{"id":138,"date":"2012-03-08T08:47:00","date_gmt":"2012-03-08T11:47:00","guid":{"rendered":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/a-polegarzinha-andersen\/"},"modified":"2025-07-28T17:39:29","modified_gmt":"2025-07-28T20:39:29","slug":"a-polegarzinha-andersen","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/luanabeatriz.art\/blog\/a-polegarzinha-andersen\/","title":{"rendered":"A Polegarzinha (Andersen)"},"content":{"rendered":"<div style=\"clear: both; text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/blogger.googleusercontent.com\/img\/b\/R29vZ2xl\/AVvXsEgXRvrOdSuv9Vx6XT-tBNGQBdjka0u-R1TJDb-vy2X9Ednwspv8_xTL52YWNswBWm7xdvIGUYgft0Vso-Fv3Vge9x_Ea8Fi7Q6vWz_r4h-vBlqMROn8Hh_CtypkfjHOKUBW8dWb0r4nUNI\/s1600\/polegarzinha.jpg\" style=\"clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" src=\"https:\/\/blogger.googleusercontent.com\/img\/b\/R29vZ2xl\/AVvXsEgXRvrOdSuv9Vx6XT-tBNGQBdjka0u-R1TJDb-vy2X9Ednwspv8_xTL52YWNswBWm7xdvIGUYgft0Vso-Fv3Vge9x_Ea8Fi7Q6vWz_r4h-vBlqMROn8Hh_CtypkfjHOKUBW8dWb0r4nUNI\/s1600\/polegarzinha.jpg\" \/><\/a><\/div>\n<p>Era uma vez uma mulher que queria ter um filho muito pequenino, mas n\u00e3o sabia como havia de fazer para encontrar um. Ent\u00e3o, foi ter com uma velha bruxa e disse-lhe: <br \/>\n\u2014 Gostava tanto de ter um filho pequenino! N\u00e3o sabes dizer-me onde posso arranjar um?<br \/>\n\u2014 Oh, isso n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil \u2014 disse a bruxa. \u2014 Aqui tens um gr\u00e3o de cevada, e olha que n\u00e3o \u00e9 da que cresce nos campos dos lavradores nem daquela que as galinhas comem. Planta este gr\u00e3o num vaso e ver\u00e1s o que acontece!<br \/>\n\u2014 Oh, obrigada! \u2014 disse a mulher, dando uma moeda de prata \u00e0 bruxa.<br \/>\nDepois foi para casa e semeou o gr\u00e3o. N\u00e3o foi preciso esperar muito tempo para que nascesse uma bela flor; parecia uma t\u00falipa, mas as p\u00e9talas estavam muito fechadas como se fosse ainda um bot\u00e3o.<br \/>\n\u2014 Que linda flor! \u2014 disse a mulher, dando um beijo nas p\u00e9talas vermelhas e amarelas.<br \/>\nNesse preciso momento, a flor abriu-se com um forte estalido. Era realmente uma t\u00falipa \u2014 agora via-se bem \u2014, mas mesmo no centro da flor, no centro verde, estava sentada uma menina min\u00fascula, graciosa e delicada como uma fada. <br \/>\n<a name='more'><\/a>N\u00e3o era maior que metade de um polegar, e por isso ficou a chamar-se Polegarzinha.A cama em que dormia era uma casca de noz muito bem polida; tinha um colch\u00e3o de p\u00e9talas de violeta azuis-escuras e o seu cobertor era uma p\u00e9tala de rosa. Dormia ali \u00e0 noite, mas durante o dia brincava em cima da mesa, onde a mulher tinha posto um prato de sopa cheio de \u00e1gua com um c\u00edrculo de flores \u00e0 volta, com os caules virados para o meio. Dentro do prato, a flutuar, estava uma grande p\u00e9tala de t\u00falipa em que a Polegarzinha se podia sentar e remar de um lado para o outro usando dois p\u00ealos brancos de cavalo como remos. Era lindo de se ver! Ela tamb\u00e9m sabia cantar, e tinha a vozinha mais fr\u00e1gil e mais doce que jamais se ouviu.Uma noite, quando estava deitada na sua linda cama, um sapo entrou no quarto atrav\u00e9s de um vidro partido da janela. O sapo parecia muito grande e estava molhado quando saltou para cima da mesa onde a Polegarzinha dormia profundamente debaixo da sua p\u00e9tala de rosa.