
Era uma vez, em eras tão antigas que o vento ainda sabia contar histórias aos telhados das casas, um imperador já curvado pelos anos, senhor de uma terra distante. Seus cabelos eram brancos como a neve que coroava os montes no inverno, e seus olhos, embora cansados, guardavam o brilho de quem muito vivera e muito aprendera.
Chamava-se Imperador Akihiro, e governara com justiça e mansidão. Contudo, não possuía filhos, nem filhas, nem parentes a quem confiar o trono dourado que reluzia no grande salão do palácio. E essa ausência era-lhe como um sino grave a soar todas as noites em seu coração.
— De que vale um reino próspero — murmurava ele às estrelas — se não houver mãos dignas para guiá-lo quando as minhas repousarem?
Após longas reflexões e conselhos com os sábios da corte, teve uma ideia que lhe pareceu tão clara quanto o sol da primavera.
Mandou anunciar por todo o reino:
— Que venham ao palácio todos os meninos de boa índole! Deles sairá aquele que herdará minha coroa.
No dia marcado, o pátio real encheu-se de pequenos pés inquietos, olhos curiosos e corações palpitantes. Entre eles estava um menino de olhar sereno e passos ligeiros chamado Yuki. Vivia com sua mãe numa casa simples próxima ao rio, onde aprendera que a verdade é como água limpa: pode ser fria, mas purifica.
O imperador surgiu na varanda principal, sustentado por seu cajado de madeira entalhada.
— Cada um de vocês receberá uma semente — anunciou ele. — Plantem-na, cuidem dela com zelo. Daqui a um ano, retornem com o resultado de vosso esforço. A planta mais bela revelará o coração mais digno.
E distribuiu, uma a uma, pequenas sementes escuras como grãos de noite.
Yuki correu para casa com o coração ardendo de entusiasmo. Escolheu o melhor vaso que possuía, encheu-o com a terra mais fértil do quintal, afofou-a com cuidado e depositou ali sua semente como quem guarda um tesouro. Regou-a com delicadeza, colocou o vaso onde o sol da manhã a beijava primeiro.
Dias passaram.
Depois semanas.
Depois meses.
E nada.
A terra permanecia muda.
Yuki trocou o solo. Misturou adubo. Ajustou a luz. Conversou com o vaso como se conversa com um amigo triste.
— Por favor… cresça — sussurrava ele.
Mas a semente não brotava.
Enquanto isso, pela vila, cochichos corriam. Pequenas folhas verdes surgiam nos vasos de outros meninos. Algumas plantas já se erguiam vistosas, com caules firmes e botões promissores.
O inverno chegou e partiu.
A primavera retornou.
E o vaso de Yuki continuava apenas… terra.
Na véspera do grande dia, o menino sentou-se ao lado da mãe, os olhos marejados.
— Eu falhei — disse ele.
A mãe afagou-lhe os cabelos.
— Falha é mentir para esconder o que não floresceu. Se nada nasceu, leve a verdade. Ela, sim, sempre germina.
Chegou o dia da apresentação.
O palácio resplandecia com bandeiras e trombetas. Uma fila imensa formava-se diante do trono. Vasos exuberantes exibiam flores raras, cores vibrantes, folhas que pareciam pintadas à mão pela própria primavera.
Ao final da fila, pequeno como um ponto no horizonte, estava Yuki, segurando seu vaso de terra nua.
Os risinhos começaram.
— Esqueceu de plantar?
— Talvez a semente tenha medo dele!
Yuki manteve os olhos baixos, mas seus passos não recuaram.
O imperador passou de criança em criança, examinando as plantas com atenção. Seu rosto, porém, não demonstrava surpresa nem encanto.
Por fim, chegou diante do menino de vaso vazio.
— E você, meu jovem?
Yuki respirou fundo, mas sua voz tremia.
— Perdoe-me, majestade… eu cuidei… fiz tudo o que pude… mas a semente não brotou.
E as lágrimas, sinceras como chuva de verão, rolaram por seu rosto.
O imperador pousou a mão enrugada sobre a cabeça do menino, enxugou-lhe as lágrimas com o lenço de seda e… sorriu.
Um sorriso largo. Verdadeiro.
— Ah, minha criança… se todos fossem como você!
Um murmúrio percorreu a multidão.
O imperador levantou-se com esforço e pediu que Yuki o acompanhasse até a varanda. De lá, viam-se as torres, as casas, os campos dourados e o povo reunido.
Então o velho soberano declarou em voz firme:
— Quando distribui as sementes, havia nelas um segredo. Todas foram fervidas antes de chegarem às vossas mãos. Eram sementes mortas. Jamais poderiam germinar, não importa o cuidado recebido.
O silêncio caiu como um manto.
— Contudo — continuou ele — quase todos preferiram substituir a semente e trazer outra planta, bela aos olhos, mas nascida da mentira. Apenas este menino teve a coragem de trazer-me a verdade nua, ainda que lhe doesse.
Voltou-se para ele.
— Qual é o teu nome, criança?
— Yuki… senhor.
— Pois bem, Yuki, teu coração floresceu onde nenhuma semente podia florescer. E um reino não se sustenta com jardins falsos, mas com verdade. A partir de hoje, és meu herdeiro.
Um espanto coletivo transformou-se em aplauso. Alguns pais abaixaram a cabeça; outros sorriram envergonhados. Mas todos compreenderam a lição.
Nos anos que se seguiram, o jovem príncipe estudou as leis, ouviu os camponeses, caminhou pelas vilas sem escolta e aprendeu que governar é servir.
E quando o velho imperador partiu como folha levada pelo vento de outono, foi Yuki quem subiu ao trono de Reino de Harukami, não com a soberba de quem venceu, mas com a humildade de quem foi verdadeiro.
Dizem que seu reinado foi como um jardim bem cuidado: não o mais extravagante, mas o mais honesto. E que, sob seu governo, até as sementes mais frágeis encontravam terra justa para crescer.
E essa história entrou por uma porta e saiu por outra…
e quem quiser que conte outra.


