O Poço

— Papai, papai, papaiiiiii… onde Deus mora?
A pequena menininha perguntou apressada para seu pai, tão assim de repente…
O homem estava diante do espelho, fazendo a barba, super ocupado concentrado…
Sem pensar muito, respondeu: — Deus mora no poço, filha…
A menina arregalou os olhos e saiu correndo pela casa.
Pouco depois, a mãe apareceu na porta do banheiro, um pouco aflita.
— Por que você disse à menina que Deus mora no poço, amor??
O homem se virou, surpreso.
— Eu disse isso?
— Disse. Ela veio me perguntar se Deus mora no poço mesmo!
Ele ficou pensativo por um instante.
— Engraçado… eu nem pensei antes de responder… Mas acho que sei de onde veio essa lembrança…
A menina aproximou e ficou junto a mãe escutando o que o pai tinha pra contar: Quando eu era menino — começou ele contando — morávamos num sítio que tinha um velho poço em frente à casa um pouco semelhante ao que a gente tem no fundo do quintal aqui… Certo dia passou por ali uma pequena caravana de andarilhos pedindo água. Entre eles havia um homem alto, de barba longa. Ele tirava água do poço quando, de repente, parou… e ficou olhando para dentro por um longo tempo. Aquilo despertou minha curiosidade… e, percebendo meu olhar, ele me chamou: — Venha cá, garoto. Quando me aproximei, ele perguntou: — Você sabe onde Deus mora? Balancei a cabeça dizendo que não. Então ele me pegou no colo e disse: — Veja. Deus mora no fundo do poço. Inclinei-me sobre a borda e olhei para a água calma e cristalina. Mas lá no fundo não havia nada. Apenas o reflexo do meu próprio rosto. — Senhor… eu não vejo nada — falei. — Só vejo a mim mesmo na água. O homem sorriu e respondeu: — Agora você sabe onde Deus mora.

A menina ouviu a história inteira em silêncio. E, acabando de escutar o pai, saiu correndo pelo quintal.
Correu até o velho poço que havia atrás da casa. Com cuidado, apoiou as mãos na borda de pedra e olhou para dentro. A água estava quieta, como um espelho. E ali, refletido no fundo do poço, estava o seu próprio rosto.
Naquele instante, ela entendeu toda a magia da história que seu pai havia contado.Sorriu baixinho e sussurrou: — Deus vive em mim!


História inspirada em um relato de Neville Goddard numa palestra em 1970, citada no livro “A Centelha Divina”, de May Andrade e recontada por Luana Beatriz de Jesus.

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