<br \/>\n\u2014 Ora aqui est\u00e1 uma bela esposa para o meu filho! \u2014 disse o sapo.E pegou na cama de casca de noz em que a Polegarzinha estava a dormir e saltou com ela atrav\u00e9s da janela para o jardim. No fim do jardim corria um largo regato, de margens pantanosas e lamacentas; era a\u00ed que o sapo vivia com o seu filho.Este n\u00e3o era nada bonito; na realidade, era igualzinho ao pai.<br \/>\n\u2014 Croc! Croc! Brec-rec-rec! \u2014 foi tudo quanto disse quando viu a linda menina na casca de noz.<br \/>\n\u2014 N\u00e3o fales t\u00e3o alto, se n\u00e3o ela acorda \u2014 disse-lhe o pai. \u2014 Olha que pode fugir, porque \u00e9 leve como uma pena de cisne. J\u00e1 sei, vamos p\u00f4-la no meio do rio, em cima de uma daquelas grandes folhas de nen\u00fafar! Assim, ela vai pensar que est\u00e1 numa ilha, porque \u00e9 uma criaturinha min\u00fascula. Entretanto, n\u00f3s podemos come\u00e7ar a preparar o melhor quarto debaixo da lama, para voc\u00eas os dois l\u00e1 viverem.No regato, havia muitos nen\u00fafares com grandes folhas verdes que pareciam flutuar soltas na \u00e1gua. A folha que estava mais longe era tamb\u00e9m a maior de todas, e foi nela que o velho sapo poisou a casca de noz com a Polegarzinha. A pobre menina acordou muito cedo e, quando viu onde estava, come\u00e7ou a chorar amargamente, porque havia \u00e1gua a toda a volta da grande folha e era imposs\u00edvel voltar para terra.Entretanto, o velho sapo andava metido na lama, decorando atarefadamente o quarto com juncos e flores aqu\u00e1ticas amarelas, para ficar bonito e alegre para a sua futura nora. Depois, acompanhado pelo filho, nadou at\u00e9 \u00e0 folha onde estava a Polegarzinha. Iam buscar a linda cama de casca de noz para a colocarem no quarto antes de a noivazinha ir para l\u00e1. O velho sapo, ainda dentro de \u00e1gua, fez uma profunda v\u00e9nia e disse \u00e0 Polegarzinha:<br \/>\n\u2014 Este \u00e9 o meu filho. Vai ser o teu marido, e voc\u00eas os dois v\u00e3o viver muito felizes numa bela casa debaixo da lama.<br \/>\n\u2014 Croc! Croc! Brec-rec-rec! \u2014 foi tudo o que o filho disse.Ent\u00e3o, pegaram na bonita caminha e l\u00e1 foram a nadar com ela, enquanto a Polegarzinha ficava sozinha na folha verde, a chorar, porque n\u00e3o lhe apetecia nada viver com o velho sapo nem casar com o filho dele. Ora os peixinhos que nadavam ali por baixo tinham visto o sapo e ouvido o que ele dissera, de maneira que deitaram as cabe\u00e7as de fora para verem a menina. Mas, assim que o fizeram, viram como era bonita e ficaram cheios de pena por ela ter de ir viver na lama com o sapo. N\u00e3o, isso n\u00e3o podia acontecer! Juntaram-se em redor do p\u00e9 verde da folha em que ela estava e puseram-se a ro\u00ea-lo sem parar.L\u00e1 foi a folha, flutuando pelo regato, levando a Polegarzinha para longe, cada vez para mais longe, para onde o sapo n\u00e3o podia ir.Quando ela passava, os passarinhos nas \u00e1rvores cantavam &#8220;Que linda criaturinha!