edcie do mar, afastando-se para sempre.<br \/>\nO sol ainda n\u00e3o estava alto, quando ela chegou ao castelo do pr\u00edncipe. Sentou-se na praia e bebeu o elixir; foi como se uma espada afiada penetrasse em seu corpo; ela desmaiou e ficou estendida na areia como morta.<br \/>\nO sol j\u00e1 estava alto quando ela acordou sentindo uma dor cruciante. Mas \u00e0 sua frente estava o pr\u00edncipe encostado a um rochedo, lan\u00e7ando sobre ela um olhar cheio de admira\u00e7\u00e3o. A sereiazinha baixou os olhos e ent\u00e3o viu que a sua cauda de peixe desaparecera, dando lugar a duas pernas brancas e graciosas.<br \/>\nO pr\u00edncipe perguntou-lhe quem era ela e de onde vinha; ela fitou-o com um olhar doce e aflito, sem poder dizer uma s\u00f3 palavra. Depois o jovem a tomou pela m\u00e3o e levou-a para o castelo. Assim como dissera a feiticeira, a cada passo que ela dava, sentia dores atrozes; entretanto, subiu a escadaria de m\u00e1rmore pelo bra\u00e7o do pr\u00edncipe, leve como uma bola de sab\u00e3o e todos admiraram o seu andar gracioso. Vestiram-na de seda, sem deixarem de admirar a sua beleza; mas ela continuava muda. Escravas vestidas de ouro e prata cantavam para o pr\u00edncipe; ele aplaudia e sorria para a jovem.<br \/>\nSe ele soubesse, pensava ela, que por ele eu sacrifiquei uma voz mais linda ainda!<br \/>\nDepois de cantarem, as escravas dan\u00e7aram. Mas assim que a pequena sereia come\u00e7ou a dan\u00e7ar nas pontas dos p\u00e9s, quase sem tocar o solo, todos ficaram extasiados. Nunca haviam visto uma dan\u00e7a mais linda e harmoniosa. O pr\u00edncipe pediu-lhe que n\u00e3o o deixasse mais e permitiu-lhe que dormisse \u00e0 sua porta, numa almofada de veludo. Todos ignoravam o seu sofrimento ao dan\u00e7ar.<br \/>\nNo dia seguinte o pr\u00edncipe lhe deu um traje de amazona para que ela o seguisse a cavalo. Depois de terem sa\u00eddo da cidade aclamados pelos s\u00faditos do pr\u00edncipe, eles atravessaram prados cheios de flores, florestas perfumadas e alcan\u00e7aram altas montanhas; e a princesa, rindo-se, sentia seus p\u00e9s arde-rem.<br \/>\nA noite, enquanto os outros dormiam, ela descia secretamente a escadaria de m\u00e1rmore e ia at\u00e9 a praia, a fim de refrescar os p\u00e9s doridos na \u00e1gua fria do mar e a lembran\u00e7a de sua p\u00e1tria vinha ao seu esp\u00edrito.<br \/>\nUma noite, ela viu suas irm\u00e3s de m\u00e3os dadas; cantavam t\u00e3o tristemente ao nadarem, que a sereiazinha n\u00e3o p\u00f4de deixar de fazer-lhes um sinal. Tendo-a reconhecido, elas lhe contaram como ela havia deixado todos tristes. Todas as noites elas voltavam e uma vez chegaram a levar a av\u00f3, que h\u00e1 muitos anos n\u00e3o punha a cabe\u00e7a na superf\u00edcie e o rei do mar com a sua coroa de coral. Os dois estenderam as m\u00e3os para a filha; mas n\u00e3o ousaram, assim como as irm\u00e3, aproximar-se da praia.<br \/>\nCada dia que se passava o pr\u00edncipe mais a amava, como se ama uma crian\u00e7a bondosa e gentil, sem ter a id\u00e9ia de transform\u00e1-la em sua esposa. No entanto, para que ela tivesse uma alma imortal, era preciso que ele se casasse com ela.<br \/>\n\u2013 N\u00e3o me ama mais do que a todas as outras? \u2013 eis o que pareciam dizer os olhos tristes da pequena muda, quando o tomava nos bra\u00e7os e depositava um beijo na sua fronte.