Meu segundo filho, Iago Emanuel, teve um desenvolvimento considerado normal até completar 1 ano. Tudo bem que, aos 5 meses, ele teve alergia alimentar mas isso eu conto em outro post aqui do blog. Ele começou a balbuciar cedo, lá pelos 5 para 6 meses, e tudo parecia dentro do esperado. A única coisa diferente era que ele não aceitava músicas infantis, como Galinha Pintadinha, Patati Patatá e semelhantes. Ele preferia assistir sempre aos mesmos desenhos e não aceitava mudar sua rotina. Também tinha uma mantinha, que ele mamava e não largava por nada.
Até aí, eu achava tudo bem, apenas o jeitinho dele.

Mas quando ele fez 1 ano, depois da festinha, ele começou a mudar. Ele já não olhava mais para fotos, parou de falar como antes, ficava nervoso quando não conseguia fazer algo e jogava as coisas no chão com raiva. Às vezes dava tapas no chão. Muitas vezes ficava deitado olhando para o teto, como se tivesse “desligado”. Eu o chamava e ele se fingia de surdo.
Também passou a rejeitar alimentos misturados só aceitava tudo separadinho, como arroz de um lado e feijão de outro.

Achei tudo aquilo estranho e comecei a pesquisar. Passei o dia inteiro lendo artigos, relatos, assistindo documentários, filmes, tudo. Foi quando percebi que muitos sinais batiam com autismo, até mesmo a mantinha, que muitos autistas usam como objeto transicional.

Na época, estávamos muito endividados e, como eu ainda não tinha certeza, resolvi tentar fazer terapias em casa. Um filme antigo, Meu Filho, Meu Mundo, mudou completamente minha visão. Decidi aplicar o mesmo método com o Iago.
Conversei com sua irmã, Ana, e nós duas começamos a trabalhar com ele. Meu marido passava o dia fora trabalhando, então ficávamos nós duas criando atividades: jogos interativos, massinha, livros. Como ele não falava, comprei microfones, instrumentos musicais… e, de pouco em pouco, a Ana conseguiu inserir a música na rotina dele. Ele cantava, mas só para ela.

Ele voltou a falar perto dos 3 anos e era pouco. Respondia usando só a última palavra da frase:

-Iago, você tá bem?
-Bem.
-Iago, como foi lá?
-Lá.

Mesmo assim, já era uma vitória enorme. A partir daí começamos a brincar de entrevistas, e ele foi aprendendo a interagir.
Depois, veio outra fase: ele atropelava as palavras, chegava empolgado para contar algo e falava tudo de uma vez, sem respirar. A gente não entendia nada.

Com comida foi igual: fomos misturando aos poucos, fazendo parecer acidente e explicando que todo mundo come assim. Aos poucos ele foi aceitando.
Ele não comia Danoninho se tivesse um fiapinho de papel. Eu tentava mostrar pra ele que a vida não é perfeita — que às vezes o potinho vem falho, mas continua comestível. Tampei com o dedo e disse:

-Olha, dá pra tomar assim, não dá?

Ele disse que sim. Tomou. E entendeu.

Quando chegou a hora da escolinha, conversei bastante com ele. Lá, ele queria ser o primeiro em tudo: na fila, na lição, na brincadeira. Aos poucos fui mostrando que ele precisava aprender a esperar.

Outra coisa: quando era pequeno, Iago não tinha noção de perigo. Ele quase pulou da janela se eu não tivesse visto. Subia em tudo querendo se jogar. Precisei mostrar imagens de quedas e machucados para ele entender. Ele também caía e não chorava, como se não sentisse dor.

Levá-lo ao cabeleireiro foi outro desafio: deu crise com a maquininha. Então aprendi a cortar na tesoura. Sempre que cortava, ligava a maquininha só para ele ouvir. Com o tempo, foi perdendo o medo.

Na escola, Iago sempre foi perfeccionista. Precisa tirar 10. Quando não tira, fica emburrado e chora. Ele tem hiperfoco em desenho e ama desenhar no tradicional. No início, recusava apagar erros. Se errava, jogava a folha fora. Ensinar ele a usar borracha foi um processo.
Hoje, desenha todos os dias — e muito bem, do jeitinho dele.

Ano passado, ele me deu trabalho na escola: me ligaram mais de 15 vezes dizendo que ele estava com dor de cabeça. Levei-o ao médico, mas não era nada físico. Pesquisei de novo e vi que podia ser enxaqueca sonora. A sala estava muito barulhenta, e ele queria prestar atenção na professora, mas não conseguia. Comprei um abafador para momentos de crise e resolveu.
Mas expliquei que o abafador é só um escape, que ele também precisa ensinar o cérebro a se adaptar aos sons do mundo real, para não virar dependência.

Assim como abafador, penso o mesmo sobre remédios.
Ele nunca tomou remédio para acalmar. Eu ensinei respiração, contar números, pensar em coisas boas. Funciona.

E um ponto que transformou o Iago da água para o vinho foi o teatro.
Ali ele aprendeu a se expressar, a entender emoções, a falar o que sente e a se soltar para o mundo.

Hoje, Iago tem 10 anos. Ainda não tem diagnóstico fechado, mas na UPA ele passa como autista porque todos já viram suas crises: ele não aceita a borrachinha do cateter, vomita certos remédios, tem ansiedade pela espera… mas estamos trabalhando isso com calma.

O mais curioso é que algumas pediatras olham para ele por 3 minutos e dizem:
-“Ele não é autista. Isso é modinha de pais superdotados.”

Outros dizem que “ele não tem cara de autismo”.
Mas autismo tem cara?

Eu acredito firmemente que intervir cedo faz diferença, sim. Sei que existem níveis e comorbidades e que algumas crianças precisam de remédios, profissionais e muitos cuidados.
Mas no filme que assisti, eles conseguiram ajudar uma criança grau 3 a chegar no grau 1.
Eu acredito nessa evolução.
Acredito que, se eu não tivesse feito tudo que fiz, talvez meu filho tivesse ficado não verbal. Talvez grau 3. Não sei.

Só sei que nós, mães e pais, conhecemos nossos filhos melhor que qualquer pessoa.
E que nada substitui o amor, a presença e a paciência de sentar ali durante uma crise, acolher, explicar e ensinar como lidar com o que estão sentindo.

Hoje em dia todo mundo quer solução rápida:
“Tá com crise? Toma celular.”
“Tá nervoso? Toma remédio.”

Mas poucos pegam a criança no colo, conversam, respiram juntos, ensinam a se acalmar, mostram o mundo com carinho.

Vivemos num ritmo acelerado, com informação demais, tecnologia demais. Às vezes precisamos desligar um pouco, sentir a natureza, escutar nosso próprio corpo, entender nossas falhas e lutar nossas batalhas.

Pode ser difícil? Pode.
Pode parecer impossível? Também.
Mas tentar vira hábito.
E quando você menos espera, aquilo que parecia impossível acontece porque você insistiu e acreditou.

Essa é a minha visão sobre o autismo.
Diagnóstico não é destino. Lute pelo seu filho.^^

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