&#8221; assim que a viam. E a folha l\u00e1 ia a deslizar, cada vez para mais longe &#8211; e foi assim que a Polegarzinha chegou a outro pa\u00eds.Uma linda borboleta branca esvoa\u00e7ava por cima dela e acabou por poisar na folha, porque tinha come\u00e7ado a gostar da menina. Como ela estava feliz agora! O sapo j\u00e1 n\u00e3o podia apanh\u00e1-la e era tudo maravilhoso \u00e0 sua volta, para onde quer que olhasse. A \u00e1gua, onde o sol brilhava, parecia ouro a cintilar. A Polegarzinha tirou o seu cinto e deu uma ponta \u00e0 borboleta amiga e atou a outra \u00e0 folha. Agora \u00e9 que ia mesmo depressa!Nesse momento, um grande escaravelho apareceu a voar por cima dela. Assim que viu a menininha, agarrou-a num \u00e1pice pela cintura e voou com ela para o cimo de uma \u00e1rvore. A folha verde continuou a flutuar rio abaixo com a borboleta.Meu Deus!, como a Polegarzinha ficou assustada quando o escaravelho a levou para cima da \u00e1rvore! E como teve pena da sua amiga, a borboleta branca! Mas o escaravelho n\u00e3o queria saber disso. Poisou na maior folha verde da \u00e1rvore e largou-a a\u00ed. Deu-lhe p\u00f3len para comer e disse-lhe que ela era muito bonita, embora n\u00e3o tanto como um escaravelho.Em breve, todos os outros escaravelhos que viviam na \u00e1rvore foram visit\u00e1-la. Olhavam para ela, e as jovens escaravelhas encolhiam as antenas, dizendo: &#8220;Mas s\u00f3 tem duas pernas, este insecto miser\u00e1vel! N\u00e3o tem antenas! Tem uma cintura t\u00e3o fina! Parece mesmo humana! Que feia que \u00e9!&#8221;, e por a\u00ed fora, apesar de a Polegarzinha ser realmente uma criatura linda.O escaravelho que a tinha levado tamb\u00e9m era desta opini\u00e3o, mas quando todas as escaravelhas disseram que ela era horr\u00edvel, ele come\u00e7ou a pensar o mesmo e acabou por n\u00e3o querer saber dela; podia ir para onde quisesse. V\u00e1rias escaravelhas pegaram nela e voaram at\u00e9 ao solo, deixando-a em cima de uma margarida. L\u00e1 ficou ela a chorar, por ser t\u00e3o feia que os escaravelhos n\u00e3o a queriam \u2014 e, no entanto, era a criaturinha mais bonita que se podia imaginar, mais bela que a mais perfeita p\u00e9tala de rosa.Durante todo o Ver\u00e3o, a pobre Polegarzinha viveu completamente sozinha na grande floresta. Teceu uma cama com ervas e pendurou-a como se fosse uma rede por baixo de uma grande folha de azeda, para ficar abrigada da chuva. Para comer apanhava mel e p\u00f3len das flores e bebia as gotas de orvalho que encontrava todas as manh\u00e3s nas folhas. E assim passou o Ver\u00e3o e o Outono, mas depois chegou o Inverno, o longo e frio Inverno. Os passarinhos, que t\u00e3o docemente tinham cantado, voavam agora para longe, as \u00e1rvores perdiam as folhas, as flores murchavam. Depois, a grande folha de azeda que lhe fazia de telhado come\u00e7ou a enrolar-se e murchou, at\u00e9 que ficou apenas uma haste seca e amarela. A Polegarzinha tinha imenso frio, porque o seu vestido estava todo roto e ela era muito fr\u00e1gil e pequenina. Em breve morreria de frio. A neve come\u00e7ou a cair, e cada floco que ca\u00eda sobre ela era t\u00e3o pesado como uma pazada atirada a um de n\u00f3s. Afinal, ela s\u00f3 tinha dois cent\u00edmetros e meio de altura. Embrulhou-se numa folha murcha, mas n\u00e3o conseguiu aquecer-se, e tremia cada vez mais.Por essa altura, j\u00e1 tinha alcan\u00e7ado a orla da floresta. Mesmo ao lado havia um grande campo de trigo, mas este tinha sido ceifado h\u00e1 muito tempo e s\u00f3 se via o restolho seco na terra gelada. Para ela, aquilo era o mesmo que uma floresta para atravessar e oh!, como ela tremia de frio! Finalmente, chegou \u00e0 porta de um rato do campo, que vivia numa casinha por baixo do restolho. Era aconchegada e confort\u00e1vel, com um armaz\u00e9m cheio de trigo, uma cozinha quente e uma sala de jantar. A pobre Polegarzinha parou \u00e0 porta da casa do rato como se fosse uma mendiga e pediu se ele lhe dava um bocadinho de um gr\u00e3o, porque j\u00e1 h\u00e1 dois dias que n\u00e3o comia nada.