<br \/>\n\u2013 \u00c9 claro que sim \u2013 respondia o pr\u00edncipe \u2013 pois voc\u00ea possui o melhor cora\u00e7\u00e3o de todas; voc\u00ea \u00e9 mais devotada e se parece com a jovem que eu encontrei um dia, mas que talvez n\u00e3o veja nunca mais. Quando eu estava num navio, sofri um naufr\u00e1gio e fui depositado em terra pelas ondas, perto de um convento habitado por muitas jovens. A mais mo\u00e7a delas encontrou-me na praia e me salvou a vida, mas eu a vi somente duas vezes. Jamais neste mundo, eu poderia amar outra que n\u00e3o a ela; pois bem! Voc\u00ea se parece com ela, muitas vezes chega mesmo a substituir a imagem dela em meu cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAi de mim!, pensou a sereiazinha, ele ignora ter sido eu a salv\u00e1-lo, e a coloc\u00e1-lo perto do convento. Ama uma outra! No entanto, essa jovem est\u00e1 encerrada num convento e jamais sai; talvez ele a esque\u00e7a por mim, por mim que o amarei sem-pre e lhe devotarei toda a minha vida.<br \/>\n\u201c0 pr\u00edncipe vai-se casar com a linda filha do rei vizinho\u201d, disseram um dia; \u201cest\u00e1 equipando um soberbo navio sob o pretexto de visitar o rei, mas a verdade \u00e9 que ele vai-se casar com a filha\u201d.<br \/>\nIsso fez a princesa sorrir, pois ela sabia melhor do que ningu\u00e9m quais os pensamentos do pr\u00edncipe. Ele lhe dissera: \u201cj\u00e1 que meus pais exigem, irei conhecer a princesa, mas jamais eles far\u00e3o com que eu a tome em minha esposa. N\u00e3o posso am\u00e1-la; ela n\u00e3o se parece, como voc\u00ea, com a jovem do convento e eu preferiria casar com voc\u00ea, pobre menina abandonada, de olhos t\u00e3o expressivos, malgrado o seu eterno sil\u00eancio\u201d.<br \/>\nE, depois de falar dessa maneira, ele depositou um beijo em seus longos cabelos.<br \/>\nO pr\u00edncipe partiu.<br \/>\n\u201cEspero que voc\u00ea n\u00e3o tenha medo do mar\u201d, disse-lhe ele no navio que os levava.<br \/>\nA seguir falou-lhe nas tempestades e no mar furioso, nos estranhos peixes e em tudo que se encontrava no fundo do mar. Essas conversas faziam-na sorrir, pois ela conhecia o fundo do mar melhor do que qualquer outra pessoa.<br \/>\nSob o luar, quando os outros dormiam, ela, ent\u00e3o, se sentava na amurada do navio e alongava seu olhar atrav\u00e9s da transpar\u00eancia da \u00e1gua, acreditando perceber o castelo de seu pai e os olhos de sua av\u00f3 fixados na quilha do navio. Uma noite suas irm\u00e3s apareceram; olharam-na tristemente agitando as m\u00e3os.<br \/>\nA jovem chamou-as por sinais e esfor\u00e7ou-se por dar-lhes a entender que tudo ia bem; mas no mesmo instante um grumete se aproximou e elas desapareceram, fazendo crer ao pequeno marujo que ele vira uma espuma no mar.<br \/>\nNo dia seguinte o navio entrou no porto da cidade em que morava o rei vizinho. Todos os sinos repicaram, a m\u00fasica enchia a cidade e os soldados, no alto das torres, balan\u00e7avam as suas bandeiras. Todos os dias havia festas, bailes e noitadas; mas a princesa ainda n\u00e3o chegara do convento, onde recebera uma brilhante educa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA sereiazinha estava muito curiosa para ver a sua beleza e, finalmente, teve essa satisfa\u00e7\u00e3o. Teve de reconhecer jamais ter visto uma t\u00e3o linda figura, uma pele t\u00e3o branca e olhos negros t\u00e3o sedutores.<br \/>\n\u00c9 voc\u00ea!, gritou o pr\u00edncipe ao v\u00ea-la, foi voc\u00ea que me salvou quando eu estava na praia. E apertou entre os bra\u00e7os a sua noiva toda corada. \u00c9 muita felicidade!, continuou ele, voltando-se para a sereiazinha. Meus desejos mais ardentes se realizaram! Voc\u00ea compartilhar\u00e1 de minha felicidade, pois ama-me mais do que qualquer pessoa.<br \/>\nA jovem do mar beijou a m\u00e3o do pr\u00edncipe, embora tivesse o cora\u00e7\u00e3o ferido.<br \/>\nNo dia do casamento daquele que ela amava, a sereiazinha devia morrer e transformar-se em espuma.<br \/>\nA alegria reinava por todos os lados; os arautos anunciavam o noivado em todas as ruas e ao som de suas cornetas. Na grande igreja, um \u00f3leo perfumado brilhava nas l\u00e2mpadas de prata e os padres agitavam os incens\u00e1rios; os dois noivos deram-se as m\u00e3os e receberam a b\u00ean\u00e7\u00e3o do bispo. Vestida de seda e ouro, a sereiazinha assistiu \u00e0 cerim\u00f4nia; mas ela s\u00f3 pensava na sua morte pr\u00f3xima e em tudo o que perdera neste mundo.