<br \/>\n\u2014 Pobrezinha! \u2014 disse o rato do campo, que tinha muito bom cora\u00e7\u00e3o. \u2014 Vem para a cozinha, que est\u00e1 quente, e comes comigo.Gostou tanto da companhia da Polegarzinha que acabou por lhe dizer: <br \/>\n\u2014 Podes ficar comigo durante o Inverno, mas tens de limpar e arrumar a casa e contar-me hist\u00f3rias. Gosto muito de hist\u00f3rias.A Polegarzinha fez o que o velho rato do campo lhe disse; e o tempo foi passando agradavelmente.<br \/>\n\u2014 Em breve teremos uma visita \u2014 disse o rato do campo. \u2014 O meu vizinho vem visitar-me todas as semanas. A casa dele ainda \u00e9 melhor do que a minha, com grandes e belos quartos, e ele usa um lindo casaco de veludo preto! Se conseguisses que ele casasse contigo, nunca mais te faltaria nada. Mas ele \u00e9 quase cego, de maneira que tens de te preparar para lhe contar as melhores hist\u00f3rias que souberes.A Polegarzinha n\u00e3o gostou muito da ideia. N\u00e3o lhe apetecia nada casar com o vizinho rico; era um toupeiro, e veio fazer a sua visita com o casaco de veludo preto. O rato do campo lembrou \u00e0 Polegarzinha como ele era rico e culto; disse-lhe que a casa dele era vinte vezes maior do que a sua.Que ele sabia muitas, muitas coisas, embora n\u00e3o gostasse do sol e das lindas flores, porque nunca os tinha visto. A Polegarzinha teve de cantar para ele, e cantou Tive uma nogueirazinha e Joaninha voa, voa. O toupeiro apaixonou-se pela sua linda voz, mas n\u00e3o disse nada, porque era muito cauteloso.Ele tinha escavado recentemente uma passagem muito longa, que ia da sua casa \u00e0 do vizinho, e disse ao rato do campo e \u00e0 Polegarzinha que podiam ir visit\u00e1-lo quando quisessem. Mas pediu-lhes que n\u00e3o tivessem medo da ave morta que estava na passagem. Contou-lhes que a ave n\u00e3o tinha qualquer marca nem ferida, n\u00e3o lhe faltavam penas, e o bico estava intacto; devia ter morrido h\u00e1 muito pouco tempo, com a chegada do Inverno, e, de alguma maneira, tinha ca\u00eddo na sua passagem subterr\u00e2nea.Ent\u00e3o, o toupeiro agarrou num peda\u00e7o de madeira podre com a boca (porque a madeira podre brilha como fogo no escuro) e foi \u00e0 frente para iluminar a longa passagem para os seus convidados. Depressa chegaram ao s\u00edtio onde estava a ave, e o toupeiro empurrou o tecto com o focinho largo, levantando a terra para fazer um buraco que deixou entrar a luz do dia. E l\u00e1 estava uma andorinha, com as lindas asas encostadas ao corpo, as pernitas e a cabe\u00e7a escondidas nas penas; a pobre ave de certeza que tinha morrido de frio. A Polegarzinha teve muita pena dela, porque amava todas as avezinhas, que tinham cantado e chilreado para ela de uma maneira t\u00e3o encantadora durante todo o Ver\u00e3o. Mas o toupeiro empurrou a andorinha para o lado com as suas pernitas curtas e disse:<br \/>\n\u2014 Esta j\u00e1 n\u00e3o assobia mais! Que pouca sorte nascer ave! Felizmente que nenhum dos meus filhos ser\u00e1 como elas. Uma ave n\u00e3o sabe fazer nada a n\u00e3o ser dizer tuit-tuit e depois morrer de fome no Inverno!<br \/>\n\u2014 Sim, l\u00e1 nisso tens raz\u00e3o \u2014 disse o rato do campo. \u2014 Com todo o seu tuit-tuit, que \u00e9 que elas fazem quando chega o Inverno? Morrem de fome e de frio. E, no entanto, toda a gente as acha muito importantes.<br \/>\nA Polegarzinha n\u00e3o disse uma palavra, mas, quando os outros recome\u00e7aram a andar, baixou-se, afastou meigamente as penas da cabe\u00e7a da andorinha e beijou-lhe os olhos fechados.<br \/>\n\u2014 Talvez esta seja a que cantou t\u00e3o suavemente para mim durante o Ver\u00e3o \u2014 pensou. \u2014 Que felicidade me deu esta pobre avezinha da floresta!Ent\u00e3o, o toupeiro tapou o buraco que tinha feito para deixar entrar a luz do dia e acompanhou as visitas a casa. Mas nessa noite a Polegarzinha n\u00e3o conseguia dormir, de maneira que levantou-se e teceu uma cobertazinha de feno. Quando acabou, foi p\u00f4-la em cima da ave. Ao lado, deixou um pouco de lanugem de cardo que tinha encontrado na sala de estar do rato do campo, para que a ave pudesse repousar quentinha sobre a terra fria.<br \/>\n\u2014 Adeus, linda andorinha! \u2014 disse ela. \u2014 Adeus e obrigada pelas tuas belas can\u00e7\u00f5es no Ver\u00e3o, quando as \u00e1rvores estavam verdes e o Sol brilhava t\u00e3o alegremente sobre n\u00f3s todos!Depois encostou a cabe\u00e7a ao cora\u00e7\u00e3o da andorinha \u2014 mas ficou logo muito espantada, porque parecia que alguma coisa batia l\u00e1 dentro. Era o cora\u00e7\u00e3o da andorinha a bater. N\u00e3o estava morta, apenas entorpecida pelo frio, e, como tinha sido aquecida, come\u00e7ava a voltar a si.No Outono, as andorinhas voam todas para terras mais quentes, mas, se uma delas se atrasa, o frio pode faz\u00ea-la gelar; ent\u00e3o cai no ch\u00e3o e depressa fica coberta de neve.A Polegarzinha tremia, assustada; a ave era muito maior do que ela, que s\u00f3 tinha dois cent\u00edmetros e meio de altura. Mas encheu-se de coragem e aconchegou a lanugem de cardo ao corpo da pobre andorinha. Depois, foi a correr buscar a sua coberta, uma folha de hortel\u00e3, para lhe tapar a cabe\u00e7a.Na noite seguinte, esgueirou-se outra vez para visitar a andorinha \u2014 ela estava realmente viva, mas t\u00e3o fraca que mal p\u00f4de abrir os olhos para olhar para a Polegarzinha. Ali estava ela, com um pedacinho de madeira podre na m\u00e3o, porque n\u00e3o tinha outra lanterna.<br \/>\n\u2014 Obrigada, obrigada, linda menina \u2014 disse a andorinha doente. \u2014 Aqueceste-me t\u00e3o bem que depressa estarei suficientemente forte para voar ao sol brilhante.<br \/>\n\u2014 Oh! \u2014 exclamou a Polegarzinha \u2014 ainda est\u00e1 muito frio l\u00e1 fora! H\u00e1 neve e gelo por todo o lado. Fica a\u00ed na tua caminha quente que eu trato de ti.Depois levou-lhe \u00e1gua numa folha, e a andorinha bebeu e contou-lhe como tinha magoado uma asa numas silvas e, por isso, n\u00e3o tinha conseguido voar t\u00e3o depressa como as outras andorinhas quando partiram para terras mais quentes. Por fim, acabara por cair, e n\u00e3o se lembrava de mais nada. N\u00e3o fazia a menor ideia de como tinha ido parar ali.Durante todo o Inverno, a andorinha ficou na passagem subterr\u00e2nea. A Polegarzinha tratou dela e tornou-se muito sua amiga. Mas n\u00e3o disse nada ao toupeiro nem ao rato do campo, porque eles n\u00e3o gostavam de avezinhas. Por fim, chegou a Primavera e os raios de Sol come\u00e7aram a atravessar a terra. A andorinha disse adeus \u00e0 Polegarzinha e reabriu o buraco que o toupeiro tinha feito no tecto da passagem. A luz do Sol encheu ambas de alegria, e a andorinha pediu \u00e0 Polegarzinha que fosse com ela; podia subir para as suas costas e voariam para a floresta cheia de verdura. Mas a Polegarzinha sabia que o velho rato do campo ficaria triste se ela se fosse embora assim sem mais nem menos.