<br \/>\nNa mesma noite, os rec\u00e9m-casados embarcaram ao som das salvas da artilharia. Todos os pavilh\u00f5es estavam i\u00e7ados no meio do navio que estava pintado de ouro e p\u00farpura e onde fora preparado um magn\u00edfico leito. As velas se inflaram e o navio afastou-se ligeiramente sobre o mar claro.<br \/>\nAo aproximar-se a noite, acenderam lanternas de v\u00e1rias cores e os marujos come\u00e7aram a dan\u00e7ar alegremente no conv\u00e9s. A sereiazinha lembrou-se da noite em que ela os vira dan\u00e7ar pela primeira vez. E come\u00e7ou a dan\u00e7ar tamb\u00e9m, leve como uma borboleta e foi admirada como um ser sobre-humano.<br \/>\nMas \u00e9 imposs\u00edvel descrever o que se passava em seu cora\u00e7\u00e3o; no meio da dan\u00e7a, ela pensava naquele por quem deixara sua fam\u00edlia e sua p\u00e1tria, sacrificando sua bela voz e sofrendo in\u00fameros tormentos \u2013 Essa era a \u00faltima noite em que ela respirava o mesmo ar que ele, em que poderia olhar para o mar profundo e para o c\u00e9u cheio de estrelas. Uma noite eterna, uma noite sem sonhos a aguardava, j\u00e1 que ela n\u00e3o possu\u00eda uma alma imortal. justamente at\u00e9 a meia-noite a alegria reinou em torno dela; ela pr\u00f3pria ria e dan\u00e7ava, com a morte no cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nFinalmente, o pr\u00edncipe e a princesa retiraram-se para a sua tenda armada no conv\u00e9s: ficou tudo silencioso e o piloto quedou-se sozinho em frente ao leme. A sereiazinha, apoiando seus bra\u00e7os brancos na amurada do navio, olhava para o oriente, do lado do nascer do sol; sabia que o primeiro raio de sol a mataria.<br \/>\nDe repente, suas irm\u00e3s sa\u00edram do mar, t\u00e3o p\u00e1lidas quanto ela mesma; elas nadaram em volta do barco e chamaram por sua irm\u00e3 que ficara muito triste: os longos cabelos de suas irm\u00e3s n\u00e3o flutuava mais ao vento, elas o haviam cortado.<br \/>\n\u2013 N\u00f3s os entregamos \u00e0 feiticeira, \u2013 disseram elas, para que ela venha em seu aux\u00edlio e a salve da morte. Em troca ela nos deu um punhal bem afiado, que aqui est\u00e1. Antes do nascer do sol, \u00e9 preciso que voc\u00ea o enterre no cora\u00e7\u00e3o do pr\u00edncipe e, assim que o sangue ainda quente cair aos seus p\u00e9s, eles se unir\u00e3o e se transformar\u00e3o numa cauda de peixe. Voc\u00ea voltar\u00e1 a ser uma sereia; poder\u00e1 descer para a \u00e1gua junto de n\u00f3s e somente daqui a trezentos anos \u00e9 que se transformar\u00e1 em espuma. Venha, voc\u00ea ficar\u00e1 alegre novamente. Tornar\u00e1 a ver nossos jardins, nossas grutas, o pal\u00e1cio, a sua voz maviosa ser\u00e1 ouvida outra vez; junto a n\u00f3s voc\u00ea percorrer\u00e1 os mares i-mensos. Mas n\u00e3o demore! Pois antes do nascer do sol \u00e9 preciso que um de voc\u00eas morra. Mate-o e venha, n\u00f3s lhe suplicamos! Est\u00e1 vendo aquela luz vermelha no horizonte? Dentro de alguns minutos o sol nascer\u00e1 e tudo estar\u00e1 terminado para voc\u00ea! Venha! Venha!.<br \/>\nA seguir, com um longo suspiro, elas mergulharam novamente, a fim de irem encontrar-se com a velha av\u00f3 que esperava ansiosa pela sua volta.<br \/>\nA sereiazinha levantou a cortina da tenda e viu a jovem esposa adormecida, com a cabe\u00e7a apoiada no peito do pr\u00edncipe. Aproximou-se dos dois e depositou um beijo na fronte daquele que tanto amara. A seguir, voltou seu olhar para a aurora que se aproximava, para o punhal que levava nas m\u00e3os e para o pr\u00edncipe que pronunciava em sonhos o nome de sua esposa, levantou a m\u00e3o que empunhava o punhal e &#8230; lan\u00e7ou-o no meio das vagas. No lugar onde ele ca\u00edra, pareceu-lhe ver v\u00e1rias gotas de sangue rubro. A sereiazinha lan\u00e7ou mais um olhar para o pr\u00edncipe e precipitou-se no mar, onde sentiu seu corpo dissolver-se em espuma.