<br \/>\n\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o posso ir \u2014 disse ela.<br \/>\n\u2014 Ent\u00e3o adeus, adeus, linda menina bondosa! \u2014 respondeu a andorinha, voando em direc\u00e7\u00e3o ao Sol.A Polegarzinha viu-a subir no c\u00e9u, e os seus olhos encheram-se de l\u00e1grimas, porque se tinha tornado muito amiga da pobre andorinha.<br \/>\n\u2014 Tuit, tuit! \u2014 cantou a avezinha, voando em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 floresta verde.A Polegarzinha estava agora muito triste. N\u00e3o a deixavam sair para a claridade do Sol, e, nos campos onde vivia, o trigo era t\u00e3o alto que, para ela, era como uma floresta que se erguia muito acima da sua cabe\u00e7a.<br \/>\n\u2014 Tens de ter o teu enxoval pronto este Ver\u00e3o \u2014 disse o rato do campo, porque, entretanto, o vizinho toupeiro do casaco de veludo tinha proposto casamento \u00e0 Polegarzinha. <br \/>\n\u2014 Precisas de roupas de linho e l\u00e3 e de muitos cobertores e len\u00e7\u00f3is quando fores casada com o toupeiro.A Polegarzinha teve de trabalhar arduamente com a roca, e o toupeiro contratou quatro aranhas para tecerem para ela de dia e de noite. Todas as tardes lhe fazia uma vista e dizia sempre que, quando o Ver\u00e3o acabasse e o Sol n\u00e3o estivesse t\u00e3o terrivelmente quente e deixasse de queimar a terra at\u00e9 a deixar dura com uma pedra, ent\u00e3o casariam. Mas a Polegarzinha n\u00e3o estava nada satisfeita, porque n\u00e3o gostava daquele velho toupeiro t\u00e3o pomposo. Todas as manh\u00e3s, quando o Sol se erguia, e todas as noites, quando se punha, ela esgueirava-se l\u00e1 para fora; quando o vento fazia ondular as espigas de trigo, conseguia ver o c\u00e9u azul e pensava sempre como era bom e belo viver ao ar livre. Desejava imenso ver de novo a sua amiga andorinha, mas ela n\u00e3o voltou a aparecer; tinha voado para o bosque verde coberto de folhas.Quando o Outono chegou, o enxoval da Polegarzinha estava pronto.<br \/>\n\u2014 Casas daqui a quatro semanas \u2014 disse o rato do campo.Mas a Polegarzinha come\u00e7ou a chorar e disse que n\u00e3o queria casar com o toupeiro.<br \/>\n\u2014 Que disparate! \u2014 respondeu o rato do campo. \u2014 N\u00e3o te ponhas com problemas. Arranjaste um marido espl\u00eandido, pois nem a rainha tem um casaco de veludo preto t\u00e3o bom como o dele! E pensa naquela cozinha e cave t\u00e3o bem fornecidas! Deves agradecer a tua boa sorte.E, assim, chegou o dia do casamento. O toupeiro j\u00e1 tinha ido buscar a Polegarzinha, pois ela ia viver com ele bem debaixo do solo; nunca mais poderia apanhar a luz radiante do Sol, porque o toupeiro n\u00e3o a suportava. Cheia de tristeza, foi dizer o \u00faltimo adeus ao Sol brilhante; enquanto vivera com o rato do campo, sempre a tinham deixado ir pelo menos at\u00e9 \u00e0 porta. <br \/>\n\u2014 Adeus, Sol brilhante! \u2014 disse ela, erguendo os bra\u00e7os em direc\u00e7\u00e3o a ele e dando alguns passos no campo imenso, pois o trigo tinha sido ceifado e s\u00f3 ficara restolho.