<br \/>\n.Nesse instante o sol saiu das vagas; seus raios ben\u00e9ficos ca\u00edram sobre a espuma fria e a sereiazinha n\u00e3o sentiu mais a morte; ela viu o sol brilhante, as nuvens de p\u00farpura e em sua volta flutuarem milhares de criaturas celestes e transparentes. Suas vozes formavam uma melodia encantadora, mas t\u00e3o sutil, que nenhum ouvido humano poderia ouvir, assim como nenhum olhar humano poderia ver as criaturas. A jovem do mar apercebeu-se de que possu\u00eda um corpo igual ao delas e que, pouco a pouco, ela se elevava sobre a espuma.<br \/>\n\u201cOnde estou?\u201d, perguntou ela com uma voz da qual m\u00fasica alguma pode dar uma id\u00e9ia.<br \/>\n\u201cJunto com as filhas do ar, responderam as outras. A sereia n\u00e3o possui uma alma imortal e s\u00f3 pode conseguir uma, atrav\u00e9s do amor de um homem; sua vida eterna depende de um poder estranho. Assim como as sereias, as filhas do ar n\u00e3o possuem uma alma imortal, mas podem ganhar uma, por meio de boas a\u00e7\u00f5es.<br \/>\n\u201cN\u00f3s voamos para os pa\u00edses quentes, onde o ar pestilento mata os homens, para levar-lhes o frescor; espalhamos pelos ares o perfume das flores por toda a parte por onde passamos, levamos o socorro e damos sa\u00fade. Depois que praticamos o bem durante trezentos anos, adquirimos uma alma imortal a fim de participar da felicidade eterna dos homens.<br \/>\n\u201cPobre sereiazinha, voc\u00ea esfor\u00e7ou-se da mesma forma que n\u00f3s; como n\u00f3s voc\u00ea sofreu e, saindo vitoriosa de suas prova\u00e7\u00f5es, elevou-se at\u00e9 o mundo dos esp\u00edritos do ar e agora depende de voc\u00ea ganhar ou n\u00e3o uma alma imortal, por meio de suas boas a\u00e7\u00f5es..<br \/>\nE a sereiazinha, levantando os bra\u00e7os para o c\u00e9u, derramou l\u00e1grimas pela primeira vez. Os gritos de alegria foram ouvidos novamente sobre o navio; mas ela viu o pr\u00edncipe e sua bela esposa olharem fixamente e melancolicamente para as espumas brilhantes, como se soubessem que ela se precipitara nas ondas.<br \/>\nInvis\u00edvel ela abra\u00e7ou a esposa do pr\u00edncipe, lan\u00e7ou um sorriso aos rec\u00e9m-casados, depois subiu com as outras filhas do ar para uma nuvem cor-de-rosa, que se elevou no c\u00e9u.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bem no fundo do mar a \u00e1gua \u00e9 azul como as folhas das cent\u00e1ureas, pura como o cristal mais transparente, mas t\u00e3o transparente, mas t\u00e3o profunda que seria in\u00fatil jogar ali a \u00e2ncora e, para medi-la, seria preciso colocar uma quantidade enorme de torres de igreja umas sobre as outras a fim de verificar a dist\u00e2ncia que vai do fundo \u00e0 superf\u00edcie. L\u00e1 \u00e9 a morada do povo do mar. Mas n\u00e3o pensem que esse fundo se comp\u00f5e somente de areia branca; n\u00e3o, ali crescem plantas e \u00e1rvores estranhas e t\u00e3o leves, que o menor movimento da \u00e1gua faz com que elas se agitem, como se estivessem vivas. Todos os peixes, grandes e pequenos, v\u00e3o e v\u00eam entre seus galhos, assim como os p\u00e1ssaros o fazem no ar. No lugar mais profundo est\u00e1 o castelo do rei do mar, cujos muros s\u00e3o de coral, as janelas de \u00e2mbar amarelo e o teto \u00e9 feito de conchas que se abrem e fecham para receber a \u00e1gua e para despej\u00e1-la. Cada uma dessas conchas encerra p\u00e9rolas brilhantes e a menor delas honraria a mais bela coroa de qualquer rainha. H\u00e1 muitos anos que o rei do mar estava vi\u00favo e sua velha m\u00e3e dirigia a casa. 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