<br \/>\n\u2014 Adeus, adeus \u2014 disse ela outra vez, abra\u00e7ando uma florzinha vermelha que crescia por entre os caules. \u2014 Se alguma vez tornares a ver a andorinha, diz-lhe que lhe mando saudades! Nesse preciso momento ouviu um som <br \/>\n\u2014 tuit, tuit \u2014 mesmo por cima de si. Era a andorinha.Como estava, contente por ver a sua amiga Polegarzinha! Ent\u00e3o esta contou-lhe que tinha de casar nesse mesmo dia com o toupeiro e ir viver com ele debaixo da terra, onde o Sol nunca brilhava. E as l\u00e1grimas saltaram-lhe dos olhos s\u00f3 de pensar nisso. <br \/>\n\u2014 Vem a\u00ed o frio Inverno \u2014 disse a andorinha. \u2014 Vou voar para longe, para os pa\u00edses quentes. Por que n\u00e3o vens comigo? Podes subir para as minhas costas e atares-te mim com o teu cinto. Deixamos o toupeiro e a sua casa escura e voamos para muito,muito longe, por cima das montanhas, para um pa\u00eds onde o Sol brilha ainda mais do que aqui, onde \u00e9 sempre Ver\u00e3o e onde as matas e as florestas est\u00e3o cobertas das mais belas flores. Ah, vem comigo, querida Polegarzinha, tu que me salvaste a vida quando eu estava gelada na escura passagem debaixo da terra! <br \/>\n\u2014 Sim, vou contigo \u2014 acabou por dizer a Polegarzinha. Sentou-se nas costas da ave e atou o cinto a uma das suas penas mais fortes. Ent\u00e3o, a andorinha ergueu-se muito alto no c\u00e9u e voou por cima de florestas, lagos e montanhas onde h\u00e1 sempre neve. O ar gelado fazia a Polegarzinha tremer, mas ela enfiava-se debaixo das penas quentes da ave e s\u00f3 espreitava para olhar, assombrada, para as belas coisas l\u00e1 em baixo. Por fim, chegaram aos pa\u00edses quentes. A\u00ed, o Sol brilhava com muito mais intensidade do que a Polegarzinha supunha ser poss\u00edvel; o c\u00e9u parecia duas vezes mais alto. Ao longo das estradas, havia deliciosas uvas brancas e roxas; lim\u00f5es e laranjas pendiam das \u00e1rvores; o ar estava perfumado de mirto e de muitas outras plantas arom\u00e1ticas; e, pelos caminhos, corriam muitas crian\u00e7as lindas, a brincar por entre coloridas borboletas. Mas a andorinha voou ainda para mais longe, para onde a paisagem era tamb\u00e9m ainda mais bonita. E ent\u00e3o, \u00e0 sombra de enormes \u00e1rvores verdes, na margem de um lago azul-safira, viram um pal\u00e1cio muito antigo constru\u00eddo em m\u00e1rmore branco, com videiras enroladas nas suas altas colunas. Mesmo no cimo das colunas havia muitos ninhos de andorinhas, e num deles vivia a amiga da Polegarzinha. <br \/>\n\u2014 A minha casa \u00e9 esta \u2014 disse ela. \u2014 Mas, se quiseres escolher uma daquelas lindas flores ali em baixo, eu ponho-te l\u00e1, e podes viver feliz \u00e0 tua vontade. <br \/>\n\u2014 Ah, como vou gostar! \u2014 gritou a Polegarzinha, batendo as m\u00e3ozinhas. Uma grande coluna branca estava ca\u00edda por terra, partida em tr\u00eas bocados, e entre eles cresciam altas e belas flores brancas. A andorinha voou at\u00e9 l\u00e1 abaixo com a Polegarzinha e poisou-a numa p\u00e9tala. Ent\u00e3o, a Polegarzinha teve uma grande surpresa. Ali, no centro da flor, estava um principezinho, t\u00e3o belo e delicado que parecia feito de vidro. Tinha na cabe\u00e7a a coroa de ouro mais bonita que pode imaginar-se e nos ombros um par de asas coloridas e brilhantes, e n\u00e3o era maior do que a pr\u00f3pria Polegarzinha. Era o esp\u00edrito que guardava a flor. Em cada flor havia uma criaturinha igual, mas ele era o rei de todas. <br \/>\n\u2014 Que bonito que ele \u00e9! \u2014 sussurrou a Polegarzinha \u00e0 andorinha. O principezinho ao princ\u00edpio ficou muito assustado com a ave, que lhe parecia gigantesca, mas quando viu a Polegarzinha ficou cheio de alegria. Achou que ela era a mais bela de todas as criaturas que jamais tinha visto, mesmo entre as fadas das flores. Tirou a coroa de ouro da sua cabe\u00e7a e colocou-a na dela e perguntou-lhe como se chamava e se queria ser sua mulher e rainha de todas as flores. Bem, este marido podia ela amar de verdade \u2014 era muito diferente do filho do sapo ou do velho toupeiro com o seu casaco de veludo. E por isso disse que sim ao belo pr\u00edncipe. Ent\u00e3o, ergueu-se de cada flor uma criaturinha, rapaz ou rapariga, homem ou mulher, t\u00e3o pequeninas e t\u00e3o bonitas que era emocionante v\u00ea-las. Todas deram uma prenda \u00e0 Polegarzinha, mas a melhor de todas foi um lindo par de asas. Prenderam-nas aos ombros da Polegarzinha, e agora tamb\u00e9m ela podia voar de flor em flor. Toda a gente estava cheia de alegria: era como uma maravilhosa festa de Ver\u00e3o. A andorinha, l\u00e1 em cima no seu ninho, cantou-lhes a can\u00e7\u00e3o mais bonita que sabia, mas no fundo estava triste, porque gostava tanto da Polegarzinha que n\u00e3o queria separar-se dela. <br \/>\n\u2014 Nunca mais te chamar\u00e1s Polegarzinha \u2014 declarou o pr\u00edncipe das flores. \u2014 N\u00e3o \u00e9 um nome suficientemente bonito para uma criatura t\u00e3o bela como tu. A partir de agora, vamos chamar-te Maia! <br \/>\n\u2014 Adeus, adeus \u2014 disse a andorinha, quando chegou a altura de voar de novo dos pa\u00edses quentes para a Dinamarca.A\u00ed, ela tinha um pequeno ninho ao lado da janela do homem que escreve contos de fadas.<br \/>\n\u2014 Ouve, ouve \u2014 trinou a andorinha para o escritor de contos de fadas&#8230;E foi assim que soubemos esta hist\u00f3ria<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era uma vez uma mulher que queria ter um filho muito pequenino, mas n\u00e3o sabia como havia de fazer para encontrar um. Ent\u00e3o, foi ter com uma velha bruxa e disse-lhe: \u2014 Gostava tanto de ter um filho pequenino! N\u00e3o sabes dizer-me onde posso arranjar um? \u2014 Oh, isso n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil \u2014 disse a bruxa. \u2014 Aqui tens um gr\u00e3o de cevada, e olha que n\u00e3o \u00e9 da que cresce nos campos dos lavradores nem daquela que as galinhas comem. Planta este gr\u00e3o num vaso e ver\u00e1s o que acontece! \u2014 Oh, obrigada! \u2014 disse a mulher, dando uma moeda de prata \u00e0 bruxa. Depois foi para casa e semeou o gr\u00e3o. N\u00e3o foi preciso esperar muito tempo para que nascesse uma bela flor; parecia uma t\u00falipa, mas as p\u00e9talas estavam muito fechadas como se fosse ainda um bot\u00e3o. \u2014 Que linda flor! \u2014 disse a mulher, dando um beijo nas p\u00e9talas vermelhas e amarelas. Nesse preciso momento, a flor abriu-se com um forte estalido. Era realmente uma t\u00falipa \u2014 agora via-se bem \u2014, mas mesmo no centro da flor, no centro verde, estava sentada uma menina min\u00fascula, graciosa e delicada como uma fada. 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